Mundo de ficçãoIniciar sessãoMilena — Cadê meu caviar e meu vinho?Levanto-me do sofá, indo lavar as mãos. As compras chegaram e a minha tia está me enchendo o saco porque eu comprei tudo do mais barato.— Tia, eu paguei a conta da energia, o gás, a internet, a sua dívida com a dona daquele bar que você enche a cara quase todos os dias. Eu não sou rica para comprar vinho e caviar.Ela me olha com uma cara bem feia. — Trabalhei igual a uma condenada na casa dos outros para te criar, e é assim que você me agradece? Se eu soubesse que você iria se tornar uma vadia ingrata, teria te colocado no abrigo.— Tia, eu pago as contas da casa enquanto você fica bebendo e trazendo homem fedorento para dentro de casa. Está na hora de arrumar um emprego. A dona Márcia, da mercearia, está precisando de uma ajudante. O salário não é muito, mas vai ajudar a nos ajudar.Como resposta, recebo um tapa forte em minha face.— Vagabunda, eu sou uma senhora de idade, não vou trabalhar em mercado de bairro para ganhar uma miséria. Mereço uma vida confortável. Arrume um emprego que pague melhor; quero ir morar em um apartamento em Ipanema.Sorrio de um jeito amargo. — Eu terminei o colégio, mas não fiz faculdade. Que emprego a senhora acha que vou arrumar? De faxineira, como babá, como empregada. O meu atual emprego paga as nossas contas. Sinto muito, mas a senhora vai continuar nessa casa.— Então faz um curso ou vá trabalhar no bordel em que a filha do meu namorado trabalha. Ela ganha bem; você pode conseguir uma boa grana. Se fosse virgem, o valor da sua primeira noite seria 150 mil. Mas 50 mil também tá bom.A encaro com indignação. — Não vou vender meu corpo porque a senhora não vai?Seguro a mão dela antes de ela acertar o meu rosto. — Não tô gostando do seu tom comigo. Sou sua tia, mereço respeito. Vou arrumar um marido rico para você. — Tereza, eu estou cansada. Vou tomar um banho e dormir.Digo e deixo ela falando sozinha na sala e vou para meu quarto.Tranco a porta. Meu quarto tem as paredes rosa, que eu pintei mês passado, e um guarda-roupa velho, quase caindo aos pedaços, uma mesinha, um espelho pendurado e uma cama de solteiro que ganhei de uma vizinha.Não tem luxo, mas eu gosto do meu cantinho.Toco na marca de nascença que tenho em uma das minhas bochechas.Ela é vermelha, pequena e lembra muito um coração. Algumas pessoas acham adorável e outras acham que eu deveria esconder com maquiagem. Mas eu amo essa marca; a minha mãe tem uma igual, só a Sílvia que não tem.Pego uma foto da minha mãe e levo até os lábios, dou um beijo.— Você faz tanta falta...Coloco a foto no mesmo lugar e vou para o banheiro minúsculo, tomo um banho gelado.E uso meu shampoo que comprei; o outro só tinha água.Passo sabonete em meu corpo e, após alguns minutos, tiro o shampoo e passo o condicionador.Dez minutos depois saio do banheiro, me seco com a minha toalha e visto meu pijama confortável, que está rasgado. Deito na cama e fecho os olhos. — Milena, cadê o dinheiro? Preciso sair com o meu namorado, por favor, me empreste 400 reais.Diz minha tia, batendo na porta velha de madeira. — E a senhora pretende me pagar como se não trabalha — O meu namorado vai receber semana que vem. Por favor, eu quero comer bem hoje.- Tem comida em casa. E o traste do seu namorado também não trabalha; ele vai receber dinheiro de quem?— Sua vadia, você mora na minha casa, tem o dever de me dar dinheiro. Abra a porta, puta suja. Você é igual à sua mãe, nojenta e miserável. Acha que algum príncipe vai vir te salvar dessa vida de CLT? Sinto muito em dizer, querida, mas isso não vai acontecer. Vai ter que vender o corpo se quiser continuar aqui.— Vou sair dessa casa essa semana; quero ver como vai se sustentar sem mim.- Milena, você está brincando com fogo, vai acabar toda queimada.— Tereza, vá se ferrar, eu tô quero dormi .Digo, pego meu celular e os fones de ouvido. Escolho uma música no último volume e fecho os olhos.Não vou ter mais pena de uma pessoa que só me maltrata. ela terá que se virar.Aos poucos o sono chega e me entrego a ele.Diz o seguinte: Acordo às seis e meia, faço minha higiene matinal, visto uma calça jeans e uma camiseta branca. Vou até a cozinha e começo a preparar o café, frito os ovos com bacon e pego o bolo de cenoura que comprei na padaria e coloco na mesa.Minha tia não está em casa. Acho que dormiu em algum bar com o namorado.Sento-me e tomo meu café com leite e como os ovos e o bolo. Quando já estou satisfeita, lavo o prato que sujei e me preparo para sair.Um velho gordo entra acompanhado da minha tia.— Então essa é a minha noiva?— Quem é esse homem, Silvia, e que história é essa de noiva?— Esse é o senhor Geraldo. Ele é dono de quase todas as casas do bairro e também tem uma boate bastante lucrativa. Ele é o homem perfeito para você.Diz sorrindo. — Eu vou cuidar muito bem de você, docinho. É uma pena que não seja virgem. Mas é jovem, nossos filhos vão ser lindos.Diz, tentando me beijar. Dou um tapa na cara dele. — Tenha vergonha na cara, seu velho safado. Tenho idade para ser sua neta. Some daqui, anda, vá embora.Digo, empurrando-o.— Isso não vai ficar assim, Silvia. Nosso acordo está desfeito; terá que me pagar o que deve.Diz com os olhos cheios de raiva.— Geraldo, a minha sobrinha está brincando; ela vai ser uma boa esposa. Volta aqui. o velho vai embora. — Sua desgraçada, viu o que fez? — Eu não vou casar com um velho tarado. Case você com ele, titia
Ela puxa meu cabelo com força. — Você vai me pagar caro por isso, vadia. Eu mereço viver no luxo. — Me solta... Me solta.Ela me empurra no chão com força. - Parabéns, Milena, acabou de ganhar uma inimiga.Diz, encarando-me com ódio.






