Capítulo 06

Adam se afastou para retomar o controle das próprias emoções.

Um dia após o acidente, Selena voltou ao acampamento no final da tarde. Tudo parecia estranhamente normal: barracas firmes, equipamentos alinhados, vozes seguindo rotinas. Como se nada tivesse acontecido. Ela se sentou à sombra de uma barraca e abriu o envelope.

Dobrou uma das páginas, sentindo o papel marcar a ponta dos dedos.

A memória veio sem aviso. A diretora mantinha um jeito neutro, frio; o distanciamento era regra, o afeto inexistente. Ali, crianças eram provisórias. Só ela permanecera tempo demais, quebrando a lógica silenciosa do lugar.

As lágrimas não vieram. O corpo permaneceu imóvel.

O que se instalou foi um vazio lúcido, organizado demais — o mesmo que aprendera a sustentar desde cedo.

Então surgiu algo diferente.

Uma fisgada curta de revolta. Contida, firme. Não pelo abandono em si, mas pela mentira que o envolvia. Pela história que nunca conhecera. Pela palavra maldição, usada como ponto final, como se encerrasse qualquer pergunta.

Selena fechou o envelope, mas não o guardou. Deixou-o ao lado, consciente de que, pela primeira vez, não queria apenas suportar o passado — queria compreendê-lo. Saber quem decidiu. E por quê.

O rádio chiou baixo.

Selena ergueu o olhar por reflexo. Adam já se afastava alguns metros, procurando sinal. Caminhava com passos firmes demais para serem tranquilos.

— Fala… — disse, curto. — Como assim, piorou?

Virou ligeiramente o corpo, como se quisesse esconder a conversa do acampamento.

— Tem dinheiro para levar ao médico.

Selena manteve o olhar baixo, mas cada palavra ficava.

— E o menino? — insistiu ele.

O silêncio esticou o tempo.

Adam passou a mão pelo rosto.

— Isso não é cuidado — a voz saiu baixa, dura. — Se deixarem tudo e viajarem antes de resolver, posso denunciar como abandono.

O rádio estalou. A ligação caiu.

Adam permaneceu de costas por alguns segundos além do necessário. Quando se virou, Selena ainda estava ali.

Nenhum dos dois se apressou em falar.

— Desculpe — ela disse, por fim. — Não era minha intenção ouvir.

— Não tem problema — respondeu ele, com um breve gesto. — Não é segredo. Só… não é apenas trabalho que precisa de cuidado.

Olhou ao redor, para o acampamento que seguia vivo, alheio.

— Família? — perguntou Selena.

Adam assentiu uma única vez.

— Minha mãe… e meu sobrinho. Meu irmão e a esposa decidiram partir. Deixando tudo para trás.

O ar pareceu mais pesado.

— Não sei o que pretende fazer — disse ela. — Mas, se precisar de ajuda… eu preciso de um lugar para ficar. Um trabalho.

Adam a observou com mais atenção, como se só então realmente a visse.

— Selena… não falei disso esperando que você tomasse isso para si.

— Eu sei.

Ela não explicou. Não precisava.

— Preciso falar com o coronel — disse ele, por fim. — O trabalho aqui está acabando.

Virou-se e foi, deixando a conversa suspensa.

Horas depois, com o acampamento já entregue ao ritmo noturno, Adam a encontrou novamente.

— Sua proposta… ainda vale?

O coração de Selena acelerou. O rosto permaneceu imóvel.

— Vale.

Adam assentiu.

— Consegui autorização para sair antes. Vou organizar tudo. — Estendeu a mão. — Se prepare.

Selena hesitou apenas um instante antes de aceitar. O aperto foi firme, silencioso. Não havia promessa dita — apenas a certeza de que, a partir dali, nada seria casual.

A viagem aconteceu sem despedidas.

Saíram antes do amanhecer. O mundo passava pela janela em tons apagados. A bolsa repousava ao lado de Selena; o envelope seguia guardado, intocado.

Adam dirigia concentrado. O rádio permaneceu desligado. Não falou da família. O silêncio bastava.

Quando finalmente pararam, o impacto foi imediato.

O lugar parecia abandonado.

