1 - Aura
1 - Aura
Por: J Araneda
01

Alguém acredita em você

O salão estava inundado por um mar de pessoas entregues ao ritmo frenético da música eletrônica. As luzes estroboscópicas piscavam incessantemente, hipnotizando a multidão como se cada flash revelasse fragmentos de um sonho coletivo. No centro da pista, a figura de uma garota se destacava, sua silhueta era um contraste vibrante em meio ao caos, dançando numa intensidade que parecia retratar uma batalha interna.

Seu nome era Kimy, poderia ser apenas mais uma entre tantos, mas dentro si, algo estava desalinhado. Como funcionária de uma seguradora de veículos, ela havia testemunhado um acidente com vítimas fatais, e desde aquele dia, algo a perseguia, não eram apenas lembranças, eram pensamentos sombrios, questões existenciais que a torturavam: Qual era o verdadeiro propósito da vida? E a morte, o que ela realmente significava? Essas perguntas haviam se tornado uma obsessão silenciosa, sussurrando no fundo da sua mente, mesmo ali, naquele momento eufórico.

Kimy tentava se perder na música, forçando-se a seguir o ritmo daquela dança country que tomava o salão, mas cada vez que sentia um lampejo de alegria, essas visões sombrias retornavam com força, os flashes do acidente, um túnel de luz misterioso. Ela sacudia a cabeça violentamente, na tentativa desesperada de afastar aquelas visões, mas elas estavam agarradas ao seu subconsciente.

Estava vestida para a ocasião: de jeans apertados, camisa xadrez, botas e o tradicional chapéu de cowboy. Um rapaz aproximou-se, animado, e começou a dançar com ela, tentando acompanhar seu ritmo enérgico, mas quando ele a puxou pela cintura e a fez girar, Kimy sentiu-se desconfortável com aquela proximidade... foi demais. Quando ele tentou abraçá-la, ela recuou, afastando seus braços com firmeza. Com um olhar decidido, pediu licença e se afastou, indo direto para sua mesa.

O rapaz ficou parado, confuso, sem entender o que havia feito de errado. Do outro lado do salão, Talita, que assistira a toda essa cena, foi até a amiga e sentou-se ao seu lado, curiosa para entender o que estava acontecendo.

Talita:—E aí, está tudo bem?

Kimy:—Resolvi descansar um pouco só isso.

Talita:—Meu, qual é a sua, aquele cara é super gente fina, não precisavas tratá-lo daquele jeito!

Kimy:—Achei que estava avançando demais o sinal, está bem?

Talita:—Já sei, você está saindo com alguém, só isso podia justificar sua atitude.

Kimy:—Na verdade tem um cara sim. (tentando aceitar o álibi)

Talita:— E quem é esse cara?

Kimy:— Te falo depois, acho que vou indo.

Talita:—Espera um pouco mais, vamos juntas com a turma?

Kimy:—Melhor ir sozinha, preciso esfriar a cabeça.

Talita:—Cuidado na rua, hem?

Kimy deixou a danceteria com o coração acelerado, a passos rápidos pela calçada deserta. A brisa fria da noite tangia sua pele incomodamente, enquanto um sentimento de culpa a corroía por dentro. "Eu fui rude," pensou, revivendo a cena com o rapaz. Talvez Talita estivesse certa. Talvez devesse voltar e se desculpar. Mas o pensamento se dissipou tão rápido quanto surgiu, substituído por uma urgência de chegar logo em casa, e de deixar para trás aquela noite perturbadora.

Quando seus pés pisaram a ponte, ela viu a sombra de dois rapazes encapuzados, com seus rostos mal iluminados pelo brilho fraco da luz da rua, a fumaça de seus cigarros se dissolvia na escuridão. Um deles soltou um assobio agudo, cortando o silêncio e causando um arrepio pela espinha de Kimy. O outro ergueu a voz, áspera e insistente:

— Hei, chega aqui.

