Capítulo 2
Ao abrir os olhos novamente, Letícia percebeu que estava no hospital.

Uma enfermeira trocava o curativo e, quando viu que ela tinha acordado, soltou um suspiro de alívio.

— Você ficou em coma por dois dias. Ainda bem que acordou. Como está se sentindo? No dia em que sua irmã trouxe você para o hospital, ela acabou desmaiando de susto. Seus pais e seu cunhado estão no quarto ao lado cuidando dela. Quer que eu vá chamar eles?

Ao ouvir isso, os cílios de Letícia tremeram levemente. Ela balançou a cabeça.

— Não precisa. Eles não vão querer me ver... e eu também não quero ver eles.

Um traço de compaixão passou pelo olhar da enfermeira, que se virou e saiu do quarto.

— São irmãs, mas a mais nova quase morreu de hemorragia e foi parar na UTI... e a família nem apareceu. Só ficaram cuidando da irmã que levou um susto. Nem vieram visitar uma única vez nesses dois dias.

— Ouvi dizer que o cunhado dela é o presidente do Grupo Barros. A irmã vai se casar com um homem rico, então é normal deixarem a outra de lado. Mas ele é mesmo apaixonado... não sai do lado dela. Dá remédio, alimenta pessoalmente, ainda chamou um especialista para cuidar do estado emocional dela. E os presentes não param de chegar no quarto...

As duas conversavam em voz baixa, mas cada palavra chegou com clareza aos ouvidos de Letícia.

Ela permaneceu completamente inexpressiva.

Já estava acostumada com aquilo.

À tarde, o médico pediu que ela fizesse uma nova avaliação.

Sem ninguém para acompanhar, teve que se levantar sozinha, sustentando o corpo ainda fraco.

Ao passar pelo quarto ao lado, Letícia viu os pais e Samuel reunidos ao redor de Nicole, cheios de cuidado.

O pai, Roberto Alves, ajeitava o cobertor sobre ela.

A mãe, Célia, descascava uvas e colocava na boca dela.

Nicole exibia um sorriso doce, com a voz suave:

— Pai, mãe... vocês estão cuidando de mim esses dias todos e nem foram ver a Letícia. Já que terminei de comer, por que não levam o resto dessa sopa de peixe para ela? Ela se machucou tanto... deve precisar se recuperar.

— Não se preocupe com ela. Ela sabe se virar em qualquer lugar. Essa sopa foi feita pela Célia depois de uma noite inteira na cozinha. Levar para ela seria desperdício.

Roberto recusou na mesma hora.

Célia concordou com um aceno.

Samuel ajeitava o cabelo de Nicole, o olhar cheio de carinho.

— O médico disse que você desmaiou por excesso de preocupação. A Letícia sempre foi fria, nunca ligou para sentimentos. Até teve a audácia de pensar em mim. Para que se preocupar com ela?

Ao ouvir aquela avaliação cruel, Letícia soltou uma risada baixa, carregada de amargura.

Ela tinha alergia a frutos do mar. Não podia comer nada daquilo.

Mas Nicole adorava peixe, camarão e caranguejo, então havia frutos do mar em todas as refeições da casa.

Ela não podia comer nada. Restava apenas comer legumes... e ainda era criticada por ser exigente.

Na frente dos outros, Nicole sempre parecia preocupada com ela.

Mas, quando estavam sozinhas, a tratava com desprezo, zombava e até a agredia.

Depois de bater nela, Nicole ainda chorava e ia reclamar com os pais, invertendo toda a situação.

E os pais nem sequer perguntavam o que tinha acontecido. Apenas puniam Letícia, obrigando ela a ajoelhar na chuva durante a noite inteira.

Desde então, ela passou a manter distância de Nicole.

Tudo que Nicole queria, ela cedia.

Na vida passada, Samuel foi a única coisa pela qual ela quis lutar.

E, mesmo assim, terminou daquele jeito.

Nesta vida... ela só queria viver em paz.

Sem disputar. Sem lutar. E sem amar.

Letícia terminou os exames sozinha e, com a receita em mãos, foi buscar os medicamentos.

A farmácia ficava em outro prédio, atrás do hospital. Era preciso atravessar um jardim.

Ao passar perto da fonte, alguém a interceptou.

Ela levantou o olhar.

Era Nicole.

— Você já consegue andar? Então não deve ter sido nada tão grave assim, né? Vou te dizer uma coisa: nossos pais estão do meu lado. Mesmo que você conte para o Samuel que foi você quem esteve com ele naquela época, que a pessoa de quem ele realmente gosta é você... não vai adiantar nada. Melhor nem perder seu tempo.

Diante da provocação, Letícia manteve a calma.

— Pode ficar tranquila. A partir de agora, não vou mais gostar do Samuel. Tudo que você quiser, eu deixo para você.

Nicole já estava acostumada com aquela postura. O olhar dela ficou ainda mais arrogante.

— Acha mesmo que eu preciso que você me dê alguma coisa? Desde pequena, tudo sempre foi meu. Você só serve para ficar com o que eu não quero. Nesta vida inteira, você nunca vai conseguir competir comigo.
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