Capítulo 02

Um vagão havia sido reservado para eles.

Depois que todas as crianças estavam acomodadas e mais calmas, Selena sentou-se ao lado da freira.

— É bom ser criança… — disse, com o coração apertado. — Para elas, tudo é festa. Nem sabem o que as espera.

— Selena, procure não ser negativa — respondeu a freira, com suavidade. — Essa mudança será boa para todos. Inclusive para você.

— Talvez esteja certa. — Selena suspirou. — Mas me sinto frustrada por não saber nada sobre mim. Não sei onde estão meus registros, não sei de onde vim. A única coisa pessoal que tenho é esta medalha em forma de lua… — retirou-a de dentro da roupa e mostrou à freira. — Mas não sei de onde veio.

A freira observou o objeto com atenção.

— Deve ser algo de família. — Fez uma pausa. — Você sabe como passou a ter esse artefato?

— Não. Nunca descobri nada. Só sei que ele esteve comigo desde que me lembro.

— Então guarde bem. Pode ser a chave para encontrar sua família. Talvez seja um brasão… quem sabe?

— Talvez… — murmurou Selena.

Seu olhar voltou-se para as crianças, que brincavam animadas pelo vagão. Preocupada, levantou-se.

— Crianças! Não corram, alguém pode se machucar. — Aproximou-se, ajudando-as a voltar para seus lugares. — Daqui a pouco o café será servido. Fiquem sentadas, está bem?

Após colocar ordem no vagão, retornou ao assento ao lado da freira.

— Tomara que se acalmem depois do café — comentou, com um leve sorriso.

A freira a observou com carinho.

— Você gosta das crianças como se fossem seus próprios filhos.

Selena assentiu, com o olhar distante.

— Sim… Eles são a minha alegria. A diretora apenas os recebia, mas quem cuidou de cada um fui eu. — Sua voz suavizou. — Eles são o contraste da minha vida fria. Com eles, eu tenho… vida.

O café foi servido, e Selena ajudou na distribuição. Depois que todos estavam acomodados, sentou-se para se alimentar. Outra freira assumiu os cuidados das crianças e, ao passar por ela, falou com ternura:

— Não tenha pressa. Estamos aqui para ajudar. Tente relaxar um pouco.

— Tentarei — respondeu, mordendo um pedaço de pão.

A viagem seguia tranquila. Com o passar das horas, algumas crianças adormeceram; outras permaneciam distraídas, observando a paisagem pela janela. A freira que acompanhava Selena afastou-se por alguns minutos para o momento de oração.

Selena permaneceu cuidando do vagão.

Quando a freira retornou, Selena se levantou.

— Preciso lavar as mãos. Você se importa de cuidar das crianças por um instante?

— Nem precisa perguntar. Vá — respondeu com um sorriso. — Aproveite e refresque o rosto. Está quente, e você está um pouco vermelha.

Selena saiu sorrindo.

Ao fechar a porta do pequeno banheiro, lavou o rosto e respirou fundo. Encostou-se na parede e levou a mão à medalha que sempre a acompanhara. Apertou o objeto contra o peito e fez uma prece silenciosa.

Que este medalhão possa realmente mudar a minha vida.

Mal terminou o pensamento, sentiu o corpo ser lançado violentamente contra a parede.

Tudo aconteceu rápido demais.

O espaço pareceu girar. Seu corpo foi arremessado de forma brusca dentro do pequeno banheiro. Tentou se firmar, mas, ao bater a cabeça, uma dor intensa explodiu.

Antes que apagasse de vez, ouviu o som de ferragens se chocando, seguido por gritos distantes.

Depois, apenas silêncio.

E escuridão.

Selena abriu os olhos, ofegante.

O ar parecia pesado. O espaço ao redor era estranho — silencioso demais, como se o mundo estivesse suspenso.

— Onde estou? — perguntou, a voz falha.

— Filha da lua e do destino — ecoou uma voz profunda. — Sua jornada ainda não terminou.

O coração de Selena disparou.

— Que lugar é este? — insistiu. — Por que me trouxe aqui?

— Este é o meu espaço. Minha morada. Nosso espaço agora.

— Por quê? — A palavra saiu carregada de medo. — Por que eu?

Houve uma pausa breve, densa.

— Porque você voltará — respondeu a voz. — E não estará vazia.

O ar pareceu vibrar.

— Você retornará sem saber tudo — continuou Pandora. — Os dons despertarão quando forem necessários. Não antes. Não por vontade. Mas por necessidade.

Selena sentiu um arrepio atravessar o corpo.

— Estarei com você — a voz prosseguiu. — Sou a herança que lhe foi deixada. Sou Pandora.

Antes que pudesse reagir, um espelho surgiu diante dela.

O reflexo era exato.

Era ela.

Então as imagens começaram a se romper — rápidas, fragmentadas, cruéis. Gritos. Ferro retorcido. O caos.

Quando cessaram, Selena recuou, o desespero estampado no rosto. As lágrimas vieram sem controle.

— A escolha não é sua — disse Pandora, agora distante. — Volte.

Uma força invisível a empurrou.

O corpo perdeu o peso. Caiu — afundando na escuridão.

O ar invadiu seus pulmões de uma só vez, queimando por dentro. Selena inspirou com violência, como se tivesse sido arrancada do fundo de um rio.

Tentou se mover, mas o corpo não respondeu.

Vozes surgiram, distantes.

— O que você acha?

— Está enganada. O comandante deve ter ficado com pena da garota. Da lista que recolheram… somente ela sobreviveu.

— Tem razão. Vai ser um choque quando acordar. Já identificaram a causa do acidente?

— Ainda não. Estão investigando. Vamos, temos outros quartos para verificar. Depois voltamos para vê-la…

As vozes se afastaram.

Selena tentou dizer que estava acordada, mas a garganta não respondeu. Com esforço, abriu os olhos.

Estava sozinha.

As paredes gastas do quarto entraram em foco. Duas lágrimas escorreram lentamente por seu rosto.

A porta se abriu.

Um jovem de uniforme entrou, e seus olhares se cruzaram.

— Você acordou! — disse ele, aliviado.

— O que aconteceu? Onde estou? — perguntou Selena, com a voz fraca.

Ele se aproximou da cama.

— Não se preocupe agora. Você precisa se recuperar.

Outro rapaz entrou apressado.

— Comandante! Estão procurando o senhor.

— Espere um momento — respondeu, sem tirar os olhos dela. — Descanse mais um pouco. Vou ver o que querem e volto para conversarmos. Sou o comandante Adam. Não tenha medo. Você está segura. Está em um hospital.

O colega percebeu que Selena estava acordada. Sem graça, pediu licença e saiu.

Selena fechou os olhos por um instante.

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