Ela congelou por um instante, seu coração passou a bater ainda mais forte. Com um olhar rápido para trás, viu os dois começando a sair da ponte, avançando em sua direção. Sem pensar duas vezes, ela acelerou o passo, mas seu desespero cresceu ao perceber que a calçada à frente estava em reforma, bloqueando seu caminho, não tinha escolha, teria que atravessar a praça pelo lado mais escuro, mais longo. Cada passo em direção àquela escuridão se tornava um convite para o perigo, sentia-se como uma ovelha indo direto para o covil do lobo.

Foi então que resolveu correr, o som dos seus passos pesados ecoavam pela praça vazia, enquanto seus olhos varriam o ambiente, buscando desesperadamente por qualquer sinal de vida, qualquer ajuda. Mas infelizmente aquele lugar ficava deserto a noite. O pânico tomou conta quando seu salto se torceu, e ela sentiu uma dor aguda no tornozelo. Mesmo mancando, forçou-se a continuar, o medo empurrava-a para frente, mas a sorte não estava ao seu lado. Mais uma vez, seu pé torceu, e desta vez a dor foi insuportável, e começou a cambalear até se encostar numa árvore, agarrando-se à seu tronco para não cair.

Os dois rapazes se aproximavam devagar, com uma confiança fria, podia ver a fumaça saindo da centelha avermelhada de seus cigarros, e suas vozes sarcásticas ecoando na escuridão:

— Não precisava ter fugido.

— Hei, guria, a gente só queria trocar uma ideia.

Lágrimas começaram a escorrer pelo rosto de Kimy, misturadas à dor e ao medo, ela se sentia presa, indefesa, enquanto eles a cercavam, com as intenções gravadas no brilho sinistro de seus olhos. Foi então que um feixe de luz atravessou a escuridão. Faróis de um carro que se aproximava, essa luz alta iluminava o local onde estava, e agora seu apelo por ajuda poderia ser reconhecido com clareza, esses faróis haviam trazido a esperança de volta.

Com o coração na garganta, Kimy acenou freneticamente para o carro, como última chance de escapar daquele pesadelo.

Aparências

 O carro freia abruptamente perto deles, fazendo os rapazes recuarem para trás, o motorista sai do carro e vai ajudar Kimy. Pergunta:

—Oi Kimy, o que foi?

—Eduardo, que bom que apareceste. Torci meu pé, está doendo.

Enquanto Eduardo ajuda ela a se levantar e a sentar no banco do carro, os outros rapazes ficam observando, falando baixo, resmungando. Eduardo pergunta:

—Qual é a de vocês?

—Tentamos ajudar a guria, mas ela estava meio apavorada.

Eduardo acena para eles manterem distância, entra no carro e sai dali. Kimy pede para levá-la em casa, no caminho conversam:

Edu:—Quer ir no PS?

Kimy:—Não precisa, já está melhorando.

Edu:—O que aconteceu lá na rua?

Kimy:—Achei que eles estavam me seguindo e aí tentei fugir e torci meu pé, quando você apareceu (...)

Eduardo pega o celular e liga :

Edu:—Tio, tem dois Nóia na praça, pede para o Luizão dar uma conferida (...)

(Kimy interrompe)

Kimy:—Hei, não faz isso, posso estar enganada sobre eles.

Edu:—Não se preocupe, eles só vão conversar com os caras, e além do mais eles poderiam fazer o mesmo com outra garota.

Kimy:—Acho que tem razão, não sei o que seria de mim, se você não tivesse aparecido. Obrigada!

Edu:—Foi uma coincidência mesmo. Hei, qualquer dia podíamos sair para dar uma volta, o que acha?

Kimy:—Está legal, pode ser sim.

(Ruboriza com o convite inusitado)

Eduardo chega a casa dela, André vem até o carro e agradece o Eduardo, iniciando ali uma amizade com ele, trocando até seus números de celular, Kimy agradece a Edu com um beijo no rosto:

—Obrigada Du, me salvaste dessa. Nem sei como agradecer?

—Vai surgir uma oportunidade. (Sorri)

Despede-se dos irmãos e sai de carro.

André:—Cara legal!

Kimy:—Pois é, ele apareceu do nada.

André:—Tem bom gosto Kimy!

