Capítulo 04

Selena e Adam seguem até a recepção para assinar a retirada dos pertences.

Ela registra o nome. Adam entra em uma sala ao lado.

Minutos depois, um jovem se aproxima.

— Senhorita, o comandante pediu que aguarde um momento.

Ele se afasta.

Selena se senta. O peso da realidade se impõe de uma vez: ao atravessar aquela porta, estará sozinha. Sem apoio. Sem dinheiro.

Respira fundo.

Quando Adam surge pelo corredor, ela se levanta de imediato.

— Comandante.

— Desculpe a demora — diz ele. — Precisei assinar a autorização final… dos seus pertences.

— Não se preocupe. Não quero atrapalhar seu trabalho.

Adam indica a cadeira à sua frente.

— Sente-se, por favor.

Selena obedece, atenta.

— O que pretende fazer agora? — pergunta ele, direto. — Talvez eu possa ajudar.

Ela o observa por um instante, avaliando.

— Perdoe minha franqueza — diz, com firmeza contida —, mas por que está me ajudando? Qual é a sua intenção?

Adam parece genuinamente surpreso.

— Intenção? — Ele inspira fundo. — Acho que você está tirando conclusões precipitadas. Estou apenas retribuindo um gesto.

— Retribuindo… o quê?

— Gratidão.

Selena franze levemente a testa.

— Três anos atrás — continua Adam —, minha equipe sofreu uma emboscada perto do orfanato Destino. Estávamos feridos, sem comunicação, esperando socorro.

Ela permanece em silêncio, alerta.

— Talvez não se lembre — ele diz, com um leve sorriso contido —, mas uma jovem apareceu. Trouxe água. Pão. Se não fosse por isso… não estaríamos vivos.

Algo se move dentro dela.

— Depois, procurei por nossa benfeitora no orfanato — continua Adam. — A diretora disse que não havia nenhuma moça ali. Apenas crianças.

Selena desvia o olhar.

— Quando cheguei ao local do acidente… eu a reconheci. Só fiquei surpreso ao saber que vinha daquele lugar. — Ele hesita. — Por que escondeu que vivia lá?

Selena entrelaça os dedos no colo.

— Eu não escondi. — A voz sai baixa, mas firme. — É regra do orfanato. Ao completar quinze anos, eu deveria ter ido embora. A diretora apenas… adiou isso.

Ela respira fundo.

— Fiquei porque era útil. Trabalhava. Cuidava das crianças. Não recebia nada por isso. — Seus olhos se umedecem, mas ela não desvia o olhar. — Nunca imaginei que alguém fosse me procurar. Ou se lembrar de mim.

Ergue o rosto, decidida.

— Sei que o que aconteceu lá é errado. Sei que é crime. Se coloquei o senhor em alguma situação… peço perdão.

Adam permanece em silêncio por alguns segundos.

— Você não nos prejudicou — diz, por fim. — Nos

salvou.

Selena o encara, um pouco sem graça.

— O senhor perguntou o que eu pretendo fazer… — hesita. — A verdade é que não sei. Talvez procurar trabalho em alguma casa de família. Sei fazer um pouco de tudo.

Adam inspira fundo antes de responder.

— Você não conhece este lugar. — Faz um gesto vago. — Não é uma cidade. É uma vila de passagem. Ponto de apoio para fazendeiros e transporte de mercadorias. Não há empregos fixos.

Ela permanece em silêncio, assimilando.

— Talvez seja melhor seguir para o seu destino — continua ele. — Apesar do acidente, sua passagem está garantida. Pode partir quando quiser.

Selena abaixa o olhar por um instante, depois o ergue.

— Isso… — a voz sai baixa, mas firme — é algo que não pretendo continuar.

Adam a observa com atenção. Há algo definitivo naquela recusa.

Ele cruza os braços, pensativo.

— Como comandante responsável pela operação de resgate, respondo por todos os sobreviventes até que estejam, oficialmente, fora de risco e em local seguro. — Pausa breve. — Você acabou de sair de um trauma grave, não tem apoio imediato nem recursos. Liberá-la agora seria… negligência.

Selena ergue o olhar, surpresa.

— A médica recomendou repouso — continua ele, agora em tom mais objetivo. — Vou providenciar um lugar para você ficar por alguns dias. Não é um favor pessoal. É responsabilidade.

Ela demora um instante, mas assente.

— Obrigada.

Adam se afasta, deixando-a sozinha na recepção.

Selena recosta a cabeça no encosto da cadeira. O cansaço pesa. Enquanto espera o retorno do comandante, acaba cochilando.

Quando Adam retorna, desacelera os passos ao vê-la dormindo. Por um momento, hesita.

Selena, porém, sente a presença antes mesmo de abrir os olhos. Endireita o corpo, ainda sonolenta.

Adam pigarreia, visivelmente desconfortável.

— Não temos — pausa, escolhendo as palavras — nenhuma pousada ou lugar adequado por aqui.

Ela assente, sem surpresa.

— Consegui uma barraca com minha equipe — continua. — Fica no mesmo terreno onde estamos alojados. É simples, mas seguro. Pelo menos até você decidir o que quer fazer.

Selena permanece em silêncio, avaliando.

— Quando esta missão terminar, partiremos daqui — diz ele. — Você pode nos acompanhar até o centro de comando. O capitão já foi informado. Ele se dispôs a ajudar você a encontrar trabalho.

Há cuidado na voz. E limites claros.

Selena inspira fundo.

— É mais do que eu esperava — responde, sincera. — Obrigada.

Adam faz um leve aceno de cabeça, como se aquele agradecimento o deixasse sem resposta.

— Vamos. Está esfriando.

Selena se levanta, o corpo cansado, a mente desperta.

O acampamento fica a poucos quilômetros do acidente. O solo é irregular, instável, mas tudo está em ordem: barracas alinhadas, equipamentos organizados, rádios ativos. Não é abrigo. É operação.

Adam caminha ao lado dela.

— Vou deixá-la com um recruta — diz. — Ainda temos trabalho no local.

Faz um sinal.

Um jovem se aproxima, rígido demais para esconder o nervosismo.

— Recruta Elias. Ela fica sob sua responsabilidade.

— Sim, senhor.

Adam se volta para Selena.

— Retorno mais tarde.

— Obrigada, comandante.

Ele se afasta.

— Posso mostrar onde a senhorita ficará — diz Elias.

No caminho, passam pela área de alimentação improvisada. Poucos mantimentos. Panelas prontas, mas ninguém ali para cuidar disso.

Selena para.

— Posso ajudar?

O alívio dele é imediato.

Ela organiza, corta, prepara. Movimentos rápidos, precisos. Elias cuida do fogo.

— Já fez isso antes? — ele pergunta.

— Muitas vezes.

Quando termina, se afasta sem chamar atenção.

Elias a conduz até uma barraca simples, afastada do fluxo.

— Qualquer coisa, estarei ali.

Selena entra e fecha o zíper.

O silêncio não pesa.

Ela se deita. O chão é duro, a lona balança. Ainda assim, é seu espaço. Leva a mão ao peito.

Um calor suave se espalha.

— Você atravessou o limite — murmura uma voz dentro dela.

Selena prende o ar.

— Pandora…

— Este é um campo de transição — a voz responde — Assim como você. Descanse.

O calor cessa.

Selena adormece.

E, mesmo com o ruído distante do trabalho, dorme sem medo.

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