Mundo ficciónIniciar sesiónSelena fechou os olhos.
O quarto do hospital se dissolveu. Vieram as lembranças. Orfanato Destino. Paredes frias. Vozes infantis ecoando pelos corredores. Pequenas mãos segurando as suas. As imagens avançaram. Vagão. Sorrisos de crianças. Cheiro de café. A medalha pressionada contra o peito. Espaço estreito. Impacto. Corpo arremessado. Gritos. Som de ferragens se chocando. — Você sente a dor porque amou — ecoou a voz de Pandora, surgindo entre as memórias. — E isso nunca foi uma fraqueza. Selena abriu os olhos dentro daquele espaço que não era lugar nenhum. — Eu falhei com eles… — a voz saiu em um sussurro quebrado. — Prometi que cuidaria… e não consegui. — Você não falhou — respondeu Pandora, firme. — O mundo falhou com você. Assim como falhou com eles. As imagens mudaram. Selena viu a si mesma, criança, sentada sozinha. Depois, jovem, trabalhando em silêncio. Sempre ficando. Aceitando. Sobrevivendo. — Quantas vezes você foi deixada para trás? — perguntou a entidade. — Quantas vezes disseram, sem palavras, que você não importava? O peito de Selena se apertou. — Muitas… — E, ainda assim, você escolheu amar — disse Pandora. — Escolheu proteger. Escolheu ficar. Isso é força. — E essa força agora precisa seguir adiante. Houve uma pausa. — O passado não será apagado — continuou Pandora. — Ele será carregado. Transformado. — Você não voltará para ser quem era. Mas também não deixará de ser quem foi. Selena respirou fundo. As lágrimas ainda caíam, mas algo dentro dela se reorganizava. Não era paz. Era firmeza. — Então… o que eu faço agora? — perguntou. — Viva — respondeu Pandora. — Não por eles. Mas por você. O quarto do hospital retornou lentamente. O som de passos. A porta se abrindo. — Selena? — a voz de Adam chamou com cuidado. Ela abriu os olhos. O peito ainda doía. A perda existia. Mas, pela primeira vez, não havia apenas vazio. Ela respirou fundo, encarando o comandante. — Eu… — a voz falhou, mas ela continuou. — Preciso saber a verdade. Tudo o que aconteceu. Adam a observou por um instante, sério. — Quando estiver pronta — disse ele. — Eu conto. Selena assentiu. Ela estava pronta. — Pode falar… estou preparada. Adam pede licença e se senta na cadeira ao lado da cama. Sua voz é firme, contida. Ele descreve o que encontrou ao chegar ao local do acidente: os destroços, o vagão destruído, após o impacto. Cada detalhe ecoa dentro de Selena como uma confirmação silenciosa — sua hora ainda não havia chegado. Ela fecha os olhos, tentando reconstruir a cena em sua mente, mas falha. Há coisas que o corpo se recusa a lembrar. — Encontraram os pertences? Digo, os nossos… é importante, tenho documentos que ficaram no vagão. — pergunta, após um instante. — Sim. Muitos objetos pessoais. Tudo foi recolhido e será enviado ao destino para onde seguiam. O coração de Selena aperta. — Posso vê-los? Assim posso recuperar minhas coisas. — Claro — responde Adam. — Assim que estiver melhor, posso acompanhá-la. Vou procurar o médico e verificar sua situação. Este é apenas um posto de emergência. Se precisar de mais cuidados, será levada a outro local. Caso contrário, receberá alta. Ela assente. — Agradeço por tudo. Desde o resgate… até agora. Adam se levanta com um gesto breve e sai. Sozinha novamente, Selena encara o teto. Pensa no envelope. Na carta de indicação. No nome da família que a aguardava. Talvez, entre os documentos recolhidos, exista algo que não lhe foi contado. Algo que explique. Ou que mude tudo. O peito ainda dói. A perda ainda pesa. Mas, pela primeira vez desde que acordou, Selena não se sente quebrada. Entre a dor e o medo, uma decisão silenciosa se forma. Ela não seguirá o destino que lhe foi imposto. Ela irá escolhê-lo. A médica retorna algum tempo depois, acompanhada de Adam. Examina Selena com atenção, faz perguntas simples, observa seus reflexos. — Você teve muita sorte — diz, por fim. — Um trauma desses costuma deixar marcas mais graves. Ainda sentirá dores e cansaço, mas não há sinais de lesão séria. Pode receber alta hoje. Selena solta o ar que nem percebeu estar prendendo. — Obrigada… — Precisa descansar, evitar esforços e retornar se sentir qualquer mal-estar — orienta a médica, antes de se retirar. Adam permanece. — Vou providenciar sua alta, — diz. — E acompanhá-la até a sala onde guardamos as caixas com o que encontramos. Algum tempo depois, Selena já está vestida com roupas simples emprestadas pelo hospital. Caminha devagar ao lado de Adam. O ambiente é silencioso, quase solene. — Ainda não me disse seu nome completo — comenta ele, tentando suavizar o clima. — Selena — responde. — Apenas Selena. Adam sorri de leve, sem insistir. — Se precisar de ajuda… ou não souber para onde ir, fale comigo. Não precisa decidir tudo hoje. Ela agradece com um gesto contido. Há algo reconfortante na presença dele — firme, mas sem exigir nada. No saguão, Adam a conduziu até uma sala simples. Sobre uma mesa comprida, havia caixas grandes contendo diversos objetos — alguns quebrados, outros surpreendentemente conservados, apesar da sujeira do solo onde foram encontrados. Selena paralisou por um instante. Cada objeto carregava uma vida. — Tudo o que foi recolhido está aqui — explicou Adam, em voz baixa. — Os pertences serão encaminhados ao órgão responsável e entregues conforme identificação. Você pode procurar o que lhe pertence, se quiser. Ela se aproximou devagar. As mãos tremiam ao tocar nos objetos. Ao remexer nas caixas, reconheceu roupas das crianças, alguns pertences das freiras… e as suas próprias. O nó em sua garganta apertou. Selena separou algumas peças, passando os dedos pelo tecido como quem se despede. A lembrança ainda estava ali. Infância. Promessas que não seriam cumpridas. Então, começou a procurar com mais urgência. Revistou roupas, abriu pequenas bolsas, afastou papéis. Nada. O peito apertou. — Está procurando algo específico? — perguntou Adam, atento à mudança em seu semblante. Selena hesitou antes de responder. — Um envelope… Estava em uma pasta. Adam franziu levemente o cenho. — Talvez ainda não tenha sido registrado. Posso verificar novamente. Ela assentiu, separando algumas de suas poucas roupas, mas continuou procurando. Então, seus olhos se fixaram em algo diferente. Entre roupas dobradas e documentos oficiais, um envelope amarelado se destacava — mais rígido, intacto, deslocado. Como se tivesse sido escondido à espera dela. Selena o puxou com cuidado. Reconheceu a textura. O peso. O nome escrito. — Esse… — a voz falhou. — É esse envelope. Adam observou em silêncio, respeitoso. Selena segurou o envelope contra o peito. — Então… posso levá-lo? — Claro — respondeu Adam. — É seu por direito. Ela o deslizou para dentro da bolsa, fechando-a com decisão. Não o abriria agora. Ainda não. Após juntar seus pertences, aguardou a liberação do que recolhera. Adam não demorou a retornar, acompanhado do responsável pelos objetos. Selena suspirou, longa e profundamente. — Obrigada. Acho que… o que recuperei já é o necessário. Recebeu uma caixa para guardar o que separara e terminou de arrumar suas coisas.