05- Tranquilo

– “Não me pergunte muito, só sei que to indo com as meninas pra casa da Bruna.” – Mandei pra Julia, depois de avisar minha mãe.

Falando assim até me sinto uma adolescente, mas é lógico que precisava avisar, por mais que já seja maior de idade, até porque ainda moramos juntas, então não poderia simplesmente sumir e foda-se, de forma alguma, eu precisava avisar que provavelmente não voltaria pra casa... era estranho afirmar isso.

Pelo caminho não conversamos, pois nossa prioridade era fugir da chuva, mas assim que entramos em seu apartamento as meninas zombavam de Leo e do quanto ele era afim de Bruna. Olhei ao redor e percebi que não havia ninguém, ao menos nenhum outro ser humano, já que um pedacinho lindo de totó surgiu alvoroçado fazendo festa pra gente.

– Já falei pro Leo que não tem mais nada entre a gente, mas ele parece que não acredita. – Disse Bruna enquanto avançava quarto adentro e nós ficávamos pela sala.

– Lógico! Não foi a primeira vez que vocês terminaram. – Afirmou Lara.

– Primeiro que nunca tivemos realmente nada demais, a gente namorou por muito pouco tempo, mas ok, de qualquer forma já tem mais de três meses isso. – Respondeu lá de dentro.

– Verdade. – Concordou Lívia. – Já ta mais do que na hora dele começar a superar. Aposto que ele já ficou com outras pessoas e ainda fica tentando te prender.

– Sim, e eu também já fiquei, sem ele saber, claro. – Disse Bruna surgindo e parando sorridente pelo corredor. Pra mim, perguntou. – Mas e você, você namora, fica, ou tem rolo com alguém?

Balancei a cabeça em negativa enquanto lutava pra absorver tudo o que estava acontecendo sem que isso me provocasse uma crise de ansiedade. Quinhentas informações surgindo do nada, isso sem dizer que estava sentada no sofá da casa dela enquanto a ouvia falar de homem... bem típico e desagradável, mas faz parte.

Não sei pras demais “irmãs”, mas uma coisa que me incomoda é quando a pessoa em quem tenho interesse não para de falar de homem. Outro dia uma garota Bi se queixou que as mulheres quase não davam em cima dela e eu respondi, de boa mesmo, dizendo “talvez seja porque você só fala de homem o tempo inteiro, equilibra a balança pra ver se muda”.

Não falo numa ideia de preconceito, falo porque talvez seja uma informação importante pras Bi, isso, é claro, se o sentimento a respeito for compartilhado pela maioria das Sapas. Pra quem é homo, se eu to afim de uma garota que só fala de homem, sinceramente, eu brocho.

O que eu fazia ali então? Já falei, eu precisava entender o que estava acontecendo e o porquê de tamanha simpatia da parte, única e exclusivamente, da Bruna. As demais meninas pareciam normais, não eram nem contra e nem a favor da minha presença, ou seja, nada daquilo fazia o menor sentido.

– Vamos beber. – Disse Lara, enquanto se levantava e ia até a cozinha.

– Você é sempre assim, quietinha? – Me perguntou Lívia.

– Nem sou, mas é que mal conheço vocês, então eu ainda to meio que conhecendo o terreno. – Sorri.

– Toma. – Lara me entregou uma lata de cerveja. – Agora você vai relaxar e nos contar todos os seus segredos. – Riram.

– Perigoso esse negócio de contar todos os segredos. – Zoei, falando e encerrando com os olhos nos de Bruna, que sorria levemente pra mim enquanto me encarava.

– Relaxa. – Disse Bruna. – Nenhum segredo sai daqui.

– O que acontece em Vegas, fica em Vegas! – Gritou Lívia e todas riram.

– Vocês nem beberam e já estão assim? – Brinquei.

– Não viu nada. – Me respondeu Lara enquanto ria.

Bruna saiu de onde estava, caminhou em minha direção e se sentou ao meu lado. Que sensação estranha era aquela, até porque sentia seu corpo bem ali, esbarrando em mim, de vez em vez, enquanto ela se inclinava pra pegar uma cerveja sobre a mesa de centro da sala.

– Relaxa, hoje é sexta. – Me disse ela, agora tão próxima, que senti todo meu corpo se arrepiar.

Meus olhos percorreram cada centímetro de seu rosto. Seus olhos eram lindos e sua boca era extremamente apetitosa. Me sentia excitada, não havia palavra melhor para descrever o que estava sentindo, até porque me pegava hipnotizada em seus lábios com um enorme desejo de beijá-los, mas me continha, tentando não transparecer nem metade do que estava realmente sentindo... espero ter conseguido.

– Vou relaxar. – Respondi, colocando minha mão sobre a dela, e sorrindo.

– “Sextou.” – Disse Lívia.

Nós brindamos com nossas latas e continuamos nossa noite com várias histórias. Tentei ser o mais discreta possível, pois realmente ainda não me sentia à vontade pra demonstrar quem eu realmente era, ou o que pensava a respeito das coisas, então, por sorte, consegui desviar de perguntas muito íntimas, dando sempre ênfase nas demais garotas... principalmente na Bruna, que era o maior mistério.

A conversa havia sido muito boa e, já pela madrugada, além de bêbada, eu me sentia realmente mais tranquila, mais entrosada... sei lá. A questão é que chegou o grande momento sobre o qual ainda não havíamos falado a respeito... dormir. Como seria isso? Quem dormiria aonde? Com quem? De que forma? Com que roupa? Enfim.

Não havia pensado a respeito até Lara tocar no assunto, pois estava com sono, largada pelo chão da sala, junto com o cachorrinho lindo. Bruna, que também parecia estar bêbada, então, sugeriu:

– Tenho dois quartos com camas de casal e somos quatro, então é isso, duas ficam num quarto e as outras duas no outro. Ou vocês querem dormir todas juntas aqui na sala?

– Aqui não, acho que não precisa e, por mim, pode ser eu e Lara num quarto e vocês duas no da Bruna. – Disse Lívia.

– Por mim, tudo bem. – Disse Lara.

Bruna olhou pra mim e perguntou:

– Tudo bem pra você, também?

– Tranquilo. – Respondi, tentando passar a maior tranquilidade, sendo que não havia nada de tranquilo... né.

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