Kimy:—Hei, não tem nada entre a gente. (Ruboriza)

André:—Não tem nê, só quando você agradecer na “próxima oportunidade” ?

Kimy:—Ah, mas que bobo. (Soca o braço dele)

André corre para dentro da casa com a irmã atrás, querendo bater nele. Enquanto isso, do outro lado da rua, um misterioso rapaz de boné, termina de gravar aquela cena com o celular e envia o vídeo para seu contato. Longe dali, num posto de conveniencias, Eduardo fala com seu tio pelo “viva voz” do carro:

—Me explica tio, como você sabia que a moça estava na praça?

—Já te disse, tenho bons contatos.

—Então, foi melhor do que eu esperava. Conseguiram pegar aqueles maconheiros?

—Sim, deixa eles comigo, não vão mais incomodar ninguém.

—Ótimo, depois nos falamos! (Desliga)

O tio de Edu desliga o celular, pega um envelope do bolso e entrega para os dois encapuzados que haviam perseguido Kimy na saída da danceteria.

—Valeu Velho!

—Agora caiam fora.

—Vamos nessa...

O tio fica observando aqueles dois se afastarem, enquanto confere as novas mensagens do seu celular.

Blog de EQM

Mais tranquila, Kimy senta no sofá da sala e volta a ler o depoimento que seu cliente havia feito na rede social, sobre o acidente que levou à perda total de seu carro, que o deixou entre a vida e a morte, onde também relatou que após o impacto teve a sensação de estar em outro lugar (uma dimensão paralela à da estrada).

Esse relato lhe havia trazido pesadelos na noite anterior, e a havia incomodado o dia todo com visões assustadoras, estava tão  perplexa, que resolve pesquisar tudo que fosse relacionado à EQM (Experiências de Quase Morte) na internet, foi quando encontrou o blog do Aragon, e ficou tão fascinada com seus argumentos intrigantes, que acabou se identificando com suas teorias sobre a “vida depois da morte” e sobre um arrojado mundo espiritual invisível aos olhos humanos, e assim desejando ter uma compreensão maior ela decide enviar uma mensagem pedindo-lhe mais informações..

Vida na cidade grande

Tudo começou com ele, o "homem dos seus sonhos". Um jovem programador da cidade grande. Ao acordar, seus pés descalços tocam o piso frio, ele caminha vagarosamente até a sala, carregando nas costas a sensação de estar em um lugar que, embora familiar, não parecia seu.. Com um movimento lento, abre a janela, enquanto o ar externo insipido tange seu rosto, o vento da manhã desordena seu cabelo castanho, e quase sem perceber, seus olhos se perdem no horizonte — um “mar” sem vida, feito de concreto e vidro. Prédios cinzentos, altos e sufocantes dominam a paisagem, impondo-se como gigantes silenciosos, quase ameaçadores. Ele se pergunta: como algo tão grandioso pode ser, ao mesmo tempo, tão opressor?

O amanhecer ali é diferente, o céu se tinge de um cinza sufocante, carregado de poluição, como se a cidade estivesse sempre em uma manhã sem brilho, sem cor. O sol, tímido, mal consegue atravessar essa névoa de poluição. Ao longe, na rua, o movimento das pessoas cresce, preenchendo as calçadas e praças num ir e vir inexorável, enquanto pombos levantam voo, circulando pelos edifícios, assustados com fluxo incessante dessa multidão caótica.

Por um momento, ele hesita, algo o prende àquela janela, como se, de algum modo, quisesse escapar, voar. Mas não há tempo para divagações, pois era hora de sair, vestir-se rapidamente, pegar algo para comer. A cozinha é pequena, mas funcional, como quase tudo em sua vida. Ao virar a folha do calendário, um detalhe prende sua atenção, uma frase, ali escrita, como que aguardando ser notada:

"Estar no mundo não significa ser do mundo."

Ele para, aquelas palavras o tocam de modo desconcertante. Quantas vezes se sentiu assim, fora da caixa, fora do sistema? Como se a sociedade, o governo, e as pessoas, fossem de um universo paralelo ao seu.

