PODER E FASCÍNIO
PODER E FASCÍNIO
Por: Marinez Assis
Capítulo 1

Capítulo 1

Daniela abriu os olhos antes que o despertador tocasse. Acordou agitada, pois aquele seria o seu primeiro dia de trabalho. Levantou apressada e seguiu para o banheiro. Ligou o chuveiro e deixou que a água quente aliviasse a tensão enquanto organizava os pensamentos.

De volta ao quarto, parou na frente do espelho grande e procurou se vestir de maneira elegante, porém, despretensiosa. Prendeu os longos cabelos negros e ondulados em um coque, deixando alguns fios soltos. Usou delineador para realçar os olhos escuros, batom nude para disfarçar os lábios cheios e carnudos e brincos e perfume discretos. Vestiu uma saia lápis preta na altura dos joelhos, com uma fenda na parte de trás, acompanhada de uma blusa de seda na cor pastel com botões na frente. E para finalizar usou sapatos de salto alto.

Deu uma última olhada no espelho e ficou satisfeita com o que viu. A maquiagem combinava com a sua cor parda e ela se sentiu digna do cargo que ocuparia: assistente de vendas da Goldacci, a maior e mais bem conceituada indústria farmacêutica da Itália.

Assim que desceu do taxi na frente do prédio luxuoso lembrou que não havia tomado o café da manhã. Dirigiu-se para uma lanchonete no térreo e pediu um copo de suco de laranja. Na verdade, não estava com fome, mas tinha que forrar o estômago com alguma coisa para aguentar o nervosismo do primeiro dia, principalmente porque ela estava dois minutos atrasada.

Pegou o copo de suco, passou pela recepção e se dirigiu para o elevador que estava aberto, pronto para subir. Correu até ele, mas assim que chegou à porta, sentiu um ruído estranho no sapato e uma pressão na perna direita. Tropeçou, o copo de suco voou e o líquido foi parar no terno do homem que estava dentro do elevador bem à sua frente. Ela congelou.

Fixou o olhar no homem sem saber o que dizer, vendo o líquido amarelo escorrendo pela calça e pingando nos sapatos escovados e brilhantes. O homem a encarava com uma expressão indecifrável, sem se mexer do lugar, com as mãos enfiadas nos bolsos da calça. Ela abriu a boca para dizer alguma coisa, mas som algum saiu dela.

Sentiu-se idiota e seu olhar esmiuçou cada detalhe do homem à sua frente. O terno feito sob medida combinava com a calça preta e os sapatos caros, o que o deixava extremamente admirável, mas o que lhe tirou o fôlego foi o rosto simétrico de queixo quadrado e de aspecto macho alfa, com cabelos pretos ondulados e olhos escuros e profundos. O homem era alto e forte, aparentando ter uns trinta e poucos anos, e era o cara mais lindo e sexy que ela já havia visto em toda a sua vida. Sua boca de contornos firmes formava um conjunto espetacular com o nariz retilíneo, finalizando em uma barba aparada e bem cuidada. Ele tinha uma beleza animalesca e selvagem.

Daniela não conseguia nem piscar diante daquele encanto masculino. Tentou pedir desculpas, mas a sua língua parecia que estava colada na boca. Ela continuava em pé na porta do elevador, estática, impedindo-o de fechar.

Viu o olhar examinador do homem percorrendo o seu corpo e se fixando nos seus pés, e foi então que percebeu que um dos saltos do seu sapato havia se quebrado. Quando deu um passo para trás, se desequilibrou e caiu sentada no chão do lado de fora do elevador. Sentiu seu rosto ficar vermelho. Que papel ridículo estava fazendo diante do homem mais elegante e bonito que já conheceu!

Somente no momento em que o elevador estava fechando para subir percebeu que havia outro homem ali dentro, na extremidade direita e que estendia um lenço para o senhor elegância. Era o seu segurança.

***

Chegou à sala do seu chefe trinta minutos atrasada, pois teve que comprar sapatos novos. Deu uma batidinha leve e entrou. Francesco Giordani era um homem de meia idade, magro, com início de calvície e nariz curvado para baixo, o chamado “nariz de tucano”.

Ele apontou para uma cadeira posicionada diante de sua mesa de vidro e esperou que ela se sentasse.

— Bom dia! — Daniela o cumprimentou timidamente.

— Atrasada já no primeiro dia — o chefe falou, batendo a ponta da caneta sobre a mesa.

— Desculpe, é que aconteceram tantas coisas desde que acordei hoje pela manhã...

— Tudo bem, tudo bem! Mas que isso não se repita.

— Eu prometo!

Francesco sorriu e Daniela se sentiu à vontade.

