Sara Moratti O apartamento do Gabriel tinha um som diferente de tudo o que eu já conhecera. Não era o silêncio fúnebre da mansão dos meus pais, onde cada corredor parece ecoar séculos de expectativas e julgamentos. Minha família era feliz, mas a riqueza tirava um pouco da liberdade. Naquela casa, também não era o silêncio tenso da Holding, onde o barulho do ar-condicionado soa como uma contagem regressiva para a próxima crise. O silêncio aqui, no quarto andar de um prédio sem varanda gourmet mas com muita alma, tinha cheiro de amaciante de roupas, coentro sendo picado e uma liberdade boa de se sentir.Eu estava sentada no sofá de sarja dele, com os pés encolhidos e vestindo uma das suas camisetas de algodão que ficava enorme em mim. Meu celular, jogado sobre a mesa de centro, não parava de vibrar. As notificações brilhavam com nomes que eu queria deletar da minha memória, pelo menos pelas próximas vinte e quatro horas: Sérgio (14 chamadas perdidas), Alexandre (8 chamadas perdidas), P
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