Mundo de ficçãoIniciar sessãoDamon Black
— Eu não sei como lidar com a Harper, acredita que ela pintou o cabelo e colocou piercing em uma semana que me ausentei? — despejo minhas frustrações no meu irmão. Chase me encara com certo divertimento, como se a desgraça alheia da minha vida fosse de fato algo engraçado. Ele obviamente não entende metade das frustrações da minha vida; é o meu irmão mais novo, que "curte" a vida adoidado, sem nenhuma preocupação, e não tem nenhuma responsabilidade do tipo filhos, me faz quase enlouquecer, como no caso da minha filha de quinze anos. Deixo minhas costas se encostarem para trás na poltrona, passo a mão no cabelo, sentindo uma pilha de nervos me consumindo. — E o que tem? Nessa idade, a gente fazia coisa pior — relembra ele. Bufo irritado. — Acontece que fez isso em qualquer lugar por aí, sem a minha autorização, e o pior é que a Celia fica fazendo a cabeça da minha filha contra mim. Desde que a Lily morreu, ela queria que as crianças ficassem com ela, e usa a Harper para me atingir. Parece que nem conheço mais a minha própria filha, na verdade, nenhum deles. É um fato, no momento em que a minha esposa morreu, tudo se tornou estranho para mim, principalmente com os meus filhos. Não sei lidar com eles, não sei nem lidar comigo mesmo. Às vezes, posso ser duro, e como a Harper mesmo falou, foco tanto no trabalho que parece que não me importo com eles. A questão é que no trabalho, isso me ajuda a não enlouquecer. Quando estou no meu escritório, parece que ainda sei fazer alguma coisa da minha vida, que virou de ponta a cabeça desde que a Lily morreu, me deixando para cuidar de três crianças. Celia é avó do lado da mãe, sempre teve um certo apego às crianças. A gente até se dava bem antes da tragédia acontecer, mas tudo mudou depois disso. Celia queria ficar com as crianças, dizendo que eu não saberia cuidar delas (e, sinceramente, às vezes acho que ela tem razão). Meus filhos são as únicas coisas que tenho, e posso não saber demonstrar o quanto os amo, mas eles são tudo para mim. E, óbvio, falei que eu cuidaria deles, mas isso não foi suficiente para ela se dar por vencida. Todas as vezes que as crianças vão para casa dela no final de semana, elas voltam mais rebeldes, e confesso que sou um pouco ausente para frear a educação deles. Meu irmão me lança um olhar de compaixão e pousa as mãos sobre a mesa. — Isso deve ser frustrante pra caralho, mas vai dar tudo certo, Damon. Já até contratou uma babá nova, não foi? — indaga, agora se jogando para trás de novo na cadeira. Aproveito a menção da babá nova para pegar o meu tablet, onde aparecem as câmeras de monitoramento da minha casa, para ficar de olho em qualquer coisa estranha. Nunca é demais desconfiar, ainda mais quando se trata de uma pessoa estranha cuidando dos meus filhos. Passo pelas câmeras uma por uma, ao redor de onde tem câmeras dentro da casa e no jardim, e ali está a tal Sienna, no jardim, tentando conversar com o Noah. O que não é nada fácil, para dizer a verdade. Até comigo é difícil; só com a minha mãe o Noah tem um pouco de apego, mas sei que parte disso é a minha culpa por não dar a devida atenção a ele... mas é um pouco difícil pra mim. A cena não parece nada demais, e não vejo nada que coloque o meu filho em risco, então deixo o tablet sobre a mesa e volto para o meu irmão. — Contratei, mas duvido que a dita dure uma semana sequer. Ninguém consegue ficar um mês com eles. Parece que gasto mais dinheiro com babá do que com a empresa — evidencio frustrado. Pra mim, essa nova babá não vai durar nem duas semanas. É sempre assim. Ninguém consegue lidar com os meus filhos, que só faltam matar um quando pegam para pirraça. A verdade é que tenho até pena delas. — Eles são uns pestinhas também, hein? Espantam todas as babás — agora há um brilho malicioso