Ele desce pelo elevador, refletindo, sentindo um nó se formar no estômago. A frase parece ecoar, cada vez mais forte. Seria um aviso? Uma mensagem do além?

Ao sair da garagem, seus sentidos exigem precaução, pois o centro da cidade não perdoa os desatentos, o trânsito já está intenso, e a frente, carros enfileirados em direção ao parque Central. O dia mal começou e a cidade está fervilhando. Ele se encontra em um cruzamento, aguardando o sinal verde, quando olha para o céu. Observa aviões, descendo um atrás do outro, desafiando a gravidade ao passarem rente aos arranha-céus, e pousando em seguida no sobrecarregado aeroporto da cidade. Essa visão surreal, quase sufocante, tinha algo deprimente. Enfim, ele suspira, sentindo o peso de mais um dia começando.

Aquela incômoda pergunta volta:

—qual o seu lugar em tudo isso?

Mensagem

Ao chegar a empresa faz tudo igual ao dia anterior, cumprimenta os colegas, vai para sua sala, segue o ritual diário,  trabalhava com análise de sistemas, era um típico paulistano, sempre na correria, fazendo hora extra, cursos de especialização, só sobrava tempo para chegar em casa e dormir. Enquanto aguardava a inicialização de alguns processos, faz uma parada para tomar um chá, aperta o botão da máquina, espera o copinho descer e encher, retira, experimenta, faz cara de desgosto, por causa da falta de açúcar, então o celular trepida e ao olhar a tela percebe que havia recebido uma mensagem de seu blog particular:

Oi... 

Adorei teu blog, fazia tempo que estava procurando algum site que tratasse o assunto EQM com mais clareza... Acho que tens as respostas que eu estava procurando... Podes me dizer qual foi a fonte da informação do texto que postou no site?

   (\__/)

  (>^.^<)

  (")___(")

   Neka                                    

“Neka” era o pseudônimo usado por Kimy.

 

Blog

Há alguns meses Aragon vinha administrando um blog na internet, postando artigos sobre EQM, no qual recebia consideráveis acessos diários, o tema sobre EQM instigava muitas pessoas que buscavam evidências sobre vida após a morte, mas o verdadeiro motivo pelo qual havia criado o Blog era para encontrar respostas para fenômenos estranhos que ele próprio estava presenciando ultimamente, por isso a opinião e as experiências relatadas pelos visitantes lhe eram muito valiosas.

Distração

Kimy estava atrasada, saíra da seguradora direto para a faculdade e, claro, ainda estava com a camisa azul berrante da empresa, estampada com o slogan gigantesco:

"SUA SEGURANÇA É NOSSA SATISFAÇÃO!" Bem no peito.

Era praticamente um outdoor ambulante.

Enquanto corria para a aula, viu o Eduardo sentado na escadaria da faculdade, no meio de um grupo de discussão.

"Ai ele não Não olha pra mim, não olha pra mim..." repetia mentalmente, tentando passar despercebida, sentindo-se ridícula com aquela camisa, precisava chegar ao banheiro e se trocar antes que ele a visse assim.

Decide passar correndo por ele, fingindo que não o havia visto, mas ao pisar no degrau perto dele, acaba escorregando e dali em diante sua vida passa em câmera lenta: ela tentando se equilibrar, os braços flutuando no ar como um pássaro em desespero... até que, no auge do desequilíbrio, se apoia pesadamente nos ombros de Eduardo.

Eduardo: —Opa, oi Kimy, que surpresa. Está tudo bem?

Ela se levantou rapidamente, tentando disfarçar o slogan da seguradora com um dos braços.

Kimy: —Oi Du, nossa que vexame. Estava apressada pra aula e acabei caindo... (fica vermelha)

Eduardo: —Ohh, seu pé ainda está machucado?

Kimy: —Ah sim, acho que ele ainda não está respondendo bem a lei da gravidade — Riem (que desculpa idiota pensa)

Eduardo: —Tem que cuidar disso (sério)

Kimy: —Valeu a preocupação, olha estou com pressa, mas a gente se fala, viu ...(encabulada)

Kimy faz um sorriso torto, e saiu correndo, deixando Eduardo confuso. No meio daquela trapalhada, ela nem percebeu que seu cartão de crédito havia caído.

