Capítulo 6

POV Kael

Voltar para a alcateia não tinha melhorado meu humor.

Na verdade, tinha piorado.

Quanto mais eu tentava esquecer aquela noite, mais lembrava dela. Do tapa. Do jeito que limpou a própria boca depois de me beijar. Como se eu fosse algo nojento.

Entrei na caminhonete e bati a porta com mais força do que pretendia.

Nem consegui ligar o motor.

A porta do passageiro se abriu.

Cassian entrou sem pedir licença.

— Bom dia pra você também.

Não respondi.

Ele afivelou o cinto, me lançou um olhar de lado e franziu a testa.

— O que aconteceu?

Liguei a caminhonete.

— Nada.

— Kael.

Suspirei enquanto saía da garagem.

Seguimos alguns metros em silêncio. Eu sabia que ele não desistiria.

Nunca desistia.

— Tá.

Cruzei uma esquina antes de falar.

— Encontrei a Genevieve.

Cassian virou a cabeça tão rápido que quase bateu na janela.

— Caralho…

Piscou algumas vezes.

— Você encontrou a Genevieve?

Assenti.

Ele esperou.

Respirei fundo.

— Beijei ela.

O silêncio tomou conta da caminhonete.

Cassian ficou alguns segundos apenas me encarando.

— Você fez o quê?

Continuei olhando para a estrada.

— Eu sei.

— Não.

Ele passou a mão no rosto, completamente incrédulo.

— Você simplesmente apareceu e beijou a garota que você rejeitou?

Apertei o volante.

Não existia resposta capaz de melhorar aquilo.

— E ela?

Soltei o ar devagar.

— Me deu um tapa.

Cassian ficou completamente imóvel.

Por um segundo, esperei a bronca.

Ela veio logo depois.

Em vez disso…

Explodiu em uma gargalhada.

Precisou apoiar a cabeça no banco para conseguir respirar.

— Pela Deusa…

Tentava falar entre uma risada e outra.

— Ela deu um tapa…

Outra gargalhada escapou.

— Na cara do poderoso Alfa Kaellen Draven!

Continuei dirigindo em silêncio até respirar fundo.

— Não me obrigue a usar minha voz de Alfa em você.

Cassian finalmente conseguiu olhar para mim, ainda sorrindo.

— Você não ousaria.

O silêncio voltou a preencher o carro.

Aos poucos, a diversão desapareceu do rosto dele.

Ele suspirou.

— Mas você sabe que o que fez foi errado, né?

Continuei olhando para a estrada.

— Depois de rejeitar ela…

A frase ficou incompleta por alguns segundos.

Então ele concluiu:

— Ela poderia ter morrido, Kael.

Meus dedos apertaram o volante com mais força.

Eu sabia.

Sabia exatamente o que aquela rejeição tinha custado.

As palavras de Cassian continuaram martelando na minha cabeça.

Ela poderia ter morrido, Kael.

Durante a reunião da alcateia.

Enquanto eu assinava relatórios.

Durante o treinamento dos guerreiros.

Nem mesmo quando Seraphine ligou pela terceira vez naquela semana para perguntar detalhes da cerimônia que aconteceria dali a alguns meses eu consegui prestar atenção no que ela dizia.

Minha cabeça sempre acabava voltando para o mesmo lugar.

Para aquele beco.

Para aqueles olhos azuis.

Para a mão dela acertando meu rosto.

Ela poderia ter morrido.

Cassian tinha razão.

Eu sabia disso.

Sabia melhor do que qualquer um, porque também tinha sentido a dor excruciante do rompimento do vínculo. Ela quase me colocou de joelhos.

A diferença era que eu era um lycan puro.

Genevieve não.

Ela era filha de um lycan e de uma humana.

Era praticamente um milagre ela ter sobrevivido.

E, depois de tudo aquilo, eu não tinha direito nenhum de aparecer na vida dela de novo.

Muito menos de perturbá-la.

Muito menos estando prestes a me casar com a lycan que eu mesmo tinha escolhido.

Eu sabia de tudo isso.

Então por que diabos eu estava em cima daquela maldita moto, cruzando territórios, para voltar àquele bar decadente?

O ronco da minha moto morreu assim que estacionei em frente ao Howling Moon.

Era sexta-feira.

Mais uma.

Empurrei a porta do bar.

O cheiro de cerveja, madeira envelhecida e música alta era exatamente o mesmo da última vez.

Meu olhar percorreu o salão automaticamente.

Nada.

Nem Genevieve.

Nem a garçonete de cabelo colorido.

Meu peito afundou.

Franzi a testa.

Olhei para o relógio preso na parede.

Ela já devia estar trabalhando.

Escolhi uma mesa no fundo e pedi um uísque.

Depois outro.

Quando o segundo copo já estava pela metade, uma voz conhecida chamou minha atenção.

— Cadê nossas meninas?

Levantei os olhos.

Era o mesmo velho da outra noite.

O que Genevieve tinha chamado de Docinho.

O dono do bar sorriu enquanto secava um copo.

— Tá sentindo falta delas também, Artur?

— Claro que tô.

Artur resmungou.

— O atendimento desse lugar caiu uns oitenta por cento sem aquelas duas.

Algumas pessoas riram.

O dono do bar balançou a cabeça.

— Hoje você vai ter que se conformar.

Apontou para uma das garçonetes.

— A Jenny terminou a graduação hoje.

Meu corpo inteiro enrijeceu.

— Ela e a Elara foram comemorar.

Deu de ombros.

— São jovens.

Sorriu.

— Precisam perder o juízo de vez em quando.

As pessoas ao redor riram.

Meu lobo não.

Minha.

A palavra ecoou na minha cabeça com uma violência que fez meus dentes se fecharem.

Não.

Ela não era minha.

Nunca mais seria.

Mesmo assim, a simples ideia de Genevieve rindo, bebendo, dançando, com algum homem olhando para ela, fez meu estômago revirar.

Encontre ela.

Ignorei meu lobo.

Terminei o uísque de uma vez.

Aquilo não era da minha conta.

Ela era livre.

Livre para comemorar.

Livre para conhecer quem quisesse.

Livre para seguir em frente.

Eu tinha escolhido esse destino para nós.

Então por que a ideia de outro homem fazendo ela rir fazia meu sangue ferver?

Porque ela é nossa.

Cerrei a mandíbula.

— Cala a boca.

Murmurei para mim mesmo.

Meu lobo apenas rosnou.

Nossa.

A palavra ecoou dentro da minha cabeça como uma sentença.

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