A ESPOSA PERFEITA PARA UM VILÃO
A ESPOSA PERFEITA PARA UM VILÃO
Por: Agnela
Um monte de peças quebradas.

Pov: Até que ponto nossos destinos podem estar relacionados e até onde deixa de ser puramente coincidência?

Como podemos dizer que são consequências de nossas escolhas ou o poder do universo de resolver as coisas, considerando que muitos não acreditam em destino e carma, talvez pudessem ser benções acumuladas ou maldades que não foram pagas.

Não importa no que acreditamos. Sempre havemos de pagar, pelo destino, pelo carma, pelo o que quer que seja, nesse mundo ninguém passa impune.

•••

O som do despertador tocou alto o suficiente para acordar Yelissa de outro pesadelo. Seus monstros do passado não estavam de volta, mas tinham deixado uma marca em sua mente, seu corpo e sua alma. O suor que transbordava em seu rosto, faziam o papel das lágrimas que nunca derramara. Seu peito subia e descia pesadamente.

Medo talvez, que o passado nunca deixasse de ser passado, ou que simplesmente mudasse a orquestra, mas sempre tocando a mesma música.

O barulho vindo da cozinha improvisada da pequena casa nos subúrbios. Noah, garotinho de doze anos, já possuía uma personalidade forte, como de quem tinha algo que muito precisava proteger. E talvez tivesse.

—Coma devagar Raissa, tu ainda podes te engasgar— disse Noah para menina de seis anos, que comia o delicioso prato de ovos mexidos que seu irmão fez.

—Hoje é dia de ir à escola? — perguntou apreensiva, esperando alguma bronca do irmão mais velho por ter esquecido de algo que ele ensinou em menos de dois dias.

—Hoje é Sábado Raissa. Preciso repetir isso novamente todas as semanas.? —respirou fundo, percebeu que começava a usar um tom agressivo—Termina de comer, depois do café-da-manhã podemos ir para o parque do outro lado da rua.

—A mamãe vem conosco? —perguntou animada.

Noah suspirou. Não gostava quando a menina se referia a Yelissa como mãe. Pois sua própria mãe tinha abandonado ele em uma lixeira aos quatro anos, se não fosse por Yelissa provavelmente ele estaria morto ou ido parar em mãos erradas. Não é que ele não gostasse dela, mas ele acha muito jovem para dar tanta responsabilidade para ela.

—Yelissa precisa descansar! Ela trabalha feito condenada para conseguir colocar comida na mesa—falou.

Embora suas palavras fossem verdades, ela não gostava de ouvir ele falando assim. Yelissa que estava parada no batente da porta do quarto, olhou para as duas crianças. Se ela não soubesse chutaria a hipótese de os dois serem irmãos. São tão parecidos em aparência, mas as personalidades tão distintas.

Noah é uma criança com um instinto de sobrevivência e proteção natural chegando a ser quase primitivo. Nunca fala o que sente e sempre se fecha para novas experiências, se as coisas fossem diferentes ele talvez também fosse diferente. O abandono da mãe, deve ter sido algo muito marcante. Sua expressão facial sempre fechada, pouco ri das piadas que Raissa faz. E ela… com aquele sorriso radiante como o sol. Ela tem um brilho nos olhos sem igual, o mesmo que Noah tem, mas com mais inocência, menos dor. Talvez pelo facto de que foi abandonada pela mãe, com apenas seis meses de vida. Yelissa a encontrou próximo ao local onde tinha encontrado Noah sete anos antes.

Há seis anos…

Durante uma caminhada de volta para onde chamavam de casa—Yelissa e Noah, os dois ouvem o choro de um bebê vindo do beco escuro e úmido.

Olham um para o outro, Yelissa queria, mas Noah abanou a cabeça. Não queria que ela fosse pegar mais uma criança.

Ela foi e ele a seguiu, ao chegarem onde a bebê estava. Noah puxa na mão de Yelissa, na tentativa de impedi-la de tirar a criança da caixa que estava no chão.

—Você sempre faz isso? —perguntou ele—Pensa em construir um orfanato? Se esse é o plano, fica sabendo que não falta muito.

—Fica quieto e me ajuda! Ela deve estar com frio—respondeu.

Mesmo com apenas seis anos, Noah já era assim. Ranzinza.

—Como pensa em cuidar de um bebê?

—Do mesmo jeito que eu cuido de você.

—Eh? Pelo menos eu não cago na fralda nem tenho um tipo de comida específica. Nos seus seios saem leite por acaso? — tirou a manta da bebê que estava dentro da caixa e dobrou.

—Não! E nem precisa. Podemos comprar leite e algumas mamadeiras— A bebê parou de chorar— Olha Noah, ela é tão linda. Não é? — inclinou-se para mostrar para ele.

Embora cético sobre levá-la ou não! Ele ficou encantado com a beleza da menina.

—Vamos levá-la para o hospital ou para um orfanato—disse ele. Enquanto andavam pela rua.

—Nem pense nisso. Se colocarmos o pé nesses dois locais, não saímos mais. E que tal se as pessoas achassem que vocês os dois são meus filhos. Já pensou nisso?

—Quem diria que uma garota de 16 anos feia desse jeito seria minha mãe! —resmungou.

Yelissa riu-se. Sabia que ele estava fazendo birra.