Kimy cursava psicologia, não estava plenamente convencida se era isso que queria profissionalmente, mas se interessava por tudo que viesse de grandes pensadores. Naquela noite professor Rômulo passa a abordar um assunto muito peculiar:

Professor:—Vamos falar sobre a lei de Kismet e de sua influência no marketing, filosoficamente, Kismet é frequentemente associado à ideia de que a vida é guiada por forças além do controle humano. Essa perspectiva sugere que eventos e encontros são predestinados, levando a reflexões sobre livre-arbítrio e determinismo. A discussão sobre Kismet na filosofia provoca debates profundos sobre a natureza da existência e o papel que o acaso desempenha em nossas vidas.

Kimy, mordendo a ponta da caneta, “nossa, tudo a ver comigo”

O professor Rômulo continua, (com voz de locutor de rádio AM):— "E Aristóteles dizia que o homem é um animal racional...”, mas o que acontece quando a racionalidade falha? Quando o destino parece colocar cascas de banana metafóricas no caminho da nossa existência?

Kimy ergueu uma sobrancelha. A menção a "cascas de banana" a fez lembrar imediatamente do seu "encontro" com Eduardo mais cedo, quando se transformou em uma vítima literal da gravidade, seria isso o determinismo da lei de Kisnet.

Professor Rômulo (continuando):— "Freud dizia que nada é por acaso. Até o tropeço mais bobo pode ser uma manifestação inconsciente de um desejo reprimido."

Kimy quase engoliu a tampa da caneta, será que meu inconsciente quis tropeçar no Eduardo só pra arrumar uma desculpa pra falar com ele? Ela pirou ao imaginar que o destino dela estava sendo traçado por Freud e suas teorias esquisitas.

Professor Rômulo (agora mais animado, como se tivesse acordado a turma): "Então, meus caros, pensem nisso: será que o azar existe, ou tudo é uma questão de como reagimos às situações? Afinal, até uma queda pode ser uma oportunidade!"

Na hora do intervalo, já com a camisa trocada, mas ainda remoendo a humilhação na escadaria, Kimy decidiu que precisava se desculpar de forma mais civilizada. Ela repara que Eduardo estava numa das mesas conversando com seus colegas, tenta disfarçar o olhar para que o rapaz não percebesse que ela estava lá, desta vez, reparando melhor nele, ela passa a achá-lo “um alemãozinho” interessante. Fica distante observando-o, pensando em alguma coisa inteligente, que poderia falar, para explicar que o motivo dela ter tropeçado foi acidente mesmo, para ele não pensar que ela estava tentando se atirar nele forçadamente.

Quando estava assim elaborando um plano, sua amiga chega, quebrando o jogo de “olhares”:

—Olha só, Kimy, querendo entrar para a lista do Eduardo?

—Estou querendo comprovar se a Lei de Kisnet funciona.

—Lei do quê?

—Você estava na aula né?

—Que aula?

—Deixa para lá. Acho que ele gosta de morenas, hem Talita?

   (Ironizando a ruivez da amiga)

—Mas que guria pretensiosa (ri), ele é rico e pode ter quem ele quiser, acredita que eu estava com meu noivo no bar e eu te juro que o Eduardo mandou uma piscada para mim. Aiai, se meu noivo não fosse tão legal, eu tinha deixado ele na mesma hora.

—Sério, mas tu não prestas também, hem? (Ri)

Elas continuam disputando sobre esse assunto, quando Eduardo se levanta da cadeira e vem na direção delas, as duas percebem que ele estava realmente vindo falar com elas, tanto que Talita até passa a acreditar que ele podia ter ouvido o diálogo delas ao ponto de ficar chateado. Ela fala baixinho para Kimy:

—Falamos muito alto?

—Não sei...

