Mundo de ficçãoIniciar sessãoROXANYA
O letreiro de neon vermelho do bar The Rusted Halo brilhava fracamente e piscava intermitentemente, como se fosse um coração definhando lentamente, enquanto eu virava a esquina da rua apressada, quase correndo e completamente ofegante. Cada passo que eu dava acelerava minha ansiedade e eu sentia o suor gelado escorrendo pela minha testa, misturando-se com a sensação incômoda que me dominava. O cheiro pesado do lugar era inconfundível, uma combinação de cigarro velho, cerveja derramada e fritura rançosa que me atingia antes mesmo que eu empurrasse a porta dos fundos do bar. Para ser honesta, aquele lugar era a personificação do desastre, o retrato exato do que significava estar no fundo do poço, e não havia cenário mais apropriado para meu atual estado.
Segui pelo corredor de serviço apertado, descendo as escadas estreitas que rangiam a cada passo e, enquanto fazia isso, arranquei a mochila do meu ombro, jogando-a em cima do banco. Agora, mais do que nunca, precisava daquele emprego, por mais precário que fosse. Talvez fosse essa urgência que me deixou surda a ponto de não notar o estranho silêncio que dominava o vestiário. Só percebi a ausência habitual de vozes e risos abafados quando levantei os olhos e vi o dono do bar, Marlon, bloqueando com seu corpo metade da passagem do corredor e olhando para mim com uma expressão miserável. Ele segurava meu uniforme preto, dobrado de forma rígida nas mãos, como se estivesse segurando um cadáver.
— Ah, não… — declarei de forma direta.
Marlon desviou o olhar e, naquele momento, ficou claro que ele era um homem covarde e um filho da puta que não tinha coragem de encarar as consequências do que estava prestes a fazer.
— Roxy... — tentou iniciar, sua voz baixa e hesitante.
— Não começa — interrompi, com a voz dura, completamente sem paciência para suas desculpas esfarrapadas.
Ele expeliu um suspiro baixo pelo nariz, claramente desconfortável com a situação difícil em que se encontrava.
— Você precisa pegar suas coisas e ir embora — disse, firme e sem espaço para negociações.
Fiquei parada encarando-o por alguns segundos, esperando que fosse algum tipo de piada. Spoiler: quando a piada não veio, eu senti alguma coisa gelada começar a subir pela minha espinha.
— Você está brincando comigo — falei baixinho, como se a incredulidade pudesse alterar a realidade esmagadora frente a mim.
— Eu queria estar — respondeu ele com uma sinceridade amarga que apenas aumentava a minha fúria.
— Marlon, eu só me atrasei um pouco — tentei explicar, na esperança tola de remediar a situação.
— Não é pelo atraso — rebateu, de forma quase cortante.
Eu sabia muito bem que não era por isso. O motivo era o que eu temia desde que o vagabundo do Zack havia começado a infernizar a minha vida naquela manhã. Ele nunca fazia nada pela metade, o que incluía a sua capacidade de manipular, ameaçar e destruir tudo o que fosse próximo a mim. Fechei os olhos por um instante, tentando recuperar o controle da respiração antes que a raiva tomasse conta por completo e eu acabasse quebrando algo, ou pior, alguém.
— Ele veio aqui? — perguntei com a voz praticamente trêmula, baixinha, como se falar mais alto pudesse fazer a situação piorar.
Marlon hesitou, o que fez o meu maxilar se tensionar, consciente de que ali estava toda a verdade que eu não queria ouvir.
— Ele não veio pessoalmente — respondeu rápido demais, talvez tentando fugir do assunto. — Mas mandou um recado.
— Que fofo — respondi com sarcasmo, uma risada amarga escapando de meus lábios. — Foi tipo “Oi, pessoal, esta semana decidi acabar com a vida da minha ex”?
— Eu não quero me envolver nessas merdas... — murmurou, recusando-se a entrar em detalhes.
— Fala logo, porra! — exigi, minha voz mais firme e revoltada do que antes.
Marlon apertou o uniforme entre os dedos, como se o tecido fosse seu último apoio, antes de finalmente largar as palavras que eu temia.
— Zack mandou avisar que qualquer um que te ajudar está com os dias contados, e quem cruzar o caminho dele tem como destino final o inferno.