no seu olhar. Uma sobrancelha dança no seu rosto. — Pelo menos a babá é bonita? Franzo o rosto para ele, achando um absurdo sua falta de noção, mas meu irmão sempre foi assim, sempre dando em cima de todas as mulheres do mundo. Até mesmo já o flagrei dando em cima de uma das babás que contratei. Se tem uma coisa que odeio é misturar o profissional com o pessoal, é algo inadmissível. — Acha mesmo que vou ficar olhando para mulher depois do que me aconteceu? — falo irritado. — E, só para constar, fica bem longe dessa babá. Não quero você se envolvendo com os meus funcionários. Ele levanta as mãos em rendição. — Desculpa, foi mal. Não vou dar em cima de ninguém. Mas, Damon, irmão, já faz três anos que sua esposa morreu. Talvez seja hora de encontrar uma esposa, uma figura feminina para as crianças, para cuidar delas como uma mãe. Acho que é disso que eles precisam — sua sugestão me faz ficar mais incrédulo e irritado. Esposa? Não quero nem saber disso. Ainda dói lembrar da Lily e tudo o que me aconteceu, como tudo ao meu redor se quebrou, como a minha alma se partiu ao meio. Ela era tudo para mim, e agora não tenho mais nada e nem confio em ninguém. — Elas já têm mãe, Chase, e eu não quero me envolver com ninguém depois de tudo o que aconteceu. Já é difícil as crianças aceitarem uma babá em casa, imagina eu levando uma desconhecida para casa e dizendo que vou casar com elas. — Pode ser difícil, mas não é uma melhor opção ficar sozinho, cara. Tenho até algumas pretendentes para você. Todos querem uma chance com o meu irmão lindão — seu tom é brincalhão. Franzo o nariz e bufo. — Chase, vai trabalhar, tá? — despacho antes que saia mais alguma besteira da sua boca. Chase é o meu braço direito na empresa. Trabalhamos juntos como equipe. Apesar de me estressar várias vezes, ele ainda é um ótimo profissional de engenharia, assim como eu. — Sim, chefe — ele se levanta do assento, dá aquele tipo de saudação militar e sai da sala. Encaro por um momento a foto no porta-retratos na minha mesa, eu, minha esposa e os meus filhos de uns quatro anos atrás. O Noah ainda não existia. Sinto um aperto no peito, abaixo o porta-retrato, virando-o contra a mesa para não ver mais nada, e volto a olhar à pilha de papeladas que tenho que resolver hoje. Chego em casa já tarde da noite. Normalmente, não tomo café da manhã, nem almoço, e muito menos janto em casa. Costumo fazer isso às vezes com alguns clientes ou fico na empresa o dia todo resolvendo alguns problemas pendentes. Não muda muito. Quando chego em casa, me isolo no meu escritório. É a minha maneira de manter o foco em algo e não deixar me abater por nada. O trabalho excessivo tem sido minha salvação. Ao passar pelo corredor que leva aos quartos principais, me deparo com a babá resmungando alguma coisa baixa, enquanto parece tentar abrir a porta do seu quarto. Parece que ela nota a minha presença e, no mesmo instante, arregala os olhos, parecendo assustada. Continuo com a expressão neutra, avaliando a situação. Meus olhos percorrem inconscientemente a mulher, e me vem à mente o que Chase falou: "Ela é bonita?" Posso admitir que sim, apesar de não gostar nem um pouco dela. Não sei bem o porquê, não que ache que ela seja alguma maluca psicopata. Não é nesse quesito, é diferente. Eu confio nas escolhas da minha mãe de contratar babás. E essa, em questão, é a irmã de Tessa, uma engenheira ambiental da minha empresa, e gosto de Tessa. Ela é ótima, mas não sei se a irmã dela é. Talvez eu tenha demorado demais o olhar nela. Sienna tem olhos verdes e cabelos cachados até encantadores, e um corpo que qualquer homem por aí desejaria. Que merda estou pensando? Endureço o rosto no automático. — Ah, senhor Black... — sua voz falha e parece tão desconcertada que faz eu franzir o rosto e voltar a olhar para suas mãos. — Minhas