POV: VANESSA O degrau do caminhão era alto demais para a minha saia justa, mas eu subi. Subi sem olhar para trás, ignorando a lama que agora selava o meu destino no asfalto de Huelva. A cabine cheirava a cigarro de enrolar e a uma vida que eu sempre desprezei: a vida do esforço bruto, do suor que não sai com perfume caro. O motorista, um homem chamado Paco, tinha a pele curtida pelo sol e mãos que pareciam garras de couro. Ele não me perguntou o meu nome. Ele não perguntou por que uma mulher com restos de seda no corpo estava chorando na beira da estrada. Ele apenas engatou a marcha e o caminhão deu um solavanco, me jogando contra o banco de napa rasgado. — Tem água ali atrás — ele disse, a voz grossa, sem tirar os olhos da estrada. — E um sanduíche. Se quiser comer, coma. Se quiser dormir, durma. Mas não me dê trabalho. Peguei a garrafa de plástico amassada. A água estava morna, com gosto de cloro, mas desceu como o melhor champanhe que já tomei no Chiado. Eu estava exausta.
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