Mundo de ficçãoIniciar sessão~~ Jade ~~
Cheguei em casa após assinar o acordo com Giovanne Vance, ensaiando o meu melhor sorriso, para dar a notícia para minha mãe da forma que ela ia gostar de ouvir.
— E então, filha. Como foi?
— Melhor do que eu imaginava, mãe… — falei fingindo empolgação. — Conversei com o senhor Vance sobre a situação do meu irmão e ele vai realizar a reforma da casa para que meu irmão possa vir o quanto antes, então ele vai descontando aos poucos do meu salário.
Minha mãe levou as mãos aos lábios, os olhos marejados.
— Verdade, filha? Oh, meu Deus! Que benção! Esse homem é realmente um anjo!
— É… Um anjo… — falei enquanto pensava exatamente o contrário.
Naquele mesmo dia comecei a organizar as minhas coisas e fazer as minhas malas. Eu passaria um ano fora, tinha um ano para concluir a minha fórmula, me livrar da prisão e, quem sabe, ajudar o meu irmão. Após quase 2 anos trabalhando nisso, eu sabia que era um prazo curto demais, mas faltava pouco e eu precisava tentar.
No dia seguinte, a realidade técnica do home care bateu à nossa porta de forma avassaladora. Fomos ao hospital logo cedo para entender os trâmites da alta de alta complexidade do João. A assistente social e o médico da UTI nos entregaram um checklist de exigências com quase três páginas: o quarto precisava de aterramento elétrico exclusivo, espaço para circulação de duas pessoas simultâneas nas laterais da cama, piso de fácil higienização, e uma estrutura de suporte que parecia mais a de um hospital do que a de uma casa comum.
Para piorar, à tarde, a enfermeira supervisora da empresa de assistência domiciliar fez a visita de avaliação na nossa casa e o veredito dela foi um balde de água fria.
— Senhorita Vasconcelos, o quarto do seu irmão é pequeno demais — explicou ela, apontando para as paredes com uma trena digital. — Não há espaço para o ventilador mecânico, os cilindros de backup e a cama hospitalar de forma segura. A equipe de enfermagem de plantão vinte e quatro horas não conseguiria sequer se mover para higienizá-lo. Infelizmente, nessas condições, a alta é inviável.
Minha mãe olhou para mim, o desespero voltando a tomar conta de seus olhos, mas eu sabia o que precisava ser feito, então olhei para a parede que dividia o cômodo.
— Nós vamos derrubar essa parede — determinei, firme. — O quarto do João Pedro faz divisa com o meu. Se unirmos os dois cômodos, teremos espaço de sobra para a semi-UTI.
— Mas, minha filha... — minha mãe interveio, a voz embargada e as mãos trêmulas enquanto me segurava pelo braço. — Onde você vai dormir quando voltar? É o seu quarto, as suas coisas... Você já está sacrificando a sua vida indo para outro país por causa do seu irmão, e agora nem um quarto você vai ter na sua própria casa?
— Mãe, olhe para mim — segurei o rosto dela, forçando-a a focar nos meus olhos. — Eu vou passar um ano fora. Um ano inteiro. Quando eu voltar, nós damos um jeito. Podemos subir um andar na casa, ou eu posso alugar um apartamento aqui perto. O que importa agora é tirar o João Pedro daquele hospital e trazê-lo para perto de você, o resto é apenas tijolo.
Ela chorou, assentindo a contragosto, penalizada pelo meu sacrifício.
Naquela mesma noite, compilei todo o relatório da vistoria, o checklist do hospital e a planta desenhada à mão da fusão dos quartos. Enviei tudo diretamente para o e-mail privado de Giovanne Vance, com o assunto: Exigências Médicas para Início do Contrato. Eu esperava que ele fosse questionar os custos ou a urgência, afinal, o homem de gelo parecia se importar apenas com prazos e lucros.
A resposta dele veio trinta minutos depois, seca e direta: “A equipe chega amanhã às oito da manhã. Esteja pronta.”
