Capítulo 2

Dias depois tive uma surpresa muito desagradável, eu tinha saído para comprar umas coisas para casa quando por acaso vi o Daniel na rua, o felizardo namorado da Daniela, era assim que eu o considerava, um felizardo; eu já havia visto os dois juntos algumas vezes na igreja, claro que me senti super mal com isso e ganhei umas caras feias dele também, mas eu não sou nem um idiota, ela eu até encarava, mas um “armário” de um metro e noventa e cinco de altura igual ao Daniel eu não tinha coragem não, me chame de covarde quem quiser mas ainda tenho amor aos meus dentes e parece que para minha infelicidade ela percebeu isso, e passou a vir muito mais vezes acompanhada com ele, e ainda por cima ficava me olhando de vez em quando, é claro que era pra ter certeza de que eu não teria coragem de olhá-la perto do Daniel. Mas voltando à ocasião, dessa vez estávamos na rua, foi um encontro casual e ele não tinha me visto, eu estava perto o suficiente pra ouvir a conversa dele com um outro estranho, um cara de cabelo liso amarrado pra trás feito rabo de cavalo e cara de índio:

– E a gata?

– Ah rapaz, nem fala, aquela mina é demais.

– Dani, você sabe que ganhou na loteria, né? Experimenta dá uma bobeada que fica sem ela rapidinho.

– Acha que eu não tô ligado? Tá cheio de marmanjo de olho na minha mina, mas aquela tá na minha mão, comendo direitinho, fazendo tudo o que eu mando, doidinha pelo papai aqui.

– “Cê nun tá falando de tudo mesmo, né?”

– Claro que tô, e você acha que eu faço serviço pela metade?

– Cara, você... Dani eu não acredito.

– Pode crer cara, to falando que ela come na minha mão.

– Com todo respeito cara, 'cê sabe que é meu considerado, mas não dá pra deixar de imaginar uma deusa daquela sem roupa.

– Pois eu não preciso nem imaginar, é só m****r e tenho serviço completo. Cara, pensa numa gata que faz de tudo, tudo o que eu m****r, de qualquer posição, de qualquer maneira, em qualquer lugar.

– Aí, se pensar em alguma brincadeirinha assim tipo DP, é só me ligar em?

– Tá de gozação com a minha cara né? Sai fora mano.

Eu não conseguia acreditar no que ouvia, não teve jeito tive de me sentar minhas pernas amoleceram na hora, minha respiração ficou suspensa, esse desgraçado fazia mesmo isso tudo com ela? E ainda por cima ainda saía por aí contando vantagem? Isso era impossível, embora ela sempre me olhasse com raiva, ela tinha um olhar de pureza, uma aparência de donzela, eu me recusava a acreditar nessas besteiras, mas ela era tão grudada com ele que era bem provável que isso fosse verdade mesmo, além do que todo mundo sabia que o Daniel não era nenhum santo, fumava, bebia, jogava, tinha todo tipo de amizades, usava muita gíria e ainda soltava um palavrão em cada frase. E pra Danny estar tão colada com ele daquele jeito... Eu poderia sentir o chão sumir sob meus pés mas ali na minha frente, apenas a poucos metros estava o dono daquele corpo cujo olhar tanto me atormentava.

Mas a situação mudou, chegaram mais duas garotas, duas morenas, aparentemente eram irmãs, pois se pareciam demais, também eram igualmente lindas, não como a “minha Danny” mas também eram lindas, pele morena clara muito bronzeada, usavam calça comprida e camiseta, cabelos castanho escuros uma os usava soltos a outra amarrados, cada um deles ficou com uma, o Daniel ficou com a mais alta, usava cabelos amarrados, se beijaram “na boca”, abraçados por alguns segundos, conversavam baixinho, entraram todos no carro do Daniel, um conversível importado amarelo de uma marca alemã que nunca vi, dobraram a esquina e sumiram, não era preciso ser gênio para saber onde foram. E eu fiquei ali, remoendo aquela situação, quer dizer que o maldito além de contar vantagem de sua intimidade com a Danny, fazendo dela uma verdadeira prostituta, ainda a traía.

Eu precisava tirar essa história à limpo:

– Alô, Edu? É o Léo, tudo bom?

