Mundo de ficçãoIniciar sessão
Hoje. É o grande dia.
Meu grande dia. O dia em que me casarei com o homem da minha vida. O ar parece mais leve, como se o mundo inteiro tivesse decidido respirar comigo. Passo lentamente as mãos sobre minha barriga ainda lisa, quase com medo de fazê-lo, como se aquele pequeno segredo pudesse desaparecer ao menor toque. Um sorriso tímido nasce em meus lábios. — Nós vamos ficar bem… — sussurro para mim mesma, ou talvez para o pequeno ser que cresce dentro de mim. Levanto o olhar e me encontro no espelho. Por um instante, não me reconheço. A mulher diante de mim parece saída de um sonho: o vestido branco abraça meu corpo com delicadeza, o brilho suave do tecido dança com a luz que entra pela janela, e o véu repousa leve sobre meus ombros como uma promessa. — Filha, você está pronta? — a voz da minha avó me envolve como um abraço. Ela se aproxima devagar, suas mãos experientes ajeitando cada detalhe com um cuidado quase sagrado. — Seu pai está esperando por você. Engulo em seco. — Sim, Nana… já estou indo. As maquiadoras dão os últimos retoques. Sinto o pincel suave sobre minha pele, o cheiro doce dos produtos, o leve tremor em minhas mãos. Colocam a tiara, prendem o véu… e então ele cai sobre meu rosto como um sussurro. Respiro fundo. Uma última olhada. Uma última chance de voltar atrás. Mas eu não quero voltar. Eu amo Donatello. Ou… pelo menos, acredito nisso com tudo o que sou. Saio do quarto. Cada passo pelas escadas ecoa como um tambor em meu peito. E então eu o vejo. Meu pai. De pé, à minha espera. Elegante. Orgulhoso. Emocionado. Seus olhos brilham quando me vê. Ele estende a mão. — Você está linda, filha. Sua voz falha levemente. Ele beija minha mão… depois minha bochecha. — Obrigada, papai… — respondo, tentando não chorar. — Você se parece muito com sua mãe. Isso me quebra por dentro de uma forma doce e dolorosa ao mesmo tempo. Ele então tira uma pequena caixa de veludo preto do bolso. Ao abri-la, um brilho dourado ilumina o interior. Um bracelete de ouro branco com pedras de topázio imperial. — Eu dei isso à sua mãe no nosso casamento… — diz ele, com a voz carregada de memórias. — Está na hora de você usá-lo. Ele coloca a joia sobre minha luva. Sinto como se estivesse herdando mais do que um objeto… como se estivesse herdando uma história. Uma promessa. Um amor. Saímos. A limusine já nos espera. Durante o trajeto, tento controlar o aperto no peito. Mas ele cresce. Silencioso. Insistente. — Filha, não fique nervosa — diz meu pai, segurando minha mão. — Vai dar tudo certo. Forço um sorriso. — É só nervosismo de noiva… Mas não é. Eu sei que não é. Chegamos à catedral. Majestosa. Imponente. E estranhamente… fria. Minha avó se aproxima. Seu rosto já não tem a mesma serenidade. — Donatello ainda não chegou… Meu coração falha uma batida. — Como assim…? Olho para meu pai. Ele tenta manter a calma. — Vamos dar um tempo… Mas o tempo não acalma nada. Ele só piora tudo. Voltamos a entrar na limusine. O silêncio agora é pesado. Sufocante. Minhas mãos começam a suar. Minha mente corre por mil possibilidades. Acidente? Problema? Dúvida? Não. Não. Ele não faria isso comigo. Ele não faria isso com o filho dele. Voltamos. E desta vez… tudo desmorona. Minha avó se aproxima novamente. Mas agora… há algo diferente. Algo errado. Ela entrega um bilhete ao meu pai. Vejo o momento exato em que a expressão dele muda. Algo dentro de mim já sabe. — O que é isso? — pergunto, com a voz fraca. Ele não responde. Então eu tomo o papel. E leio. Cada palavra é uma lâmina. “Perdoe-me… não posso carregar o filho de outra pessoa… o filho que você carrega não é