CAPITULO 3

CAPITULO 3Capítulo 3 Raíssa Narrando Acordei com o rosto latejando. Antes mesmo de abrir os olhos, eu senti. A dor. Pesada. Pulsando. Quando levei a mão até a cara, soltei um “ai” baixo. Meu dedo encostou no inchaço e aquilo confirmou tudo que tinha acontecido. Não foi um pesadelo. Foi real. Abri os olhos devagar, encarando o teto da cobertura… ou o que ainda restava dela depois do meu surto. Vidro no chão, coisa quebrada pra todo lado. E eu ali. No meio da bagunça. Respirei fundo, sentindo o gosto amargo na boca. — Filho da puta… Sentei devagar, o corpo inteiro reclamando. Cada movimento era uma lembrança da noite passada. Mas o que mais doía… Era o orgulho. Levantei e fui até o espelho. Ou melhor… até o pedaço de espelho que sobrou. Quando me vi, meu estômago virou. Olho levemente roxo. Boca inchada. Marca dos dedos dele ainda visível no meu braço. Fiquei em silêncio por alguns segundos, só me encarando. Aquilo ali… Não era a Raíssa que descia do carro e parava o baile. Não era a mulher que todo mundo respeitava. Era outra pessoa. E eu odiei aquilo. — Isso não vai ficar assim… — falei baixo, pra mim mesma. Mas antes que eu pudesse pensar em qualquer coisa, a porta abriu sem bater. — Bora. Virei o rosto na hora. Era um dos homens dele. — Ele mandou te chamar. Fechei a cara. — Manda ele vir aqui. O cara nem se mexeu. — Não vou repetir. O recado tava dado. Suspirei fundo, pegando uma jaqueta pra esconder o máximo possível do meu rosto. Não por vergonha. Mas porque ninguém precisava ver minha fraqueza. Não hoje. Saí da casa com o salto na mão, descendo as escadas descalça mesmo. Cada passo era pesado, mas minha cabeça já tava funcionando. Rápida. Fria. Cheguei lá fora e vi. Féra. Encostado no carro, fumando, como se nada tivesse acontecido. Aquilo me deu um nojo… — Já acabou de bancar a louca? — ele falou, soltando a fumaça devagar. Cruzei os braços. — Já acabou de me bater? Os olhos dele encontraram os meus. Por um segundo… Silêncio. Mas ele quebrou primeiro. — Entra. Olhei pro carro. Depois pra ele. — Pra quê? — Tu vai ver. Ri sem humor. — Eu não sou tua cadelinha pra sair entrando assim quando tu manda. Ele deu um passo na minha direção. E mesmo machucada… Eu não recuei. — Entra, Raíssa. Dessa vez, a voz veio baixa. Perigosa. Pensei em negar. Pensei em bater de frente de novo. Mas alguma coisa dentro de mim… Mandou jogar diferente. Sem falar nada, abri a porta e entrei. O trajeto foi em silêncio. Pesado. Só o som do motor e da respiração presa entre nós dois. Mas quando o carro começou a descer mais pro fundo do morro… Eu entendi. Casas mais simples. Becos mais apertados. Gente na rua olhando. Aquilo não era minha área. Nunca foi. — Tá de sacanagem… — murmurei. Ele estacionou. Desligou o carro. E virou pra mim. — Chegamos. Olhei pela janela. Uma casa pequena. Simples. Nada comparado ao que eu tinha. Soltei uma risada desacreditada. — Tu quer me enfiar aí? — Não quero. Ele abriu a porta. — Já enfiei. O sangue subiu na hora. — Eu não vou ficar nessa merda. Ele veio até o meu lado, abriu a porta e segurou meu braço. — Vai sim. — Me solta! Tentei puxar, mas ele apertou mais. — Aqui tu aprende. Me puxou pra fora. As pessoas já estavam olhando. Cochichando. Reconhecendo. E eu senti. Pela primeira vez… Não era respeito. Era curiosidade. Quase… prazer. Ver a “patroa” ali embaixo. Naquele nível. Meu maxilar travou. — Solta meu braço. Ele soltou. Mas ficou perto. Como quem observa. Como quem espera. — Entra. Olhei pra casa. Depois pra ele. Depois pras pessoas. Respirei fundo. E entrei. O cheiro me incomodou na hora. Lugar fechado. Simples demais. Olhei em volta, analisando tudo. Cada detalhe. Cada falha. Cada coisa fora do lugar. — Tu só pode tá querendo me testar — falei, virando pra ele. — Tô. Direto. Sem rodeio. Assenti devagar. Engolindo seco. — Então tu vai se arrepender. Ele arqueou a sobrancelha. — É? Dei um passo na direção dele. Mesmo machucada. Mesmo ferrada. — Porque tu acabou de me tirar do alto… Cheguei mais perto. — E me jogou aqui embaixo. Parei, olhando no fundo dos olhos dele. — Só que tu esqueceu de uma coisa. Silêncio. Pesado. Perigoso. — Eu não fui feita pra ficar por baixo. Virei de costas, caminhando pela casa como se já fosse minha. Mas por dentro? Eu já tava decidindo. Planejando. Calculando. Porque se era guerra que ele queria… Era guerra que ele ia ter. E dessa vez… No meu território. O primeiro dia foi um inferno. O segundo… pior ainda. Mas eu aprendi rápido. Muito rápido. Um mês depois… Se tem uma coisa que eu sei fazer bem… é me adaptar quando eu preciso. No começo, eu quis surtar. Quis quebrar tudo. Quis sair dali de qualquer jeito. Mas eu entendi uma coisa logo na primeira semana: Bater de frente com o Féra daquele jeito… só me afundava mais. Então eu mudei. Não por fraqueza. Por estratégia. Passei a observar mais. Falar menos. Aprendi o nome de quem importava. Sorri quando precisava. Ignorei quando era melhor. E, principalmente… Aprendi a lidar com ele. Fé gostava de controle. Gostava de se sentir dono da situação. Então eu deixei. No começo. Passei a receber ele diferente. Sem grito. Sem discussão. Às vezes até com um sorriso. — Tá diferente… — ele falou uma noite, me olhando com desconfiança. Dei de ombros, mexendo no cabelo. — Cansei de brigar à toa. Mentira. Mas ele não precisava saber. Fui me aproximando aos poucos. Sem pressa. Sem pressão. Um toque aqui. Uma conversa mais leve ali. Nada forçado. Tudo calculado. E funcionou. Claro que funcionou. Homem é previsível quando acha que tá no controle. A casa pequena já não me incomodava mais como antes. Não porque eu gostava… Mas porque eu sabia que era temporário. Eu não tinha nascido pra viver daquele jeito. E não ia morrer ali. Numa noite, ele chegou mais cedo. Sem os seguranças. Sem barulho. Só ele. Sentei ao lado dele no sofá simples, passando a mão devagar pelo braço dele. — Tá cansado? Ele me olhou de lado. — Sempre. Aproximei mais. Encostando. — Então para de se estressar à toa… Silêncio. Pesado. Ele me analisando. Eu mantendo o controle. — Tu sente falta lá de cima, né? — ele soltou. Não respondi na hora. Só abaixei o olhar. Como se tivesse sentido. Como se tivesse aceitado. Mas por dentro? Eu sorri. — Não é isso… — falei baixo. Ele ficou em silêncio. Esperando. — Eu sinto falta… de nós. Pronto. Era isso. O golpe certo. Na hora certa

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