E ele não estava brincando. Às oito em ponto da manhã seguinte, o som de caminhões e ferramentas quebrou a calmaria da nossa rua. Uma equipe inteira de engenharia civil e arquitetura, enviada diretamente pela Vance Corporação, desembarcou na nossa porta. Havia um engenheiro chefe de capacete branco coordenando tudo com um tablet, além de eletricistas prontos para refazer toda a fiação da casa para suportar a carga dos aparelhos.
A vizinhança inteira saiu às janelas para fofocar sobre a quantidade de operários e o luxo da equipe que havia invadido a nossa humilde casa. Em questão de horas, o som de marretas ecoava pelas paredes. Ver o meu quarto ser destruído e transformado me deu um aperto enorme no peito, mas cada tijolo que caía era um passo a menos para garantir que a vida do meu irmão estaria segura.
A eficiência do dinheiro de Giovanne era algo assustador. O que uma pessoa comum levaria meses para conseguir entre burocracias e pedreiros, a equipe da Vance Corporação resolveu em tempo recorde. Em exatos quatro dias, a parede que dividia os quartos foi abaixo, a fiação elétrica foi totalmente refeita com um sistema de gerador próprio para o caso de quedas de energia, e o novo piso hospitalar foi instalado. O cômodo agora era uma semi-UTI impecável, limpa e pronta para receber meu irmão.
O problema, era que o prazo que o CEO me deu já havia extrapolado, e enquanto eu observava os operários recolhendo as ferramentas, o meu celular vibrou. Era uma mensagem curta e grossa do número privado dele:
“A obra foi finalizada. O jato decola amanhã às 9h da manhã. Esteja pronta na porta de casa às 8h e passarei para te buscar.”
Meu coração saltou no peito. A transferência do João Pedro estava agendada justamente para a manhã do dia seguinte. Se eu embarcasse às oito, eu não estaria aqui para vê-lo chegar. Não saberia se ele foi instalado corretamente, se os aparelhos funcionaram... e não teria a chance de me despedir dele.
Engoli o orgulho e digitei o número dele, minhas mãos suavam frio enquanto o telefone chamava. Ele atendeu no terceiro toque.
— Espero que seja importante, Dra. Vasconcelos — a voz gélida de Giovanne ecoou, sem qualquer preliminar.
— Sr. Vance... — respirei fundo, tentando manter a voz firme. — A obra acabou, sim. Mas a transferência do João Pedro está marcada para amanhã de manhã. Eu preciso... eu imploro por apenas mais um dia. Só vinte e quatro horas. Quero ver meu irmão ser instalado nos novos aposentos, garantir que ele está seguro e me despedir da minha família.
Houve um silêncio pesado do outro lado da linha. Eu quase podia ouvir as engrenagens da mente calculista dele girando, e me preparei para o "não" arrogante que certamente viria. Para a minha total surpresa, a voz dele retornou, ainda fria, mas com uma concessão que eu não esperava.
— Vinte e quatro horas, Jade. Nem um minuto a mais — ele ditou, o tom cortante. — O jato vai esperar até depois de amanhã. Mas preste bem atenção: se você não estiver na porta às oito da manhã em ponto da nova data, o contrato será cancelado imediatamente, o financiamento do home care será cortado e eu farei questão de que você arque com todas as consequências legais do processo por espionagem industrial. Fui claro?
— Sim, Sr. Vance. Serei pontual. Obrigada — respondi, mas ele desligou na minha cara antes que eu terminasse a palavra.
Soltei o ar, aliviada, sentindo as pernas trêmulas. Ele era um monstro de gelo, e fazia jus ao apelido que os funcionários deram, mas tinha me dado o meu último dia de liberdade. Depois disso, meu tempo pertenceria inteiramente a ele. Olhei para o quarto novo do meu irmão, prometendo a mim mesma que faria cada segundo daquele sacrifício valer a pena.







