Era fim de tarde quando eles decidiram voltar ao mirante. Não aquele da moto, necessariamente, mas algum ponto alto da cidade de onde se via o horizonte, os prédios, o trânsito, o movimento incessante.Lucas reclamou da subida. Ana pediu colo no meio do caminho. Helena, Julian, a professora de inglês, as equipes da Fundação, alguns amigos, o pai de Clara (ou sua figura de referência) — todos estavam ali, espalhados, conversando, rindo.Clara e Ricardo se afastaram um pouco, caminhando até a grade de proteção. O vento batia no rosto, trazendo um cheiro de cidade que, anos atrás, a teria enjoado. Agora, era quase revigorante.— Lembra daqui? — ela perguntou.— Lembro de você dizendo que ia me matar se eu te matasse — ele respondeu.— Me mataria duas vezes — ela corrigiu.Ficaram alguns segundos em silêncio, olhando a cidade.— Se alguém tivesse me mostrado essa cena quando eu saí do consultório com o diagnóstico… — Clara começou —, eu teria rido na cara da pessoa. Diria que era roteiro
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