Mundo ficciónIniciar sesiónAdam se afastou para retomar o controle das próprias emoções.
Um dia após o acidente, Selena voltou ao acampamento no final da tarde. Tudo parecia estranhamente normal: barracas firmes, equipamentos alinhados, vozes seguindo rotinas. Como se nada tivesse acontecido. Ela se sentou à sombra de uma barraca e abriu o envelope. Dobrou uma das páginas, sentindo o papel marcar a ponta dos dedos. A memória veio sem aviso. A diretora mantinha um jeito neutro, frio; o distanciamento era regra, o afeto inexistente. Ali, crianças eram provisórias. Só ela permanecera tempo demais, quebrando a lógica silenciosa do lugar. As lágrimas não vieram. O corpo permaneceu imóvel. O que se instalou foi um vazio lúcido, organizado demais — o mesmo que aprendera a sustentar desde cedo. Então surgiu algo diferente. Uma fisgada curta de revolta. Contida, firme. Não pelo abandono em si, mas pela mentira que o envolvia. Pela história que nunca conhecera. Pela palavra maldição, usada como ponto final, como se encerrasse qualquer pergunta. Selena fechou o envelope, mas não o guardou. Deixou-o ao lado, consciente de que, pela primeira vez, não queria apenas suportar o passado — queria compreendê-lo. Saber quem decidiu. E por quê. O rádio chiou baixo. Selena ergueu o olhar por reflexo. Adam já se afastava alguns metros, procurando sinal. Caminhava com passos firmes demais para serem tranquilos. — Fala… — disse, curto. — Como assim, piorou? Virou ligeiramente o corpo, como se quisesse esconder a conversa do acampamento. — Tem dinheiro para levar ao médico. Selena manteve o olhar baixo, mas cada palavra ficava. — E o menino? — insistiu ele. O silêncio esticou o tempo. Adam passou a mão pelo rosto. — Isso não é cuidado — a voz saiu baixa, dura. — Se deixarem tudo e viajarem antes de resolver, posso denunciar como abandono. O rádio estalou. A ligação caiu. Adam permaneceu de costas por alguns segundos além do necessário. Quando se virou, Selena ainda estava ali. Nenhum dos dois se apressou em falar. — Desculpe — ela disse, por fim. — Não era minha intenção ouvir. — Não tem problema — respondeu ele, com um breve gesto. — Não é segredo. Só… não é apenas trabalho que precisa de cuidado. Olhou ao redor, para o acampamento que seguia vivo, alheio. — Família? — perguntou Selena. Adam assentiu uma única vez. — Minha mãe… e meu sobrinho. Meu irmão e a esposa decidiram partir. Deixando tudo para trás. O ar pareceu mais pesado. — Não sei o que pretende fazer — disse ela. — Mas, se precisar de ajuda… eu preciso de um lugar para ficar. Um trabalho. Adam a observou com mais atenção, como se só então realmente a visse. — Selena… não falei disso esperando que você tomasse isso para si. — Eu sei. Ela não explicou. Não precisava. — Preciso falar com o coronel — disse ele, por fim. — O trabalho aqui está acabando. Virou-se e foi, deixando a conversa suspensa. Horas depois, com o acampamento já entregue ao ritmo noturno, Adam a encontrou novamente. — Sua proposta… ainda vale? O coração de Selena acelerou. O rosto permaneceu imóvel. — Vale. Adam assentiu. — Consegui autorização para sair antes. Vou organizar tudo. — Estendeu a mão. — Se prepare. Selena hesitou apenas um instante antes de aceitar. O aperto foi firme, silencioso. Não havia promessa dita — apenas a certeza de que, a partir dali, nada seria casual. A viagem aconteceu sem despedidas. Saíram antes do amanhecer. O mundo passava pela janela em tons apagados. A bolsa repousava ao lado de Selena; o envelope seguia guardado, intocado. Adam dirigia concentrado. O rádio permaneceu desligado. Não falou da família. O silêncio bastava. Quando finalmente pararam, o impacto foi imediato. O