Ele era o gerente comercial da Goldacci Indústria Farmacêutica e braço direito de Antonino Goldacci, o dono de todo aquele império. Sua função era gerenciar a equipe de vendas e criar ações para aumentar os lucros da empresa. E Daniela seria sua assistente. Ela o conheceu no primeiro dia da entrevista, depois que conversou com a psicóloga do setor de Recursos Humanos. Ele entrou e a cumprimentou, depois ofereceu cappuccino e saiu.

Voltando a ficar sério, Francesco pegou uma folha de papel digitada, leu, depois voltou a olhar para Daniela.

— Daniela Rivera, 24 anos. Nascida no Brasil, natural da Bahia.

— Sim — ela confirmou a informação.

— E então, já conhecia a Itália?

— Não!

— O que a trouxe aqui?

— Perdi minha mãe recentemente. Ela era italiana, mas sempre morou no Brasil. Como eu não tinha mais ninguém no Brasil quis conhecer a terra natal da minha mãe. Sabe, lá não dava mais para mim. Eram muitas lembranças.

— Entendo. Mas, está gostando da Itália?

— Muito! Tudo aqui é tão lindo!

— Já arrumou um lugar para morar?

— Sim. Estou morando numa pensão, por enquanto.

— Imagino que já deva ter falado sobre sua experiência profissional na entrevista com o pessoal do RH, mas eu gostaria que me contasse sobre o seu trabalho no Brasil.

—Trabalhei durante seis anos como assistente de vendas numa Distribuidora Farmacêutica.

— Tão jovem e com tanta bagagem!

— Na verdade eu comecei como jovem aprendiz e acabei ficando. Foi o meu primeiro e único emprego.

— Suponho que já conheça os produtos da Goldacci.

— Sim. A maioria deles é para problemas cardíacos e pressão arterial: anlodipino, captopril, carvedilol, amiodarona...

— Muito bem! E o que você fazia exatamente? Qual era a sua função?

— Atender vendedores externos, organizar reuniões de lançamentos de medicamentos e dar suporte ao setor de vendas interna.

— Pois é exatamente isso o que você fará aqui. Com a diferença de que não estará trabalhando para várias empresas, mas apenas para uma, a melhor! Seja bem-vinda à Goldacci Indústria Farmacêutica! — Francesco levantou e apertou sua mão.

— Obrigada! — Daniela ergueu o corpo e segurou sua mão com um sorriso no rosto.

Francesco deu a volta na mesa, colocou a mão no ombro de Daniela e os dois se dirigiram para a porta.

O primeiro dia de trabalho foi mais voltado para as apresentações. Daniela visitou uma sala enorme onde funcionava o call center da empresa. Havia cem cabines ativas funcionando em quatro turnos, durante vinte e quatro horas.

Ela fez um pequeno discurso para o pessoal do setor, falando sobre a sua função e deixando claro que iria trabalhar com as equipes de vendas interna e externa dando o auxílio necessário e contribuindo para o crescimento das vendas.

***

Assim que chegou à pensão naquela noite, subiu para o quarto, tomou um banho rápido e jogou-se na cama, cansada. Olhou a imagem na tela do celular e não conseguiu segurar as lágrimas que desceram sem controle. Na foto estavam ela e sua mãe numa selfie tirada na praia. Ainda não conseguia acreditar que perdeu a pessoa mais importante da sua vida.

Foram oito anos de hemodiálise à espera de um transplante que não chegou a acontecer. E ela, Daniela, queria que a mãe ainda estivesse viva para continuar cuidando dela e ter o seu afago, o seu carinho antes de dormir.

Contava os dias nos dedos: há noventa e dois dias sua mãe falecera.

Por dedicar-se integralmente à mãe enferma, Daniela não tinha vida social. As colegas da faculdade tiravam sarro dela por ainda ser virgem. Mas desde que descobriu que sua mãe estava doente vivia apenas para ela, acompanhando-a na hemodiálise e cuidando da sua alimentação. Só não abandonou a faculdade de propaganda e marketing porque sua mãe não permitiu e Daniela sabia que ela sofreria se soubesse que a filha havia abandonado os estudos.

Nesse período teve alguns namoradinhos, coisa sem importância. Até que conheceu Rafael e namoraram durante oito meses. Mas foi um relacionamento cheio de problemas porque ele não aceitava o namoro sem sexo, eles brigavam muito e ela acabou terminando com ele. E foi a melhor coisa que fez.

Adormeceu com as lágrimas molhando o travesseiro e sonhou. Estava no hospital, levantou da cama e se olhou num grande espelho. Estava desfigurada.

Acordou gritando, molhada de suor. Pulou da cama e correu até o espelho da cômoda. Depois de ver que o seu rosto estava perfeito, respirou aliviada e voltou a deitar.

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