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O despertador nem precisou tocar.
Às seis da manhã, as cortinas automáticas do quarto se abriram lentamente, deixando a luz dourada do sol invadir a suíte de quase cem metros quadrados. O teto branco, os móveis planejados e a decoração em tons claros pareciam saídos de uma revista de arquitetura. Valentina Albuquerque abriu os olhos devagar, pegou o celular sobre o criado-mudo antes mesmo de se levantar. Mais de trezentas notificações, mensagens, convites para eventos, parcerias de marcas, comentários nas últimas fotos. Ela sorriu de canto, a vida perfeita rendia muitos likes. Depois de alguns minutos rolando a tela, levantou-se e caminhou até o enorme closet. Vestidos organizados por cor, sapatos em prateleiras iluminadas, bolsas de grifes internacionais. Tudo impecável. Escolheu um conjunto branco de alfaiataria, um salto fino bege e joias discretas. Queria elegância, não exagero. Diante do espelho, prendeu os cabelos loiros em um rabo de cavalo alto e fez uma maquiagem leve, suficiente para esconder o cansaço que insistia em aparecer nos últimos meses. Por fora, era perfeita. Por dentro, nem ela sabia mais quem era. — Bom dia, senhorita. A empregada já colocava o café sobre a mesa quando Valentina entrou na enorme sala de jantar. Frutas frescas, pães artesanais, croissants, queijos importados, café recém-passado. Tudo organizado com perfeição. Na cabeceira estava Alexandre Albuquerque. Empresário, bilionário respeitado, temido e, acima de tudo, controlador. — Está atrasada. Valentina olhou o relógio, eram sete horas em ponto. — Ainda faltam cinco minutos para a reunião. — Para quem quer comandar empresas, cinco minutos fazem diferença. Ela respirou fundo antes de responder. — Bom dia para você também. Ele apenas dobrou o jornal. — Hoje você conhecerá alguns investidores. Vista-se como uma Albuquerque. Ela olhou para a própria roupa. — Tem algum problema? — Nenhum. — Então? — Apenas lembre-se de que nossa imagem vale bilhões. Aquela frase era repetida desde que ela era adolescente. Nossa imagem. Nossa reputação. Nossa família. Nunca era sobre felicidade. Nunca era sobre escolhas. Duas horas depois, o carro blindado atravessava a avenida principal da cidade. Do lado de fora, pessoas caminhavam apressadas. Vendedores ambulantes, motoboys, ônibus lotados. Valentina observava tudo pela janela, às vezes tinha a sensação de viver presa em uma bolha. Ela possuía tudo: dinheiro, luxo, status. Mas não podia decidir sequer como queria viver. O motorista estacionou diante do edifício da Albuquerque Holding. Quarenta andares de vidro espelhado, funcionários impecavelmente vestidos, seguranças por todos os lados. Assim que entrou, foi recebida por sorrisos. — Bom dia, senhorita Valentina. — Bom dia. — A senhora está linda hoje. Ela agradeceu educadamente. Sabia que muitos daqueles elogios eram dirigidos ao sobrenome, não à pessoa. - A reunião parecia interminável. Executivos discutiam números, investidores falavam sobre expansão. Seu pai comandava tudo com firmeza. Valentina participava quando necessário. Era inteligente, preparada. Sabia administrar uma empresa, mas seu coração nunca pertenceu àquele lugar. Enquanto todos discutiam milhões, ela observava a chuva começar do lado de fora. Pensava em como seria simplesmente entrar em um carro e dirigir sem destino, sem seguranças, sem regras, sem alguém dizendo o que deveria fazer. Na saída do prédio, sua melhor amiga já a esperava. Heloísa abriu um enorme sorriso. — Finalmente conseguiu escapar. — Por poucas horas. — Valen riu — Vamos almoçar? Preciso respirar. As duas seguiram para um restaurante elegante no centro. Conversaram sobre viagens, moda, redes sociais. Mas Heloísa percebeu rapidamente que havia algo errado. — Você está distante. — Às vezes sinto que estou vivendo a vida de outra pessoa.— disse, abaixando o olhar. — Seu pai continua pressionando? — Como sempre. — soltou uma risada sem humor. — Você merece ser feliz. — disse Helô, segurando a mão da amiga. Valentina sorriu. Queria acreditar nisso. — Naquela mesma tarde, do outro lado da cidade. Muito longe dos prédios luxuosos, dos restaurantes sofisticados e dos carros importados. Um homem observava tudo do alto de uma laje: braços cobertos por tatuagens, olhar frio, poucas palavras, respeitado por aliados e temido pelos inimigos. Dante. Seu telefone tocou. — Encontramos o carregamento. — ele permaneceu em silêncio — Também apareceu um problema. — Que problema? — Parece que alguém importante vai passar por aquela região hoje. Dante guardou o celular lentamente e olhou mais uma vez para a cidade iluminada ao longe. Dois mundos separados por poucos quilômetros, sem imaginar que, em breve, esses mundos iriam colidir de forma irreversível.