mãos estão coladas nessa maçaneta e... não quer sair de jeito nenhum — murmura, agora envergonhada. Fecho os olhos, esfregando a têmpora. Miles fez isso, tenho certeza. Meio hesitante, chego perto dela, a uma distância razoável para minha própria segurança, e observo suas mãos presas na maçaneta. Me obrigo a tocar a sua mão, ignorando o meu desconforto, ao tentar tirar suas mãos dali, o que não funciona. Deve ter sido a cola mais potente, e já sei até onde ele pegou no meu escritório. — Tem muito tempo que está aqui? — pergunto, sentindo um pouco de preocupação, só um pouco, erguendo o olhar para ela. O seu rosto está corado e não sei nem dizer bem o porquê. — Uns quinze minutos, eu acho? Assinto e dou uma distância dela. — Isso não vai sair assim. Vou pegar uns produtos para tirar — comento. Sienna faz que sim com a cabeça. — Ok, só esperar um minuto e já volto. Desapareço do seu campo de visão e vou procurar uma acetona e um pano. Sei lidar com isso; afinal, sou um engenheiro e tenho que ter certos conhecimentos. Volto com o pano e a acetona, e Sienna desencosta a cabeça da porta. Me aproximo dela e coloco a acetona no pano. Passo ao redor das mãos e da maçaneta. A todo momento, sinto o olhar dela queimando em mim. Estou inquieto e esquisito, e só quero que essa cola saia logo da mão dela de uma vez para eu me afastar. — Obrigada — murmura assim que suas mãos se desprendem da maçaneta, me fazendo sentir aliviado. Parece que demorou uma eternidade. — Só estou limpando a sujeira do meu filho — digo, afiado. Ela pisca, parecendo desconcertada, e encara as próprias mãos, flexionando-as. — E você já tirou a tinta vermelha do cabelo da Harper? — minha raiva quanto a isso não era nem o fato de ela ter pintado o cabelo e colocado o piercing, mas sim não ter me pedido para fazer. Eu já fui adolescente, caramba. Já fiz coisas... Já até fiz uma tatuagem da qual me arrependi amargamente e fiz uma sessão a laser para remover. Mas tenho que pôr algum limite, coisa que nem eu mesmo sei como colocar. Normalmente, a Lily era boa nisso, eu era o tipo de pai bobo que deixava as crianças fazerem o que quisessem. — Ela não deixou tocar no cabelo dela — dá de ombros. Suspiro. — Bom, dá um jeito — sibilo. Suas sobrancelhas se franzem. — Não acha um pouco exagerado? Ela já fez. Não faz muita diferença. Ela só é uma adolescente, é normal pintar o cabelo e colocar piercings no nariz... A interrompo. — Não me ensine o que tenho que fazer ou não com a minha filha. Só faça o que eu mando, babá — as palavras saem amargas e em tom desprezativo da minha boca. Minha mandíbula se tensiona. Sienna toma uma expressão fechada, algo no seu rosto se contorce. — Enfim, é melhor eu entrar... — faço que sim e a vejo entrar no quarto e fechar a porta, não antes dos nossos olhares se encontrarem pela fresta da porta por alguns segundos. Engulo em seco e começo a andar em direção ao meu quarto para tomar um banho e ir para o meu escritório revisar algumas coisas, mas desvio o caminho, indo até o quarto de Miles primeiro. Abro a porta devagar e passo a mão no seu cabelo, tomando cuidado para não acordá-lo. Às vezes levo um susto vendo o tanto que cresceu. Sinto a culpa me corroer por não ter tempo para brincar com ele como antes. Entro no quarto de Noah e puxo a coberta para o cobrir. Há adesivos de estrelas brilhando no teto, com uma lua. Só assim ele pega no sono, tentando contar as estrelas. Saio do quarto dele e hesito em entrar no de Harper. A placa típica de "não entre" está estampada ali. Decido não entrar e caminho para o meu quarto. Entre os meus três filhos, ter uma filha adolescente é a mais complicada. Me sinto mal pela briga de hoje, principalmente porque sei que ela tem razão em cada palavra, e a coisa que mais me dói é pensar que ela me odeia. Que eles me odeiam.






