apaixonado pela prima do interior
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Por: Loba azul
capítulo 1

Capítulo 1: O Dono do Jogo

O som abafado dos graves da boate ainda ressoava nos meus ouvidos enquanto eu girava o copo de uísque com duas pedras de gelo, observando o movimento do camarote VIP. A luz estroboscópica cortava a penumbra, refletindo no mostrador do meu relógio. Três da manhã de uma terça-feira.

Para a maioria das pessoas naquela cidade, isso significava ressaca no trabalho dali a poucas horas. Para mim, significava apenas mais uma noite comum.

— Cara, você é um cretino completo — Tom falou, rindo alto ao se aproximar com duas garrafas de champanhe. — A garota do bar ficou te olhando a noite inteira e você nem deu trela.

— Ela tentou puxar assunto usando a cotação das ações da Albuquerque Telecom — respondi, levando o copo aos lábios e soltando um riso soprado, desprovido de qualquer calor. — Se eu quisesse falar de trabalho a esta hora, estaria na empresa com a minha mãe. Próxima.

Paulo encostou no balaustre do camarote, soltando a fumaça do cigarro eletrônico e balançando a cabeça.

— Você devia dar um desconto, Vinícius. A garota só queria uma brecha. O lema do "pega e não se apega" tá ficando rigoroso demais até pra você.

— Não é rigor, é seleção natural — retruquei, ajeitando a gola da jaqueta de couro com extrema calma. — O segredo para não ter dor de cabeça é deixar claro o valor de cada um desde o segundo segundo de conversa. Entrou na minha vida achando que vai ter direito a café da manhã no dia seguinte? Já errou.

Eu não precisava me esforçar. Nunca precisei. O sobrenome Albuquerque abria portas, o dinheiro da minha mãe garantia o camarote, e o rosto no espelho cuidava do resto. As pessoas viam o que queriam ver: o herdeiro rico, atraente e inalcançável. E eu não fazia o menor esforço para desmentir.

Meu celular vibrou sobre a mesa de centro. O nome "Dona Ana" iluminou a tela.

— Falando na patroa... — Paulo zombou.

Atendi no terceiro toque, sem pressa, afastando-me um pouco do barulho da pista.

— Se for para avisar que a reunião das nove foi antecipada para as oito, aviso logo que meu humor não estará dos melhores, dona Ana.

— Menos ironia, Vinícius — a voz firme e impecável da minha mãe veio do outro lado da linha, cortando meu tom debochado como uma tesoura. — Estou ligando para lembrar que o motorista vai buscar a Mel na rodoviária amanhã cedo. Quero você em casa para o almoço de boas-vindas.

Rolei os olhos, soltando um suspiro exasperado.

— Ah, claro. A caipira. Já tinha até esquecido dessa caridade.

— Ela é sua família, Vinícius. Filha da minha irmã. Humilde, educada e veio para estudar. Trate de guardar esse seu sarcasmo barato na gaveta pelo menos durante o almoço.

— Ela vai morar na mesma casa que eu, mãe. O sarcasmo faz parte do pacote de sobrevivência — respondi com um sorriso torto, encarando meu próprio reflexo no vidro escuro do camarote. — Fique tranquila. Vou tratar a caipirinha com toda a cordialidade que ela merece.

Desliguei antes que ela pudesse me dar mais um esporro. Guardei o celular no bolso e tomei o último gole do uísque, sentindo o queimado descer pela garganta.

Uma garota simples, do interior, cheia de sonhos e ingenuidade, pisando na minha casa. Que pesadelo.

— Má notícia? — Tom perguntou, me entregando outro copo.

— Pior — dei um sorriso frio, ajustando a postura. — Minha mãe arrumou uma hóspede. Uma garota da roça que acha que a capital é um conto de fadas.

— E o que você vai fazer?

— O de sempre — pisquei, sem o menor traço de empatia na voz. — Deixar bem claro qual é o lugar dela logo no primeiro dia.

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