A Herança do Sangue Caleste
A Herança do Sangue Caleste
Por: Nena Abrahão
Capítulo 01

Selena, após colocar as crianças para dormirem, seguiu para a pequena lavanderia do orfanato.

O som de passos ecoando pelo corredor anunciou a chegada de alguém. Ao erguer o olhar em direção à porta do pequeno cômodo, encontrou a diretora parada ali, observando-a com o rosto fechado.

— Deseja algo, senhora? — perguntou, tentando manter a voz firme, embora um leve medo lhe apertasse o peito.

A diretora já era uma mulher de idade avançada, mas sua presença continuava fria e intimidadora. Todos no orfanato Destino a temiam.

Sem rodeios, ela falou com uma voz áspera:

— Vá até minha sala. Chame também as outras freiras.

Selena deixou o que estava fazendo e saiu apressada. Enquanto caminhava pelos corredores mal iluminados, um pensamento insistente martelava em sua mente.

O que será agora?

O orfanato já estava decadente. O pouco que tinham vinha das doações que as freiras conseguiam com pedidos de ajuda.

Percebendo que andava devagar demais, apressou os passos e entrou na sala de oração. Após uma breve prece, aproximou-se e passou o recado em voz baixa. A freira se levantou imediatamente e saiu, fechando a porta atrás de si.

— Ela disse o que queria? — perguntou a freira, em tom contido.

— Não. Apenas pediu que chamasse todas — respondeu Selena, com respeito.

A freira pareceu pensar por um instante antes de falar:

— Está na hora da oração. Não vou retirar as meninas da sala. Eu mesma irei ver o que ela deseja. — Fez uma pausa. — Tenho certeza de que não é nada bom. Já escrevi ao nosso superior relatando o que acontece aqui.

Aquelas palavras fizeram o coração de Selena apertar.

— Se for isso… então… — ela se calou quando a voz falhou, tomada pela vontade de chorar. — Será que vão levá-las de volta?

Com um semblante bondoso, a freira tocou sua mão.

— Não se precipite. Se for por isso, talvez todos tenham uma vida melhor.

Ao chegarem à diretoria, encontraram a porta aberta. A diretora se levantou de imediato e falou, fria como sempre:

— Recebemos uma ordem para fechar o orfanato. Temos uma semana para preparar tudo e as crianças. Elas serão encaminhadas para outro lugar.

Selena olhou para a freira, alarmada.

— E eu? — perguntou, sentindo o peso da pergunta. — Como fica a minha situação?

Ela sabia. Já deveria ter deixado o orfanato ao completar dezoito anos.

A diretora desviou o olhar.

— Isso iremos conversar depois. Agora, preciso que todos ajudem a preparar o fechamento e a mudança das crianças — disse, dispensando-as com um gesto seco.

Já afastadas, a freira percebeu a expressão preocupada de Selena.

— Vai dar certo. Não sofra antes do tempo — falou, tentando encorajá-la.

Selena respirou fundo.

— Espero. Nunca saí daqui… nem sei nada sobre meu passado. Só continuei no orfanato porque era útil nas tarefas. — Ela hesitou por um instante. — Confesso que tenho medo do meu futuro.

Sem esperar resposta, afastou-se em direção à lavanderia.

Naquela noite, Selena não conseguiu dormir. Pela manhã, as marcas escuras sob seus olhos denunciavam o cansaço, embora ninguém fizesse perguntas.

Mesmo exausta, continuou cuidando das crianças e ajudando a preparar tudo para a mudança. Cada despedida silenciosa parecia arrancar um pedaço de si.

Na noite anterior à partida de todos, Selena foi chamada ao escritório.

A cada passo pelo corredor, sentia os pés pesarem, como se carregassem algo invisível. Era sobre o seu futuro que iria ouvir — talvez, finalmente, algo sobre seu passado.

A incerteza lhe comprimia o peito, pesada como um presságio, alcançando não apenas o corpo, mas também a alma.

A diretora falava ao telefone quando Selena chegou. Após um breve sinal com a mão, indicou que aguardasse. A ansiedade começou a corroê-la.

Distraída pelos próprios pensamentos, Selena se assustou ao ouvir seu nome. Entrou no escritório e permaneceu parada, torcendo os dedos. A diretora manteve o silêncio por alguns segundos, depois pigarreou antes de falar:

— Pela sua idade, você não poderá acompanhar as crianças — disse, com a voz fria. — Mas já a encaminhei para uma casa de família. Uma freira irá acompanhá-la com os devidos documentos. Espero que seja agradecida.

Fez uma breve pausa, observando-a sem qualquer traço de compaixão.

— Ninguém ajuda uma moça. Não envergonhe o orfanato na sua nova casa. Seja discreta e mantenha a gratidão da família que irá acolhê-la. Pode se retirar. Você partirá amanhã com todos, mas seguirá depois que as crianças desembarcarem.

Selena franziu a testa, confusa.

— Para onde estou indo trabalhar?

A diretora não se deu ao trabalho de olhá-la.

— Não faça perguntas. Apenas siga o cronograma que será entregue às freiras. Lembre-se: você foi descartada à minha porta. Colocá-la em uma casa para trabalhar já é mais do que eu poderia fazer. Pode se retirar.

Ao sair do escritório, as pernas de Selena tremeram.

Existem verdades que rompem a alma — quebram-se como espelhos e jamais se recompõem.

O peito apertou, como uma bomba prestes a explodir. Ainda assim, ela respirou fundo, tentando se acalmar. Aquilo era a verdade. A sua realidade.

Selena só queria uma oportunidade de saber qual fora o erro que a havia levado até aquele lugar.

A noite foi inquieta, repleta de pesadelos. Acordou coberta de suor, com o coração acelerado. Tudo parecia real demais.

Observando as paredes frias ao redor, encolheu-se e percebeu que não conseguiria dormir novamente. Pensou nas crianças, agarrando-se a essa imagem como uma forma de afastar o medo.

Ainda de madrugada, Selena e as freiras prepararam as crianças para a partida. Um ônibus aguardava do lado de fora, pronto para levá-las até a estação de trem.

Depois de acomodarem todas, Selena e as freiras retornaram ao orfanato para buscar as bagagens.

Apesar de tudo, ela se despediu do único lugar onde viveu por dezoito anos. Cada parede fria carregava fragmentos da sua história. Os quartos já vazios despertaram lembranças distantes, de quando ainda era apenas uma criança tentando sobreviver ao silêncio.

Ao fechar as portas, não encerrava apenas um prédio — rompia um vínculo. Um vínculo frio, duro… mas que havia sido sua vida.

Com o destino incerto, girou a chave na fechadura.

A diretora não apareceu. Não houve despedida.

Ao ouvir o clique metálico da porta trancada, Selena soube que deixava algo para trás. E, ao mesmo tempo, que outra porta se abria diante dela.

Seu maior medo não era o desconhecido.

Era descobrir que tudo aquilo não passava de uma troca de cenário — sair do que conhecia apenas para entrar em outro lugar com o mesmo formato, a mesma frieza… e o mesmo abandono.

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