– Fala rapaz, claro, enfim parece que dessa vez você guardou o número do meu celular em?

– É parece que dessa vez eu acertei, mas é o seguinte, eu preciso tirar uma história a limpo com você.

– Pode m****r, qual é o problema?

– Você não vai acreditar no que eu vou te contar, sabe quem eu acabei de ver aqui pertinho de mim?

– Pra você falar assim com essa voz de garotinho sonhador, só pode ter sido a Daniela.

– Quase, o Daniel, ele estava conversando com um amigo dele, não me viram não, mas deu pra ouvir tudo o que falavam, você acredita que o desgraçado vai pra cama com ela?

– Sim, e daí? Você me ligou só pra contar isso?

– Como assim e daí?

– Leonardo, deixa de ser criança meu, todo mundo sabe disso.

– Como assim todo mundo?

– Ora como assim, todo mundo, acha que o Daniel tá com ela por causa de quê? Só porque ela é bonita? E acha que ela ia ficar com ele só por que ele é rico? Pode até ser que sim, mas não é só dinheiro que tem nessa jogada não meu chapa, o Daniel só tá na igreja ainda por causa dela, ELA segura ele lá, você sabe o que ele apronta.

– Quer dizer que ela se rebaixa ao ponto de ir pra cama com ele só pra segurar ele na igreja?

– Não foi bem isso que eu disse mas é mais ou menos por aí, mas tem outra coisa também, a Daniela, embora não aparente ou não deixe isso transparecer, pelo menos pra VOCÊ, é uma moça muito cristã...

– Cristã!?!? Ora Edu deixa de conversa se tudo o que eu ouvi for verdade ela não tem nada de cristã...

– Eu já sei o que você ouviu, que ela faz de tudo pra ele e tal, só que todo mundo nessa vida tem um esqueleto no armário, todos nós temos defeitos, mas eu já estudei com a irmã dela na classe jovem e conversamos muito também, na época em que a Marcelly ainda não se importava de ter amigos mais humildes, e te digo com absoluta convicção, ela só tem esse tipo de atitude por influência dele.

– Edu, ela não pode fazer tudo aquilo com ele, não pode, por favor. – Eu já estava desesperado com essa descoberta.

– É cara, eu sei o quanto isso deve ser duro de aceitar, principalmente pra você, mas é verdade.

– E tem mais também – aí contei das garotas.

– Eu sei, isso também não é novidade, ele trai ela direto mesmo e essas duas também não é a primeira vez que saem com ele. Não sei o nome delas mas já soube de outras historinhas envolvendo elas duas.

– Caramba, será que eu sou o único que não sei de nada naquela igreja?

– Parece que sim, mas se eu fosse você além de ficar calado não me arriscava a dizer nada pra ela, outros mas bem vistos por ela já tentaram e ela não acreditou em nada. E se você tentar, é bem provável que ela te mande falar com o Daniel.

– Eu sei, falar com ela seria besteira mesmo, de qualquer forma valeu.

– Leonardo.

– Fala.

– Eu não sou nenhum bobo, sei que você nunca falou com todas as letras mas nem precisa, eu e todo mundo lá na igreja já percebemos o quanto você é caidinho por aquela garota, mas como seu amigo cara, esqueça, não vale a pena, ela é uma moça muito cara, se é que a gente pode chamar de moça, esqueça dela Léo.

– E você acha que é tão simples assim?

– Eu sei que não é mas você tem que tentar, ela não é garota pra você.

– Edu eu não consigo ficar um só dia sem pensar nela.

– Eu sei, só que você não é o primeiro, você está sofrendo a toa, a troco de nada, esperar algo da Daniela é como dar murro em ponta de faca, é como a Ária falou aquele dia, ela não passa de uma cobra. Mas olha, eu vou ter que desligar, faz isso cara, pensa no teu violino, pensa no teu trabalho, naquele monte de linhas de código que só você e seus amigos nerds entendem e garanto que você vai sofrer bem menos. Não vale a pena desejar uma estrela quando você é um grão de areia ainda mais quando esse grão de areia está no fundo do mar.

– Tudo bem, valeu pelos conselhos.

– Ok fui, qualquer coisa já sabe, tamos aí.