lugar parecia abandonado. Adam desceu primeiro. Parou por um instante. Selena o seguiu, sentindo o mesmo aperto no peito. A mãe estava sentada no sofá, o corpo curvado, o olhar distante. Ao lado dela, o menino observava em silêncio. Os braços finos exibiam hematomas recentes. Adam gelou. Seu irmão e cunhada, entraram pela porta assim que perceberam a chegada deles. — O que aconteceu aqui? — perguntou, firme, olhando diretamente para o casal. O irmão desviou o olhar. — Não é bem como parece… — Não é como parece? — Adam repetiu, contido. — Eles vivem assim, e você ainda tenta minimizar? A cunhada cruzou os braços. — Eu faço o que posso. O resto não é responsabilidade minha. Adam respirou fundo. — Isso não é falha? É abandono. — Apontou para a mãe e o sobrinho. — Eles são pessoas. E vocês ultrapassaram qualquer limite. Mantive financeiramente todos os meses a casa, o pagamento chegava pontualmente. Fala contido, tentando não perder a calma. Selena permaneceu ao lado, em silêncio. Não havia violência ali. Apenas decisão. Percebendo que não teria resposta, Adam se adianta abrindo a porta. — Saiam da minha casa. Agora. — A voz não se elevou. — Se aparecerem novamente, vou exigir judicialmente cada centavo que enviei. O casal saiu apressado. Adam só respirou, após fechar a porta. Seus olhos encontraram Claudia, sentada no sofá, abraçada ao neto. Adiantando os passos se aproxima. Adam se curvou e a abraçou, permitindo-se, enfim, soltar o que vinha segurando havia anos. — Mãe… me desculpe. Por tudo. — Adam… você não tem culpa. Nunca teve. Ele se afastou um pouco e percebeu Selena ao lado, silenciosa, presente. — Mãe, esta é Selena. — O olhar dele era firme. — Ela veio comigo e vai ficar. Vai me ajudar a colocar tudo em ordem aqui. — Selena, esta é Claudia, minha mãe. E este é Pedro, meu sobrinho. Pode chamá-lo de P**e. Claudia observou Selena com cautela. Pedro permaneceu próximo da avó. Selena inclinou levemente a cabeça. — Prazer, Claudia. Pedro. Deu um passo à frente, percebendo as marcas da casa, o silêncio espesso no ar. — Obrigada por me receberem. Adam me deu a oportunidade de estar aqui. Vou ajudar no que for preciso. — Fez uma breve pausa. — Enquanto estivermos juntos, acredito que todos ganhamos. Claudia olhou para o filho. — Se você confia, eu confio também. Pedro observava em silêncio. Selena se abaixou à altura dele e estendeu a mão. — Oi, Pedro. Ele hesitou por um instante. Então segurou seus dedos. Selena observa Adam e Claudia por um instante antes de falar. — Precisamos de um começo — diz, com calma. — Dona Claudia, pode me orientar sobre a situação? Se possível. A voz é respeitosa, direta. Claudia aperta o neto contra o corpo, visivelmente desconfortável. — Fico constrangida… você acabou de chegar. Adam se aproxima um pouco. — Mãe, Selena e eu só conseguimos agir se soubermos o que está acontecendo — diz, num tom gentil, sem pressão. Claudia suspira antes de responder. — A casa… você está vendo. — O olhar percorre o ambiente. — Seu irmão traz comida pronta, às vezes. Já faz dias que não me sinto bem, por isso não consegui manter a limpeza. — Hesita. — Sinceramente, filho… não gosto de falar disso. Parece que estou reclamando. Selena não comenta. Apenas troca um olhar breve com Adam. Não há surpresa ali — apenas confirmação. Adam decide. — Estou com o carro. Vamos fazer uma consulta agora. — Olha para o sobrinho. — Pedro, você vem também. Depois, olha para Selena. — Fique à vontade. Veja o que precisa ser feito por aqui. Quando voltarmos, providencio o que faltar. Claudia se levanta com cuidado, ainda segurando o neto. Adam os acompanha até a porta. Selena fica sozinha na sala, após saírem.