Kimy faz um gesto rápido com o olhar para a amiga, dizendo não entender o que estava acontecendo, para o desespero de ambas, Eduardo chega perto delas e as cumprimenta com um sorriso cativante. Elas ficam um tanto atônitas com aquele gesto, então antes que elas falem qualquer coisa ele tira um cartão de crédito do bolso e entrega para Kimy dizendo:

—Acho que você esqueceu isto Kimy?

—Ah, que distração a minha, obrigada!

—“Sua segurança é minha satisfação” (ri)

—Ah, você leu o slogan então (ri da situação)

—Sim (faz um sorrisinho maroto)

Acena para as duas, com aquele mesmo sorriso conquistador e vai embora, Talita fica de boca aberta, olhando para os dois, Kimy fica quieta, olhando cinicamente para sua amiga.

—Ah, mas que danada, o que ele fazia com teu cartão?

—Eu tentei te contar, mas você não parava de falar. (Ri) 

—Ora, para com isso, me conta tudo agora!

—Hahaha. Outro dia, a aula já vai começar...

Voltam para o prédio, Kimy pensava como poderia ter sido tão distraída ao ponto de perder seu cartão e continuava a ignorar as perguntas de sua amiga, esquivando-se dela.

Aragon

Ao voltar para casa, fica pensando na situação inusitada que ocorrera na faculdade, então Kimy ri sozinha ao lembrar de seu último namorado, chamado Takeo, tudo foi arranjado num “MIAI” (acordo que as famílias orientais fazem para casar seus filhos com as filhas das famílias de seus amigos); ela até gostava dele, mas os planos morreram quando ele resolveu ir para o Japão trabalhar, dizendo que juntaria dinheiro para casar, Takeo não era de telefonar e depois de um tempo ele parou de se corresponder também, por esse motivo Kimy ria de seu status de relacionamento atual, pois mais parecia um drama Coreano. Então, põe o pijama, vai para a cama, pega o laptop e começa a conferir suas mensagens, e fica animada ao ver que o Aragon, tinha respondido sua pergunta:

      Oi Neka, Obrigado!

Meu blog surgiu graças a uma pesquisa que venho fazendo nestes últimos meses, boa parte da informação eu tirei de um livro chamado:

“Vida depois da Vida” do Raymond Moody.

Se quiser se corresponder comigo sobre o assunto, estarei por aqui...

Fica contente ao ver que tinha achado alguém interessado em debater esse assunto com ela, que era algo meio esquisito de conversar até mesmo com as melhores amigas, mas na hora não consegue responder, pois estava morrendo de sono e acaba dormindo.

Auras conectadas

Kimy se encontrava em um sonho incomum. Em sua mente, surgia um edifício branco, iluminado de maneira mistica. O interior era composto por longos corredores, e ela caminhava apressada, com o coração acelerado, como se fugisse de algo. A sensação de urgência era palpável. Procurava a saída, mas o lugar parecia se estender infinitamente.

De repente, o corredor se abria para um salão vasto, onde fileiras intermináveis de leitos abrigavam pessoas imóveis. Alguns, no entanto, começavam a acordar, sentando-se lentamente enquanto eram conduzidos por médicos em trajes brancos impecáveis. Havia algo deslumbrante neles, os corpos daquelas pessoas emanavam uma teia de fios luminosos, como se fossem filamentos de pura energia, que flutuavam delicadamente no ar ao redor delas. Esses fios vibravam em frequências sutis, invisíveis a olhos comuns, mas tangíveis para aqueles com uma percepção espiritual mais profunda. Cada filamento parecia pulsar em harmonia com os batimentos cardíacos de seus donos, conectando-se com o campo magnético ao seu redor, sugerindo uma interdependência entre corpo, mente e cosmos.

 

Entre aquelas figuras adormecidas, um casal em particular chamou sua atenção, havia algo familiar neles que a atraía de forma irresistível. Kimy se aproximou devagar, apreensiva, quanto mais perto chegava, mais a sensação de familiaridade crescia. Quando finalmente parou diante dos dois, ficou chocada: ela viu a si propria deitada em um dos leitos, em um estado de animação suspensa, e viu que seus fios luminosos se conectavam à pessoa no leito ao lado.

