“Quem tenta humilhar pelo espetáculo perde para quem luta pela razão.”Clara desceu até o térreo como quem desce uma escada interna que não deveria existir, uma escada que não constava na planta do hotel, nem na arquitetura emocional do dia, mas que surgia quando o corpo precisou sobreviver.A cada andar que o elevador marcava, a respiração parecia mudar de lugar, descendo do peito para o estômago, do estômago para as pernas, das pernas para o silêncio.O botão havia sido apertado por reflexo, não por decisão. Ela não lembrava do rosto da recepcionista, nem do hall iluminado demais, nem da música ambiente que tocava uma playlist insuportavelmente superficial para quem acabara de assistir um espetáculo de sordidez no andar de cima.A porta se abriu, e o ar da rua atingiu Clara com a frieza quase clínica do mundo real.A calçada estava molhada, não de chuva, mas daquele tipo de orvalho tardio que se acumula nas madrugadas de cidades grandes, quando a iluminação pública finge poesia e a
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