O JULGAMENTO DO PASSADO SEBASTIAN O pai de Marina, um homem de semblante severo, ombros largos e mãos calejadas por décadas de um trabalho braçal exaustivo na oficina mecânica, aponta em silêncio para as cadeiras gastas da pequena sala com um gesto rígido, quase marcial. Ele me avalia de cima a baixo com um ceticismo cortante, um olhar inquisidor que mistura a desconfiança instintiva de quem foi calejado pelas rasteiras da vida com o orgulho ferido de um patriarca acuado. — Estou ouvindo o que você tem para me falar, minha filha. Pode falar — ele ordena, a voz rouca, densa e firme, ignorando ostensivamente a minha presença imponente naquele espaço diminuto, como se eu fosse apenas uma sombra indesejada a ocupar o canto da sala. Percebo instantaneamente o nível de pânico que consome Marina. A respiração dela está curta, ofegante, e os seus ombros franzinos tremem de forma discreta, mas perceptível, bem ao meu lado. Sem pensar duas vezes, movido por um impulso visceral de amparo, seg
Ler mais