Então era assim que todos eles me consideravam, um mísero grão de areia, apenas um nerd cheio de desejos impossíveis e sonhador. Voltei pra casa arrasado com minha descoberta, então era verdade, a minha Danny, a minha Dannyzinha fazia de tudo com o namorado, aceitava fazer papel de prostituta numa cama apenas pra impedir que o namorado se afastasse da igreja, sem saber que ela estava era justamente contribuindo para que ele se afastasse ainda mais depressa.

Descobrir aquilo foi um tremendo choque pra mim, levei semanas pra digerir aquilo, eu não conseguia acreditar que a minha Danny se prestava a um papel desses. Eu queria tratá-la como uma princesa e ela se rebaixava a um nível pior que o dos animais, aceitava se passar por orgias iguais a de uma garota de programa, a Danny, a “minha” Danny.

No sábado logo depois de ter descoberto essas coisas o chão se abriu sob meus pés quando cruzei com ela no corredor do estacionamento, o mesmo corredor onde eu a tinha visto pela primeira vez, onde de um lado era a saída dos carros e dos outro terminava na recepção da igreja, mais ou menos um metro e meio de largura espremidos entre a parede do templo e o muro da divisa. Não pude deixar de olhá-la como sempre mas dessa vez com um sentimento bem diferente me corroendo por dentro, e se antes eu tremia ante seu olhar de reprovação, agora eu era indiferente e sentia muita pena dela.

Num sábado, após terminado todos os serviços de culto, eu tinha guardado meu instrumento, peguei minhas coisas e cruzei com ela na escadaria da recepção, parei pra olhá-la a um metro de distância dela, tomei um choque quando ela percebeu e parou também uns três degraus acima, me olhou com tanta raiva que eu achei que ela fosse me empurrar escada abaixo, até me agarrei ao corrimão para no caso dela realmente tentar isso, imediatamente me lembrei daquilo tudo de novo e um aperto muito forte me surgiu no peito mas ela já estava ali na minha frente, no mesmo degrau que eu, de cabeça meio baixa me olhando por cima dos olhos, os lindos cabelos claros jogados sobre a testa, um fio de suor a escorrer pelo lado esquerdo de seu rosto claro, de saia azul escura pelo joelho, sandálias pretas, blusa branca de botões, e uma bolsa pequena no ombro esquerdo, que ela segurava com tanta força que as veias de seu braço pareciam  quase estourar, estava ali, a menos de meio metro de mim, dava até pra sentir a força dessa repulsa. Ela encheu o peito de ar e antes que dissesse qualquer coisa eu me adiantei:

– Que foi que eu te fiz pra que você me odeie desse jeito, Daniela – tentando parecer o mais tranquilo que eu podia, falei com a voz baixa, olhando-a da mesmo maneira, de cabeça meio baixa e por cima dos olhos – será que eu poderia ao menos saber o motivo?

– Não fala meu nome e PARA DE OLHAR PRA MIM! VOCÊ É SURDO? PARA DE OLHAR PRA MIM!.

Foi só isso, ela subiu o resto da escada bufando, não tive como esconder isso de ninguém, tinha ainda umas quatro ou cinco pessoas ali que inevitavelmente assistiram tudo, eu fiquei sem ação, nunca que eu poderia imaginar uma reação dessas, ainda estava com a respiração suspensa quando a Ária colocou a mão no meu ombro, ela parecia ler meus pensamentos, parecia saber exatamente do caos que estava em minha mente naquele momento foi quando ouvi sua voz tímida, perguntando com suavidade bem do meu lado que meus pensamentos pareceram voltar à realidade.

– Que foi Léo?

– Por que ela me odeia desse jeito Ária, o que foi que eu fiz pra ela – a essa altura eu estava sentado na escadaria,  com  o  case do violino no chão, ainda tentando entender o “balde de água fria” que acabava de tomar na cabeça, felizmente as demais  pessoas  tiveram  o  bom  senso  de não se  aproximarem, principalmente depois de verem que a Ária já estava por ali, mas pelo sim, pelo não ela  tratou  logo  de  me  tirar   dali,  pegou  ela  mesma  minhas  coisas  me segurando pelo braço e me levou numa das salas próximas, onde eu tentava digerir toda aquela vergonha.

