O vento cortante da manhã batia contra a viseira do meu capacete, trazendo aquele frescor que costumava ser o meu melhor despertar. Eu pilotava com uma cautela nova, uma consciência aguda de cada buraco no asfalto e de cada fechada brusca dos ônibus. Por fora, eu ainda era a arquiteta apressada em sua jaqueta de couro, cruzando a cidade para uma medição de terreno. Por dentro, eu era um cristal trincado, protegendo um segredo que pesava muito mais do que os poucos gramas que ele realmente tinha.Eu ainda não tinha ido atrás do carro. A burocracia do escritório e a simples negação de abrir mão da minha liberdade sobre duas rodas me faziam adiar a visita às concessionárias. "Só mais esta semana", eu repetia para o Banguela todas as manhãs.Foi na altura daquela avenida larga, cercada por prédios comerciais, que eu notei.Um sedã preto mantinha uma distância constante atrás de mim. No começo, achei que fosse apenas o fluxo normal do trânsito, mas após três conversões deliberadas para test
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