O silêncio que se seguiu à declaração foi pesado, sufocante, e, enquanto meus olhos se fixavam no Marlon, meu cérebro lutava para processar qual era a pior parte daquela notícia: se era a ameaça direta de morte, o medo genuíno que eu escutava em sua voz, ou a certeza de que Zack realmente estava disposto a cumprir o que dizia.
— Você está me demitindo porque está com medo dele? — a minha voz saiu incrédula, quase um sussurro que mal escondia o desespero.
— Eu tenho duas filhas para sustentar — rebateu imediatamente, a culpa traindo seu rosto cansado. — Eu não posso comprar uma guerra com os Rust Devils, Roxy. Muito menos perder a vida tentando protegê-la.
Ao ouvir aquilo, senti uma chama pura de ódio que queimou profunda dentro do meu peito, misturada com a dolorosa compreensão da minha situação.
— Por favor — a palavra saiu amarga, um pedido repleto de desespero e frustração. — Marlon, eu preciso desse emprego.
Ele fechou os olhos por um momento, como se estivesse tentando extrair forças de algum canto obscuro de sua consciência.
— Não posso.
— Eu faço turno dobrado, lavo o banheiro, fico até fechar, faço qualquer coisa necessária — implorei, a voz carregada de desespero. — Eu preciso trabalhar, Marlon!
— Roxy... — ele tentou novamente.
— Aquele psicopata acabou de destruir minha vida inteira! — explodi em raiva, incapaz de conter a avalanche de emoções.
O rosto de Marlon endureceu, marcado por uma tristeza profunda que parecia carregar o peso de um mundo que ninguém mais queria reconhecer.
— E eu preciso continuar vivo — foi a última coisa que ele disse antes que o silêncio esmagador tomasse conta do local.
Eu fiquei muda por um instante. No fundo, entendia o que ele estava tentando dizer. Não era apenas uma questão de covardia, era a pura realidade cruel que governava a cidade onde vivíamos. Todos conheciam a reputação de Zack Callahan, e ninguém estava disposto a se colocar no caminho da tempestade que ele provocava. Engoli em seco, sentindo o amargo gosto da derrota ainda preso na garganta.
— Tá, então, pelo menos, me paga os dias que trabalhei esta semana — propus, já um pouco mais calma. — E eu vou embora, não quero mais confusão.
O desconforto voltou ao rosto dele como uma sombra pesada, e eu já podia prever, mesmo antes que ele falasse, qual seria a resposta.
— Não vai rolar.
A raiva me cegou por um instante, e minha visão escureceu levemente.
— Você está de sacanagem comigo — falei, a voz carregada de desdém e incredulidade.
— Zack deixou claro que... — ele tentou argumentar, mas foi cortado.
— Ah, eu tô pouco me fodendo para o que Zack deixou claro! — avancei um passo em sua direção, a voz dura e cheia de fúria. — Esse dinheiro é meu! Eu trabalhei muito para conseguir cada centavo, e você vai me pagar, seu caloteiro de merda.
— Fala baixo — ele ameaçou, tentando colocar um freio na minha explosão.
— Não manda eu falar baixo, seu puto! — eu respondi, a raiva me dominando por completo, incapaz de me calar diante da injustiça.
A fúria tomou conta de mim inteira; foi como se uma chama tivesse sido acesa dentro do meu peito, queimando sem controle.
— Vocês são todos uns covardes do caralho! — rosnei, incapaz de conter o veneno em minhas palavras. — Todo mundo nessa cidade abre as pernas quando Zack ameaça alguma coisa!
— Roxy... — Marlon tentou novamente, sua voz cansada e resignada.
— Que o universo inteiro que gira em torno do Zack se foda, e você também, Marlon — desabafei, a frustração tomando conta. — Espero que esse bar imundo pegue fogo, assim como todas as minhas coisas.
A porta do vestiário se abriu naquele exato momento, interrompendo minha explosão, e Lexie entrou com uma bandeja vazia apertada contra o peito, seus olhos arregalados imediatamente ao entrar naquela cena tensa.
— Que porra está acontecendo aqui? — indagou, a voz cheia de firmeza e um toque de perplexidade.
