Narrado por AntonellaO cheiro de gordura e o som do rádio velho da lanchonete "Ponto do Sabor" eram o meu novo mundo. Eu passava o dia limpando mesas, anotando pedidos de pedreiros e servindo cafezinho. Minhas mãos, que Lorenzo cobria de diamantes, agora estavam avermelhadas pelo detergente barato. E, estranhamente, eu nunca me senti tão limpa.— Mais um pão na chapa, Seu Zé? — perguntei, sorrindo para o cliente antigo da vila.Consegui o emprego no segundo dia. O dono, um senhor ranzinza, mas justo, me deu a chance. Minha mãe também não ficou parada. Beatriz conseguiu uma vaga como faxineira em uma escola municipal próxima. À noite, sentávamos na mesa de plástico do barraco, com um caderno de aspiral e uma caneta, fazendo contas.— Se eu der quinhentos para o aluguel e você der duzentos para a mistura, a gente consegue comprar as fraldas do Paulinho e ainda sobra para a luz, filha — minha mãe dizia, os olhos brilhando de orgulho.— A gente vai conseguir, mãe. Sem favores. Sem humilh
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