Mundo ficciónIniciar sesiónO acampamento dormia.
Rádios chiavam baixo. Metal estalava ao esfriar. Nada além do comum. Selena despertou sentando-se de súbito. Não foi medo. Foi som. Um ruído que não vinha do ar — vinha de baixo. Um rangido abafado, profundo, como algo sendo forçado a se abrir sob a terra. Ela prende a respiração. O som se repete. Mais perto. — Agora — disse a voz, sem urgência. — O solo está cedendo. Selena já estava de pé. Calçou os sapatos às pressas e saiu da barraca. A noite estava escura, pontilhada por lanternas fracas. Vigias caminhavam distraídos, armas apoiadas no ombro. Ela correu até o primeiro posto. — Acordem todos — disse, firme. — O terreno está instável. Precisam recuar. Um dos vigias balançou a cabeça. — Senhorita, está tudo… O estalo veio do chão. Seco. Profundo. Selena não esperou resposta. Virou-se e correu. — Comandante Adam! O comandante saiu da barraca no mesmo instante. — O que houve? — O solo está cedendo! Ele franziu o cenho, prestes a questionar. O chão gemeu. A terra afundou em um trecho lateral do acampamento. Uma barraca tombou. Caixas deslizaram. Um homem caiu, gritando. Outro foi arremessado contra o solo. — Recuar! Todos para trás! — gritou Adam. Selena permaneceu imóvel por um segundo, o coração disparado, enquanto o acampamento despertava em caos. — Afastem-se! — grita Adam, instintivamente. A poeira sobe, espessa. Gritos se misturam ao som de metal raspando pedra. Selena corre para o lado onde o chão abriu. Um soldado tenta se levantar, mas a perna está presa entre estacas e terra solta. — Não puxe! — ela diz, ajoelhando-se ao lado dele. — O solo está instável! — Você enlouqueceu? — alguém berra. Selena não responde. Usa as mãos, depois um pedaço de madeira, criando apoio, desviando o peso com cuidado. — Olhe para mim — diz ao homem preso. — Não se mova, vamos tirar você daqui. Ele obedece. Adam observa a cena por um segundo a mais do que deveria. — Sigam o protocolo! — ordena, firme. — procurem um ponto seguro! Agora! Homens recuam, obedecendo. Com ajuda, Selena consegue liberar a perna do soldado. Um novo estalo ecoa atrás deles. Antes que alguém reaja, ela já o puxa para longe da área instável. O acampamento entra em alerta total. Barracas são evacuadas, equipamentos arrastados para terrenos mais firmes. — Tragam os rádios! — grita alguém. — Encontramos um ponto seguro! Os operadores se afastam para uma área elevada, ajustam os transmissores. — Aqui é posto avançado de resgate. — diz uma voz no rádio, já estabilizado. — Tivemos deslizamento parcial. Precisamos de apoio médico imediato. Só então Adam se volta para Selena. — Você está ferida? — pergunta, rápido, os olhos percorrendo-a. Ela nega com a cabeça, ofegante. — Não… só assustada. Ele solta o ar, visivelmente aliviado. — Você nos avisou a tempo — diz, mais baixo. — Se não tivesse saído da barraca… Ele não conclui. Um grito corta o ar. — Aqui! Precisamos de ajuda! Selena se vira no mesmo instante. — Ainda tem feridos! — diz, já se movendo. — Atenção aos machucados! — Adam ordena aos homens próximos. — Ninguém se afasta sozinho! Um soldado está sentado no chão, o rosto ensanguentado. Outro, segura o braço, claramente deslocado. Selena se ajoelha diante do primeiro. — Consegue me ouvir? Ele assente, atordoado. Ela pressiona um pano contra o ferimento, firme. — Respire devagar. Não tente se levantar. Preciso de pessoas para tirarem eles daqui. Selena fala sem olhar quem está próximo. Adam observa por um instante. — Façam como ela pediu. — diz aos outros. — Com cuidado. Selena passa de um ferido a outro, ajudando a conter sangramentos, apoiando quem pode se mover, mantendo imóveis aqueles que não devem ser tocados. Sempre dentro das orientações dadas. Suas mãos agem sem pressa. Sem comando. Apenas foco. Quando os rádios confirmam que o socorro está a caminho, o acampamento começa, enfim, a respirar. Selena se afasta alguns passos. As mãos sujas de terra, sangue dos feridos. O corpo tremendo agora que tudo passou. Adam se aproxima. O olhar dele não é mais apenas de comando. — Obrigado por ter avisado — diz. — E por sua ajuda. Selena assente, em silêncio. Ela observa o acampamento se reorganizando sob ordens de Adam, que age com firmeza. — e entende, com clareza, que agir não é liderar. Um jovem recruta murmura para outro, ainda ofegante: — Cheguei a duvidar da senhorita… O comentário corre baixo entre os homens. Não há aplausos. Apenas olhares mais atentos. Alguns assentem em silêncio antes de voltar ao trabalho. Selena percebe. Não o reconhecimento — o próprio corpo. As mãos firmes. A respiração estável. Uma pilha de caixas range. Uma delas começa a ceder. Selena se move antes que alguém grite. Segura o peso, redireciona, encosta a caixa no chão mais firme. A poeira sobe, mas não a faz recuar. Adam surge ao lado dela. Observa o terreno, depois a encara. — Está bem? — pergunta. Ela assente. — Bom trabalho, Selena. Nada mais é dito. Não precisa. Ao redor, a equipe se reorganiza sob ordens claras. Adam circula, aponta, confirma. O caos dá lugar ao método. Selena acompanha tudo em silêncio, entendendo que liderança não é força visível. É direção. O céu começa a clarear quando os primeiros moradores se aproximam, cautelosos. — O que aconteceu aqui? — alguém pergunta. — Não sabemos direito. — responde um soldado. — O solo cedeu durante a madrugada. Os olhos seguem as marcas abertas na terra. Adam decide sem elevar a voz: — Vamos desmontar. Mudamos o acampamento antes que o terreno ceda de novo. Ordens são repetidas. Barracas caem. Equipamentos são recolhidos. Quando o sol enfim rompe o horizonte, o lugar já está quase vazio. O que aconteceu naquela noite não será explicado em detalhes. Mas ninguém ali esquecerá. A médica que havia atendido Selena retorna após encaminhar os feridos mais graves para o pequeno hospital. Aproxima-se com um olhar atento, mas gentil. — Venha comigo até o hospital — diz. — Você precisa de um banho e de um novo exame. É surpreendente… passou por dois acidentes seguidos e parece estar ilesa. Antes que Selena responda, Adam se aproxima. — Agradeço, doutora. — Ele lança um olhar breve para Selena. — Vá com ela. Aproveite para descansar até que tudo esteja resolvido por aqui. A médica sorri, compreensiva. — Não se preocupe. Organize sua equipe. Selena pode ficar na sala de descanso. Também providenciarei algo para ela se alimentar. O corpo de Selena, finalmente fora do estado de alerta, começa a cobrar seu preço. O cansaço vem de uma vez. Ela assentiu em silêncio e segue com a médica. Enquanto se afasta do acampamento, percebe que, pela primeira vez desde o acidente, não está sendo levada por obrigação — mas por cuidado. E permite-se descansar.