meu…” O mundo para. — Não… Minha voz não sai. — Não… As lágrimas começam a cair antes mesmo de eu perceber. — Como assim… meu filho não é dele? Levanto o olhar. Desesperada. — Isso é uma mentira! — digo, quase gritando. — É uma maldita mentira! Saio da limusine sem pensar. Entro na igreja. Os olhares. Os sussurros. O julgamento. Caminho até o altar. Cada passo é mais pesado que o anterior. E então… Nada. Ele não está lá. O altar está vazio. Como meu peito. Me viro. E corro. Dirijo sem saber para onde. As lágrimas me cegam. O volante treme em minhas mãos. Tudo dói. Tudo. Chego à casa. Nossa casa. Ou o que deveria ser. Entro. E vejo Kiara. Ali. Esperando. — Onde está Donatello?! — minha voz sai quebrada. Ela não responde. Apenas olha para a escada. E então ele aparece. Descendo. Com uma mala. Como se estivesse indo embora. Como se tudo isso não fosse nada. Corro até ele. — Don! O que está acontecendo?! Agarro sua camisa. — Por que você fez isso comigo?! Ele não consegue me encarar. — Pieri… eu… — NOSSO FILHO! — grito. — Como você pode negar?! — Porque não é meu! — ele explode. Silêncio. Um silêncio mortal. — Você… não passou aquela noite comigo… Meu coração para. — Você estava comigo… — digo, perdida. — Não… não era eu… O chão desaparece. — Então quem?! Ele hesita. E então diz. — Alessandro… Sinto náusea. — Alguém drogou vocês… você passou a noite com ele… Minha mente quebra. — Você está dizendo… que eu fui…? Não consigo terminar. O horror é grande demais. — Onde você estava?! — grito. Ele fecha os olhos. — Eu estava bêbado… E então… Kiara fala. — Ele estava comigo. Meu mundo se desfaz. — E eu estou esperando um filho dele. Não. Não. Isso não pode ser real. Levo as mãos aos ouvidos. — NÃO! Saio correndo. Dirijo. Sem rumo. Sem direção. Sem vida. Quando percebo… Estou diante do mar. O vento corta minha pele. Meu vestido está sujo. Pesado. Como eu. Caminho até o penhasco. — Por quê…? Minha voz se perde no vento. — Por que eu?! Caio de joelhos. Meu corpo treme. Meu coração dói como se estivesse sendo arrancado. Olho para o céu. Escuro. Sem resposta. — Deus… por quê? Nada. Apenas silêncio. Minha mente se apaga. Meu corpo fica leve. Como se eu não estivesse mais aqui. Como se eu já tivesse ido embora. E então… A escuridão me envolve. E eu deixo de existir… mesmo ainda estando viva. …Mas algo dentro de mim se recusa a desaparecer por completo. É pequeno. Frágil. Quase imperceptível. Mas está lá. Um sopro. Um fio de vida. Um motivo. Sinto primeiro como um peso no peito… depois como uma pontada suave no ventre. Meu ventre. O ar volta aos poucos, entrando queimando em meus pulmões, como se eu tivesse me afogado em mim mesma. Abro os olhos. A noite ainda está ali, escura, indiferente. O som do mar continua, incessante, quebrando contra as pedras lá embaixo, como se nada no mundo tivesse mudado. Mas tudo mudou. Tudo. Levo a mão à barriga novamente, desta vez com mais firmeza. — Eu… não estou sozinha… — minha voz sai rouca, quase irreconhecível. E é nesse instante que a dor muda. Ela não desaparece. Não. Mas se transforma. Já não é só desespero. É medo. Um medo profundo, visceral… de perder o único pedaço de verdade que ainda me resta. Meu filho. Meu filho… As palavras ecoam na minha mente, mas vêm carregadas de dúvida, de horror, de confusão. Alessandro. O nome soa estranho. Distante. Como algo que pertence a outra vida… a outra mulher. Não a mim. Eu não lembro. Eu não lembro de nada. Apenas fragmentos… risos… luzes… um copo em minha mão… música alta… E depois… vazio. Um vazio que agora foi preenchido com uma verdade que eu nunca pedi para saber. — Não… — sussurro, balançando