Mundo de ficçãoIniciar sessãoDiego
Minha mais nova seguidora parece um passarinho fora do ninho. Não sei se estou mais surpreso com a audácia ou incrédulo com a falta de noção. Veio me seguindo até o casarão achando mesmo que é invisível? Vou dá uma lição rápida para que nunca mais saia andando atrás de um desconhecido por aí. Levo a mão à calça e faço um gesto vulgar. Espero pânico imediato, sinal de quem percebeu que se meteu em encrenca. Mas ela apenas se espreme contra a parede rígida. Nos olhos dela, vejo um misto indecifrável de medo, vergonha... e curiosidade. Fico ainda mais surpreso. Acelero os passos na sua direção e a encurralo contra a alvenaria fria. É quando o perfume dela me atinge. Um aroma floral invade minhas narinas e uma sensação instintiva perpassa todo o meu corpo. Meio desconcertado, pisco devagar e observo seu rosto com atenção redobrada. A pele delicada, os olhos acinzentados visivelmente amedrontados, os lábios rosados e entreabertos. Quando a vi há uma hora, não me pareceu nada demais, mas agora, a centímetros de distância, percebo que cometi um tremendo erro de avaliação. Deslizo os dedos pelo contorno do seu rosto macio. Espero ouvir o grito de socorro, a súplica ou a tentativa apavorada de me empurrar. Nada acontece. E, de certa forma, essa passividade me preocupa e me instiga na mesma proporção. A respiração dela é curta. Os pequenos seios sob o tecido do vestido se movem numa sequência rápida e deliciosa. Até ela decidir abrir a boca e a voz sai macia, num sotaque diferente. Que voz linda. — De onde você é? — pergunto, deixando minha voz soar grave perto do seu ouvido. Nesse momento, ela ensaia escapar pelo lado. Eu deveria deixá-la ir, mas algo além da minha lógica me impede. Prendo seu caminho de volta e solto a frase provocativa que muda o tom de tudo. Ela arregala os olhos. A postura fica tensa. Os olhos se estreitam, furiosos. Empina o tórax e, com uma altivez, brada: — Não sou criança! Tenho dezenove! Silencio por um segundo. O passarinho não é tão frágil assim. E, se tratando de fruta, dezenove anos significa que está no ponto certo. Baixo o olhar para o seu corpo delgado. Os detalhes despercebidos de longe estãomais perceptìveis. Cintura fina, quadris largos, pernas que certamente são bem torneadas sob o vestido. Uma curiosidade me assanha. — Já beijou alguém antes, gracinha? Novamente ela muda o semblante. A audácia de segundos atrás dá lugar a um rubor violento que sobe do pescoço até as bochechas. — Eu... Eu... Ao gaguejar, ela se denuncia. Como assim nunca foi beijada? Sorrio de leve. Não sou homem de perder uma boa oportunidade , e beijá-la se tornou um propósito do qual não vou abrir. É um prazer quase egocêntrico ser o primeiro na vida de alguém assim. — Ótimo... — murmuro. Desço minha face até alinhar meus lábios aos dela, aguardando, no fundo, um "não" ou um desvio de rosto. Ela, porém, não cede. Apenas aguarda o inevitável. Não perco tempo. Roço levemente meus lábios nos dela, sentindo a maciez inicial. Ela cede, fechando os olhos, entregue. Abro caminho com os lábios, invadindo o espaço que ela deixa sutilmente aberto, acolhendo minha língua morna. O suspiro curto me anima de um jeito diferente. Meu corpo corresponde de forma muito mais intensa do que costumo sentir com outras mulheres. E confirmo: ela realmente nunca foi beijada. A hesitação, a forma como tenta acompanhar sem saber direito o que fazer com a boca... é tudo novidade. Foco empolgado, mas me contenho para não assustá-la. Já que sou o primeiro, que seja uma experiência inesquecível. Aperto o seu corpo de leve contra o meu, e ela solta outro suspiro abafado. Aprovo a reação e aprofundo o beijo. O prazer ultrapassa o mero efeito físico. Sem usar de bom senso, deslizo minhas mãos pelo vestido, descendo pelas costas até alcançar a curvatura dos seus quadris. A garota suspira. Aproveito o embalo e puxo o tecido para cima, alcançando a pele da sua bunda no meu velho e mau hábito de garanhão. Ela paralisa no mesmo milissegundo. E, antes que eu reaja para consertar o movimento, vem uma resposta defensiva que jamais, em toda a minha vida, pude experimentar. De maneira abrupta, ela dobra o joelho e me acerta no meio das minhas bolas. A dor é instantânea. O ar foge dos meus pulmões e solto-me dela, me contorcendo inteiro, e escorrego de costas pela parede até o chão, na tentativa desesperada de atenuar o estrago. Ergo o rosto e vejo nos olhos dela o brilho da vingança misturado com um profundo desprezo. Ela ajusta o vestido com as mãos trêmulas e brada, furiosa: — Lugar que mamãe passou talquinho não é pra sua diversão... Seu... Seu pervertido! Mesmo cheio de dor, consigo gritar de volta, ríspido: — Sua onça maldita! Ela abre a boca para contra-argumentar, pronta para revidar o insulto, mas o som de passos apressados ecoa no corredor próximo. Ela se assusta, vira as costas e some do meu campo de visão. Segundos depois, a figura do Bil surge na dobra do corredor. — O que é que...? — Ele para, surpreso, e corre até onde estou encolhido. — Cara, o que você tem? Imediatamente, tento engolir a dor dilacerante que sinto. — Escorreguei — minto, com a voz espremida. Bil me olha de cima a baixo, desconfiado, mas estende a mão e me ajuda a levantar devagar. — Consegue andar? Fraturou algum osso? Inspiro o ar com força, soltando um suspiro fundo. Em parte para aliviar o latejar lá embaixo, e em parte para não descarregar uma sequência de palavrões. Nunca fui tão humilhado na minha vida. — Vou sobreviver... — digo baixo, trincando os dentes, tomado por um desejo insano de pegar uma certa felina, e dar umas boas palmadas. No fundo, a frustração é maior do que a dor física. Ah, se eu te pego de novo, onça...