Lexie piscou algumas vezes, olhando alternadamente para mim e para Marlon, exibindo aquela expressão perigosa de quem está prestes a se envolver numa confusão séria.
Mesmo vestindo o uniforme barato e vulgar do Rusted Halo — que consistia num shorts preto minúsculo, uma regata branca apertada que valorizava os peitos, fazendo-os parecer maiores do que eram na realidade, e coturnos gastos cheios de arranhões — Alexia Torres, ou melhor, Lexie, minha melhor amiga, parecia estar pronta para qualquer festa underground.
O cabelo dela era um corte reto na altura do queixo, tingido de um roxo elétrico vibrante que quase brilhava sob a fraca luz do vestiário, desbotando nas pontas e criando um contraste marcante contra sua pele clara. A maquiagem era pesada, realçando a imagem agressiva que ela parecia querer passar: delineador preto afiado como navalha, sombra escura esfumada até ultrapassar as têmporas e um batom vinho quase preto, aquele tipo de batom que fazia homens perderem a cabeça, dinheiro e até o bom senso em menos de cinco minutos.
Soltei uma risada amarga, passando a mão pelo rosto como quem tenta afastar uma nuvem densa e pesada.
— O brocha do Marlon é um cuzão medroso que está me demitindo e se recusando a me pagar por causa daquele filho da puta do Zack — expliquei, o tom irritado permeando minhas palavras.
Os olhos de Lexie ficaram sombrios instantaneamente, a raiva crescendo no mesmo ritmo que a minha.
— Como assim? — perguntou, a voz carregada com uma mistura de surpresa e fúria.
Marlon ergueu as mãos imediatamente, em um gesto que parecia pedir trégua.
— Lexie, chega disso, não começa — advertiu.
Ela virou o rosto lentamente na direção dele, ainda segurando a bandeja metálica junto ao quadril; sua expressão, um aviso silencioso de que aquela conversa estava longe de acabar.
— Ah, eu vou começar, sim, e com vontade — replicou. — Você conhece a Roxy desde a adolescência e vai jogá-la na rua só porque esse desgraçado mandou? Você realmente acha que é isso o que deve fazer?
Marlon lançou um olhar para mim por um momento antes de suspirar fundo, abatido pela decisão que precisou tomar.
— Estou tentando continuar vivo — disse, com um tom desesperado. — Se eu fosse você, Roxanya... eu voltava para o Zack e acabava logo com essa história.
Lexie permaneceu parada por um segundo, como se digerisse aquelas palavras, e então, num movimento brusco e explosivo, arremessou a bandeja metálica contra o rosto dele, criando um estrondo retumbante que quase me fez pular de susto.
— Que porra! — Marlon gritou, tropeçando para trás, claramente atingido e pego de surpresa.
— Você enlouqueceu? — Lexie avançou, visivelmente furiosa, a voz carregada de indignação. — “Volta para o Zack”? Essa é a sua sugestão? Que ela volte correndo para um psicopata só porque todo mundo nessa cidade se caga de medo e se dobra diante dele?
— Você está demitida, sua vadia! — ele explodiu, a raiva finalmente emergindo, misturada à impotência.
Lexie soltou uma gargalhada sarcástica e debochada, como quem rejeita uma sentença injusta.
— Essa é a melhor notícia que tive hoje — disse com um sorriso ardiloso. — Se minha melhor amiga não pode trabalhar nesse buraco imundo sem sofrer ameaças de uma ganguezinha masculina com ego frágil, então eu também não quero trabalhar nessa espelunca.
Com um gesto decidido, ela tirou o crachá preso na regata com tanta força que quase rasgou a blusa branca. Sem hesitar, jogou o crachá no colo de Marlon como se aquilo fosse uma declaração de guerra.
Marlon tentou manter a calma, mas seu rosto estava vermelho de raiva e frustração, como um tomate maduro prestes a explodir.
— Vocês duas vão acabar mortas — avisou.
Lexie virou-se para mim logo em seguida, ainda respirando de uma maneira que sempre fazia com que eu soubesse que ela estava pronta para causar problemas — e, principalmente, para me proteger.
— Vamos sair daqui logo — disse, segurando minha mão firmemente. — Antes que eu perca a cabeça e faça algo que não tem volta com esse desgraçado.