a cabeça. — Isso não pode ser tudo… Meu corpo treme enquanto tento me levantar. Minhas pernas falham por um segundo, como se não quisessem me obedecer, como se também tivessem desistido de mim. Mas eu não posso cair. Não agora. Não por ele. — Eu preciso… — respiro fundo, engolindo o choro. — Eu preciso entender… O vento sopra mais forte, levantando o véu sujo que ainda cobre parte do meu rosto. Arranco-o com um gesto brusco e o deixo cair no chão. Ele não significa mais nada. Nada. O vestido branco, antes símbolo de um sonho… agora pesa como uma mentira. Mas mesmo assim… eu continuo. Dou um passo para trás. Depois outro. E mais um. A beira do penhasco fica para trás, mas a sensação de estar à beira do abismo… essa não vai embora. Nunca vai. Entro novamente no carro. Minhas mãos ainda tremem, mas desta vez eu seguro o volante com mais força. — Você precisa viver… — murmuro, olhando rapidamente para minha barriga. — Por você… eu preciso… Ligo o carro. O motor ronca, quebrando o silêncio pesado da noite. E então eu dirijo. Não sei para onde. Mas sei que não posso voltar para lá. Para aquela casa. Para aquele lugar onde tudo foi destruído. Para ele. As lágrimas continuam caindo, silenciosas agora, como uma chuva fina que não tem pressa de parar. Minha mente começa a trabalhar, mesmo que lentamente. Alessandro. Quem é ele? Por que…? Por que alguém faria isso comigo? E então outra pergunta, ainda mais cruel, surge: Quem fez isso comigo? Porque não foi um acidente. Não pode ter sido. Alguém colocou aquela bebida na minha mão. Alguém me levou até aquele quarto. Alguém sabia. Alguém quis. — Kiara… — o nome escapa dos meus lábios como veneno. Lembro do olhar dela. Frio. Calculado. E então as palavras. “Eu estou esperando um filho dele.” Sinto um nó no estômago. — Não… — aperto o volante com mais força. — Isso não pode ser coincidência… Tudo parece se encaixar de forma horrível. Perfeita demais. Como uma armadilha. Minha respiração acelera. — Ela sabia… — sussurro. — Ela sempre soube… Uma nova onda de dor me atravessa, mas desta vez vem acompanhada de algo diferente. Raiva. Uma raiva silenciosa, crescente, que começa a aquecer meu peito congelado. — Eles fizeram isso comigo… A ideia se instala. E quanto mais penso… mais real ela se torna. Donatello. Ele não lutou. Ele não tentou entender. Ele simplesmente… acreditou. Escolheu acreditar. Escolheu me abandonar. No dia do nosso casamento. Com o filho que ele jurava amar. Um riso fraco, quase histérico, escapa de mim. — Que irônico… O homem que prometeu me proteger… foi o primeiro a me destruir. As luzes da cidade aparecem ao longe, borradas pelas lágrimas que ainda não cessaram. Dirijo sem destino, mas meu coração começa a apontar um caminho. Não físico. Mas emocional. Eu não posso fugir disso. Não posso desaparecer. Não posso simplesmente deixar que a história seja essa. A mulher abandonada. A mulher enganada. A mulher destruída. Não. — Eu não sou isso… — digo em voz alta, como se precisasse ouvir de mim mesma. Minha voz treme… mas não quebra. — Eu não vou ser isso. O silêncio dentro do carro agora é diferente. Ainda pesado. Mas não vazio. Há algo crescendo ali. Algo que eu ainda não consigo nomear completamente. Mas que pulsa. Como vida. Como força. Como resistência. Paro o carro em um ponto qualquer da estrada. Preciso respirar. Preciso pensar. Desço lentamente. O ar frio da madrugada toca minha pele, mas já não me paralisa. Olho para o horizonte. O céu começa a mudar. Muito sutilmente. Uma linha fina de luz aparece ao longe. O amanhecer. Fecho os olhos por um instante. E então deixo uma última lágrima cair.






