DECISÃO

- Não, Leila. Mas vocês já superaram tantas coisas juntos, só pedi que tivesse calma, não estou contra você.

- Eu não saio da minha casa. Ela é minha. Eu construí do meu jeito, trabalhei bastante.

- Não superamos nada, seu filho nem apoio foi para mim.

- Leon, você realmente tem esse pensamento?

- Ah Leila, tô cansado. Cansado ao extremo. Quer ir embora, vai com Deus, só não me perturba e se sair por aquela porta fica sabendo, eu não quero mais nada.

- Tudo bem então. Não se preocupe, fica com a sua casa e descanse. Descanse que você merece e pode ter certeza, não irei te perturbar mais.

- Leila...

- Dona Mercedes, Sr Alberto. Não sejam egoístas comigo também. E me desculpe, acabou tá bom?

- Filho... Leila...

Leila subiu e começou a pegar as suas coisas. Não dava para pegar tudo de uma vez, mas juntou todas as suas coisas pessoais em algumas malas e bolsas. O sogro entrou no quarto, ficou muito triste quando viu Leila tirando suas coisas e chorando.

- Filha, eu sinto muito. Muito mesmo. Não foi isso que esperei de Leon e você. Meu filho está errado mesmo e você, eu sei que suportou até demais, não tiro a sua razão e mágoa.

- Ele deve ter outra melhor do que eu com certeza.

- Não acredito nisso, acho que vocês caíram na rotina, não dialogaram, não dividiram as dores da perda e isso os distanciou.

- Que nada, ele sempre foi assim. Tudo dele era prioridade, tudo dele tem mais valor, ele, ele e ele. Sempre foi assim, eu quem relevei e deixei acostumar.

Ela conclui tudo e liga para um conhecido que tinha um carro aberto, pede ajuda e ele vem imediatamente. Vai carregando suas bolsas. Leon fica assistindo a tudo e calado porque os pais estavam ali. Quando ela conclui, abraça o sogro e a sogra que chorava muito e entra no carro dela, Leon ainda pergunta:

- Tem certeza disso?

- Se já tava decidida, depois que você me expulsou, vou fazer o que mais aqui?

- É sua, essa decisão.

- Nunca mais você vai pisar em mim, me humilhar ou sequer dominar.

O som da porta batendo atrás de si ainda ecoava nos ouvidos de Leila enquanto ela jogava a última mala no banco de trás do carro. Leon, em um acesso de fúria e covardia, praticamente a expulsara, gritando que "se ela não estava satisfeita, que buscasse a vida dela".

E ela buscou. O celular não parava de vibrar. Helô e Henrique, que já sabiam do ocorrido no churrasco, ligaram consecutivamente.

- Leila, por favor, venha para cá! A nossa casa é sua casa. — insistiu Helô, com a voz embargada.

- Eu agradeço, de verdade... mas eu preciso de silêncio.

Leila respondeu com uma calma que assustava a si mesma.

- Preciso ouvir meus próprios pensamentos sem o eco de outra pessoa.

Ela dirigiu até uma pequena pousada na saída da cidade, um lugar onde ninguém a procuraria. No caminho, viu o nome da mãe brilhar na tela, mas não atendeu. Como explicar por telefone que quinze anos haviam virado cinzas? Ela não queria carregar o peso da preocupação de Dona Maria naquela noite.

Havia ligado para Helô e Henrique, pedindo a eles se poderia deixar as coisas dela num galpão que tinha na escola só até ela encontrar um lugar para morar. Não sabia o que ia fazer, saiu sem nada, mas não podia mais aguentar desaforo, desprezo, humilhação.

Levou tudo até a escola, guardou por lá e depois foi para uma pousada.

O quarto da pousada era simples, com cheiro de lavanda e lençóis bem esticados. Leila sentia um vazio imenso, mas, estranhamente, não era um vazio ruim, era espaçoso. Ela caminhou até uma lanchonete próxima, onde pediu um sanduíche natural e um suco, comendo mecanicamente enquanto observava as pessoas passarem. Ninguém ali sabia quem ela era, e isso, pela primeira vez, trouxe um alívio indescritível.

De volta ao quarto, o banho foi longo. A água quente parecia levar embora as palavras cruéis de Leon e o cheiro daquele churrasco que mudara tudo. Ao se deitar, o cansaço acumulado de anos de ensino, coordenação e tentativas de salvar o que não se salva mais, a atingiu como uma onda. Leila adormeceu antes mesmo de desligar o abajur.

O sol entrava pelas frestas da cortina quando Leila acordou. Por um segundo, desorientada, ela procurou o lado de Leon na cama, mas encontrou apenas o vazio. Então, a memória da noite anterior voltou com força total.

Ela pegou o celular. A tela estava inundada de notificações. Vinte ligações perdidas de Helô. Dez do Sr. Alberto e de Dona Mercedes. Inúmeras mensagens de primos e amigos. E, no topo da lista, o nome que ela esperava nunca mais ter que ver com a mesma urgência: Leon.

Havia sete ligações dele e uma série de mensagens que alternavam entre o pedido de desculpas e a cobrança autoritária: "Onde você está? Meus pais estão loucos atrás de você. Volta para casa para conversarmos como adultos".

Leila bloqueou a tela. Ela percebeu que todos estavam preocupados com a "Leila esposa", com a "Leila nora", com a "Leila coordenadora". Mas ali, naquele quarto de pousada, só existia a Leila mulher. E essa, finalmente, tinha encontrado a paz que o barulho de Leon jamais permitiria.

E mais mensagens aparecem...

📩 Sinto muito por tudo, precisamos conversar e decidir nossa vida. Não queria que acabasse assim.

Ela não respondeu.

- Idiota, queria que terminasse como? Idiota fui eu, que não enxerguei quem ele era. Vou recomeçar do zero minha vida, mas não quero um centavo dele. Nenhum centavo.

Leila deixou o celular sobre a mesa de cabeceira, a tela ainda piscando com notificações insistentes. Por um momento, o hábito de "apagar incêndios" e acalmar os outros tentou dominá-la. Ela imaginou o sogro preocupado e a sogra aflita, mas logo lembrou que, por anos, todos viram sua dor e ninguém conseguiu impedir a crueldade de Leon.

- Agora não. — sussurrou para o quarto vazio.

Ela decidiu que não retornaria nenhuma ligação. Cada vez que ela explicava sua dor, parecia que a ferida se abria novamente. Manter o silêncio não era um castigo para os outros, mas um curativo para si mesma. Ela precisava que sua decisão de não voltar não fosse um impulso de raiva, mas uma estrutura sólida, feita de paz e consciência.

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