Capítulo 42

Eu comecei a entender aos poucos.

Não como uma revelação súbita, nem como um choque. Foi mais parecido com quando a gente se dá conta de que sempre esteve olhando para alguém através de uma janela embaçada. A imagem existe, mas distorcida. E, de repente, sem aviso, o vidro é limpo.

Henrico não era só frieza.

Ele era o que vinha antes dela.

Aurora adormeceu no meu colo naquela noite sem resistência. O corpo pequeno foi relaxando aos poucos, o peso leve se entregando com uma confiança que ainda me surpreendia. Eu estava sentada no sofá da sala menor, aquela onde a iluminação era mais suave e os sons da casa chegavam amortecidos, como se o mundo fosse mantido do lado de fora.

O braço dela escorregou lentamente, a cabeça encontrando um encaixe natural contra meu peito. A respiração ficou ritmada. Calma. Pela primeira vez em dias, não havia tensão no corpo dela.

Fiquei imóvel.

Não queria quebrar aquele instante.

Henrico entrou na sala sem perceber de imediato. Eu senti a presença dele ante
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