Foi então que ela percebeu o homem ao lado dela, não podia ver seu rosto claramente, mas uma onda de memórias a atingiu como uma avalanche. Viu cenas de uma vida inteira ao lado daquele homem desconhecido, momentos felizes e intensos, mas o rosto permanecia indistinto, nebuloso. O coração disparava em seu peito, com uma mistura de ansiedade e saudade. De repente, um dos médicos passou ao seu lado e, sem olhar para ela (como se fosse invisivel), então murmurou em um tom quase imperceptível:

— Estes aguardam o evento do Romance Celestial.

Antes que pudesse reagir, o sonho começou a desvanecer. Ela acordou bruscamente, com o corpo encharcado de suor, e uma frustração insuportável tomou conta dela, pois não conseguia se lembrar do rosto dele, do homem que parecia ser a peça central de toda aquela visão.

Ao amanhecer, ainda perturbada, Kimy liga o celular e lê última mensagem de Aragon, e sem pensar muito, responde rapidamente, pois precisava sair para trabalhar. Enquanto isso a  quilômetros de distância, em São Paulo, ele lia sua resposta.

Olá Aragon,

Obrigada por ter me respondido, talvez possas me ajudar a entender algo que me deixou muito pensativa. É que recentemente um cliente se acidentou na estrada e ele me comentou que no período entre a batida e o resgate, apesar de seu corpo estar em coma, ele disse ter permanecido lúcido o tempo todo, mas estava num lugar diferente, fora da nossa dimensão talvez. Sabes o porquê disso?

Aragon sente que havia achado alguém com interesse real de ir a fundo nesse assunto, então responde animadamente.

 Vaga de emprego

Perto do almoço, Aragon encontra seus colegas no corredor:

Marcelo:—Fala Marajá, paga a conta hoje?

Aragon:—Dia que ganhar um salário igual ao teu pode ser.

Os colegas começam a rir

Sandro:—Então, qual a parada hoje?

Beto:—Inaugurou um restaurante no shopping Morumbi, alguém está afim?

Aragon:—Beleza, vamos nessa.

Ao passarem pela recepção, eles veem algumas moças sentadas no banco de espera. Um dos colegas fala:

Sandro:—Cara, olha que belezura. 

Param na porta de vidro.

Beto:—Estão aguardando entrevista, para alguma vaga acho.

Marcelo:—Pirei na loirinha, por mim pode contratar. (Risos)

Aragon resolve ficar quieto, pois conhecia uma das garotas que estava lá, ele tinha trazido o currículo dela, para concorrer a essa vaga de secretária na empresa, se ele falasse qualquer coisa sobre isso, seria bombardeado de perguntas e ele não iria gostar dos comentários, por isso preferia continuar calado. Pegam o carro e saem em direção ao shopping.

Noticiário

Kimy estava na recepção do consultório de um cliente retirando uma apólice, quando vê na TV a notícia de um trágico acidente de trem na Espanha, com muitas baixas, fica pensativa, queria saber para onde estariam indo essas pessoas que perderam suas vidas e refletia como a vida humana era tão frágil. Nesse instante recebe uma mensagem de Aragon no celular, lê ansiosa:

“       Neka...

Não interprete isso como forçar a casualidade, mas, sinto-me nesses "lugares" às vezes, ainda estou tentando entender por quê... Talvez seja um dom que não esperava. Agora com respeito ao seu cliente: ele teve essa segunda chance de vida, acho que Deus quis dar-lhe uma breve amostra do que é o Mundo Espiritual.

Bom, fale-me um pouco sobre vc...

Porque este assunto te interessa tanto?   

Fica surpresa com aquela resposta, pois segundo ele, estaria passando involuntariamente por experiências de EQM, o que a deixa um tanto perplexa ao pensar como esse tipo de experiências poderia ser mais comum do que a maioria das pessoas acredita, pois não entendia como seria possível alguém ver esse “mundo espiritual” sem necessariamente ter passado por um grave acidente.

Volta ao escritório e passa o resto da tarde fazendo ligações para clientes, e ao fim do dia sai do trabalho sentindo-se esgotada.

Intrigas ...

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