—Para quem tem apenas cinco anos, você fala muito —disse.

—Nem temos um local para viver, como pensa em cuidar de uma criança? —perguntou confuso. Ajeitando os papelões onde dormiam nas noites frias sob as estrelas, por baixo da ponte.

—O mais importante é que ela está segura aqui conosco, imagina se ela ficasse lá com esse todo frio? Teria morrido de certeza— Além disso ela não é muito linda?

—Isso não é um animal! Ela não é um gatinho de rua. Amanhã de manhã temos que levar ela para um local seguro. Nem temos um local decente para ficar e o tempo de chuva já já chega.

Yelissa olhou para o menino ao seu lado. Ele era desmancha prazer, mas estava certo.

Yelissa dormiu agarrada com a bebê, até os raios de sol acordarem ela. Quando deu por si, Noah estava a dar de comer a pequena.

—O que é isso? —perguntou confusa. Tinha tanta comida ao lado deles—Onde conseguiu essas coisas?

—Eu ia devolver ela onde encontramos ontem de noite—falou, com o pão na boca da pequena. Ela chupava, e agarrava forte nas mãos de Noah para que não afastasse o pão dela—Mas então, algo estranho aconteceu. Umas pessoas estranhas começaram a deixar coisas na caixa. Tem dinheiro ali— disse apontando.

—Eles devem ter pensado que vocês são mendigos! Por isso deram isso para vocês!

—E se conseguirmos fazer isso mais vezes, podemos ter comida e dinheiro suficiente.

—Ou atrair a atenção de assistentes sociais ou da polícia. É muito arriscado. Não voltem a sair sem mim—falou séria.

O menino assentiu com a cabeça sem tirar os olhos de Yelissa.

—Hoje eu vou procurar um emprego como auxiliar de limpeza em alguma casa! Não podem sair daqui em hipótese alguma—disse, organizando os papelões como sempre.

—Claro, não tenho mesmo onde ir.

Yelissa saiu de onde os deixou e correu para conseguir pegar ônibus com seus únicos trocados. Ainda com o coração na mão por ter deixado eles sozinhos. Mas era necessário. Ninguém a contrataria se soubessem que tem duas crianças para cuidar.

Noah olhava para bebê enquanto dormia. Faziam horas desde que Yelissa tinha saído.

“Será que a mulher que me abandonou fez com que a sua mãe também te abandonasse? Eu acho que aquele lugar tem alguma maldição ou algo do tipo.” Pensou o menino enquanto via a pequena dormir.

Durante o dia, a bebê não chorou, pareceu entender Noah, e que se ela chorasse, não ajudaria muito. E que ele a poderia devolver de onde a tirou a qualquer momento.

Antes do pôr do sol. Yelissa chegou com roupas de empregada e algumas sacolas.

—Olha quem voltou— disse animada. Sorrindo para o menino que não parecia nada feliz.

—Onde esteve? Pensei que fugiu e me deixou com a bebê.

—Nunca! — disse séria—Tenho boas notícias. Consegui jornais para deixar a nossa cama mais confortável. E lençóis, embora velhos, ainda parecem bons.

—Onde encontrou isso?

—Minha nova chefe disse que teria que jogar fora! E também tem roupas que eram de seus filhos quando mais novos. Penso que algumas delas te servem.

—Encontrou emprego? —perguntou animado.

—Sim! Vou trabalhar como faxineira, graças a Deus consegui logo de primeira. E fomos abençoados com essas coisas.

—Ainda temos um pequeno problema—disse ele olhando para a bebê. Que balbuciava alguma coisa.

Yelissa passou a mão na perninha grossa da bebê.

—Eu não vou deixá-la no orfanato. Eles não vão deixá-la num lugar confortável e seguro—disse. Com um tom de nostalgia.

—Eu quis dizer que ela fez o número dois, e não tem fraldas! Será por isso que a mãe dela a abandonou? Ela caga muito — disse o menino com nojo.

Yelissa riu-se muito. Aquele momento tinha saído de pesado a leve num instante.

—Eu volto já. Consegui alguns trocados, vou comprar alguma coisa para ela e para você. Enquanto isso… vai vendo o que te serve e vê se muda de roupa, você está precisando.

Enquanto caminhava em direção ao supermercado, Yelissa parou a frente de um café. Parecia lindo e quente, as pessoas lá dentro estavam sorrindo e felizes. Mas o que mais a chamou atenção, foram os jovens sentando numa mesa no centro. Bem vestidos com roupas que pareciam confortáveis, quentes e bem penteados, isso a fez lembrar de quando ainda estudava. Um dos jovens estava no lado de fora, tinha acabado de falar ao telemóvel quando reparou que ela olhava com um brilho nos olhos para seus amigos dentro do café.

Ele parou à frente dela e disse— Quer entrar? Você parece com frio—disse o jovem de cabelos loiros e sorriso cativante.

—Não—respondeu rápido, sem nem olhar para ele.

—Você parece tão nova! Por que está com roupas de doméstica?

Ela finalmente olhou para ele. No mesmo momento, o coração dos dois pareceu sair do ritmo normal. Batia desordenadamente.

Ela ficou com a boca seca, as palavras não saíam, seu cérebro estava em pânico tentando entender o que era aquilo. E ele, estava do mesmo jeito.

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