A Ária era a única amiga de verdade que eu tinha se posso dizer assim, tinha o Arthur, mas ele não fazia parte do meu círculo de amizades cristãs, então eu tomava muito cuidado com o que eu conversava com ele, e nunca, absolutamente nunca contava a ele qualquer problema que eu tinha com meus “amigos” na igreja.

Mais ou menos uma meia hora depois eu me sentia mais calmo e pude então pela primeira vez na vida assumir pra alguém com todas as letras o que eu realmente sentia pela Daniela, mas não teria feito isso se a Ária não tivesse tocado no assunto:

– Você deve gostar muito dela.

– Mais do que tudo.

– Você a ama?

– Mais do que qualquer coisa na vida Ária – eu que até então estivera sentado com a coluna reta, olhando pro nada, agora respondia isso olhando nos olhos dela, e seu sorriso me confortou.

– Então lute por ela.

– Como?

– Ore por ela.

– Eu já faço isso desde que... desde que... – fiz uma pausa – desde que a conheci.

– Você ia dizer outra coisa.

– É que, eu soube algumas coisas dela no mês passado e ...

– Eu sei, todo mundo sabe disso, é por isso que eu digo, se você gosta dela mesmo então lute, ela pode não saber ou até não aceitar, mas ela precisa de você.

Era a primeira vez que eu ouvia algo tão bom.

– Leonardo, ela precisa de você e não sabe, você é uma pessoa muito humilde e são dessas pessoas que a gente precisa quando se pensa que está no topo, e na verdade não tem nada. Toda essa beleza dela pode ser apenas uma casca, uma casca que enfeitiça qualquer homem ou mulher, mas que também é um dom que ela não está sabendo aproveitar, nossa beleza também é um dom, não existem seres humanos feios, pois todos somos feitos à imagem de Deus, e “lindo és meu mestre...” lembra?

Eu apenas concordava acenando com a cabeça, estava abalado demais para responder qualquer coisa.

– Eu digo que ela precisa de você por que com você ela mudaria de vida completamente, ela seria o que Deus realmente quer que ela seja, falo isso por que conheço bem você, essas coisas todas que ela faz, você a ama de verdade pra perdoá-la e tê-la com você a despeito disso tudo?

– Mas Ária, tem tanta gente melhor do que eu que gosta dela.

– Você não respondeu o que eu perguntei, eu não quero saber dos outros, VOCÊ é meu amigo, então me responda sinceramente – dessa vez ela tomou minha mão direita e olhou dentro dos meus olhos, e eu me lembrei que era assim mesmo que uma mulher muito mais velha, de cabelos ondulados e igualmente claros falava comigo, uma mulher que não me lembro de lugar algum por onde eu tenha passado nessa vida, uma mulher de quem sempre me lembro quando me vem à mente a mesma imagem daquele homem alto e magro, usando óculos e frequentemente escondido atrás de um piano; e era assim que minha amiga falava comigo, olhando dentro de meus olhos –Você a ama o suficiente para esquecer todos os erros que ela cometeu no passado?

– Amo Ária, amo mais do que minha própria vida, amo mais do que tudo, amo mais do que o ar que respiro.

– Então ore por ela.

– Eu já faço isso todas as noites e todos os dias.

– Então espere pela resposta de Deus, se Ele achar que você pode ficar com ela, quando chegar a hora certa, isso vai acontecer.

– Mas Ária eu...

– Calma Léo, apenas ore, e espere pela resposta de Deus, e o mais importante, se você decidiu entregar sua vida nas mãos dele, então deve respeitar o plano que ele tem pra você, mesmo que isso lhe doa, conforme-se com a vontade de Deus, pois certamente é o melhor pra você amigo.

Daí ela se levantou, ainda segurando minha mão, me abraçou, me deu um beijo no rosto e disse:

– E saiba que você tem uma amiga que realmente ora por você e torce por sua felicidade, viu? – seu sorriso me tranquilizava.

– Eu sei, e você também pode contar comigo sempre que precisar. – Pegou suas coisas e saiu me deixando ali para refletir um pouco.

Eu sabia que ela estava certa em tudo o que disse, mas preferi terminar minha reflexão em casa mesmo, por isso desci as escadas, peguei minha moto, e voltei para solidão do meu apartamento.

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