Adam desceu primeiro. Parou por um instante. Selena o seguiu, sentindo o mesmo aperto no peito.

A mãe estava sentada no sofá, o corpo curvado, o olhar distante. Ao lado dela, o menino observava em silêncio. Os braços finos exibiam hematomas recentes.

Adam gelou.

Seu irmão e cunhada, entraram pela porta assim que perceberam a chegada deles.

— O que aconteceu aqui? — perguntou, firme, olhando diretamente para o casal.

O irmão desviou o olhar.

— Não é bem como parece…

— Não é como parece? — Adam repetiu, contido. — Eles vivem assim, e você ainda tenta minimizar?

A cunhada cruzou os braços.

— Eu faço o que posso. O resto não é responsabilidade minha.

Adam respirou fundo.

— Isso não é falha? É abandono. — Apontou para a mãe e o sobrinho. — Eles são pessoas. E vocês ultrapassaram qualquer limite. Mantive financeiramente todos os meses a casa, o pagamento chegava pontualmente. Fala contido, tentando não perder a calma.

Selena permaneceu ao lado, em silêncio. Não havia violência ali. Apenas decisão.

Percebendo que não teria resposta, Adam se adianta abrindo a porta.

— Saiam da minha casa. Agora. — A voz não se elevou. — Se aparecerem novamente, vou exigir judicialmente cada centavo que enviei.

O casal saiu apressado.

Adam só respirou, após fechar a porta.

Seus olhos encontraram Claudia, sentada no sofá, abraçada ao neto.

Adiantando os passos se aproxima.

Adam se curvou e a abraçou, permitindo-se, enfim, soltar o que vinha segurando havia anos.

— Mãe… me desculpe. Por tudo.

— Adam… você não tem culpa. Nunca teve.

Ele se afastou um pouco e percebeu Selena ao lado, silenciosa, presente.

— Mãe, esta é Selena. — O olhar dele era firme. — Ela veio comigo e vai ficar. Vai me ajudar a colocar tudo em ordem aqui.

— Selena, esta é Claudia, minha mãe. E este é Pedro, meu sobrinho. Pode chamá-lo de P**e.

Claudia observou Selena com cautela. Pedro permaneceu próximo da avó.

Selena inclinou levemente a cabeça.

— Prazer, Claudia. Pedro.

Deu um passo à frente, percebendo as marcas da casa, o silêncio espesso no ar.

— Obrigada por me receberem. Adam me deu a oportunidade de estar aqui. Vou ajudar no que for preciso. — Fez uma breve pausa. — Enquanto estivermos juntos, acredito que todos ganhamos.

Claudia olhou para o filho.

— Se você confia, eu confio também.

Pedro observava em silêncio. Selena se abaixou à altura dele e estendeu a mão.

— Oi, Pedro.

Ele hesitou por um instante. Então segurou seus dedos.

Selena observa Adam e Claudia por um instante antes de falar.

— Precisamos de um começo — diz, com calma. — Dona Claudia, pode me orientar sobre a situação? Se possível.

A voz é respeitosa, direta.

Claudia aperta o neto contra o corpo, visivelmente desconfortável.

— Fico constrangida… você acabou de chegar.

Adam se aproxima um pouco.

— Mãe, Selena e eu só conseguimos agir se soubermos o que está acontecendo — diz, num tom gentil, sem pressão.

Claudia suspira antes de responder.

— A casa… você está vendo. — O olhar percorre o ambiente. — Seu irmão traz comida pronta, às vezes. Já faz dias que não me sinto bem, por isso não consegui manter a limpeza. — Hesita. — Sinceramente, filho… não gosto de falar disso. Parece que estou reclamando.

Selena não comenta. Apenas troca um olhar breve com Adam. Não há surpresa ali — apenas confirmação.

Adam decide.

— Estou com o carro. Vamos fazer uma consulta agora. — Olha para o sobrinho. — Pedro, você vem também.

Depois, olha para Selena.

— Fique à vontade. Veja o que precisa ser feito por aqui. Quando voltarmos, providencio o que faltar.

Claudia se levanta com cuidado, ainda segurando o neto. Adam os acompanha até a porta.

Selena fica sozinha na sala, após saírem.

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