capítulo 6

CAPÍTULO 6

LUANA

Havia uma coisa que o dinheiro nunca conseguiria comprar: amizade.

Desde que cheguei à mansão, todo mundo parecia querer me oferecer alguma coisa. Roupas, joias, cartões de crédito, carros. Mas ninguém parecia entender que as coisas mais importantes da minha vida nunca tiveram etiqueta de preço.

Enquanto terminava o café, meu celular vibrou. O nome de Duda apareceu na tela, e sorri antes mesmo de abrir a mensagem.

Duda: — A madame esqueceu das pobres?

Balancei a cabeça, rindo sozinha, e respondi imediatamente.

Luana: — Nunca.

Ela visualizou na mesma hora.

Duda: — Então desce. Tô na frente da mansão.

Olhei pela janela.

Lá estava ela, encostada na moto velha, comendo um salgado como se fosse a coisa mais normal do mundo esperar alguém na frente da casa de uma das famílias mais ricas da cidade.

Sorri.

Aquela era a Duda que eu conhecia.

Minha mãe sorriu quando avisei que sairia.

Mãe: — Vai encontrar suas amigas?

Assenti.

Luana: — Elas fazem parte da minha vida. Sempre vão fazer.

Ela acariciou meu rosto.

Mãe: — Divirta-se.

Sorri. Gostava da maneira como ela tentava respeitar meu espaço. Ainda estávamos aprendendo uma sobre a outra, e eu sabia que nenhuma das duas queria forçar uma intimidade que precisava acontecer naturalmente.

Assim que passei pelo portão, Duda abriu os braços.

Duda: — A herdeira resolveu lembrar da gente!

Abraçei-a tão forte que quase derrubei o salgado da mão dela.

Luana: — Que saudade.

Ela me afastou apenas o suficiente para me analisar.

Duda: — Continua a mesma. Graças a Deus. Achei que já ia aparecer de salto alto e nariz empinado.

Empurrei seu ombro.

Luana: — Idiota.

Ela gargalhou, e aquela risada tinha o poder de deixar qualquer lugar mais leve.

Poucos minutos depois, Jéssica e Paloma chegaram. Os abraços demoraram mais do que qualquer conversa e, naquele instante, senti uma coisa que não conseguia encontrar na mansão.

Eu estava em casa.

...

Fomos para uma pequena lanchonete onde costumávamos nos encontrar. Nada havia mudado. As mesas de plástico, o cheiro de hambúrguer, a televisão velha ligada em um jogo de futebol. Até o dono sorriu quando me viu.

Seu Antônio: — Achei que nunca mais pisaria aqui.

Sorri.

Luana: — Nem morta eu abandono o melhor hambúrguer da cidade.

Ele riu, e as meninas acompanharam.

Tudo parecia exatamente como antes.

Aquilo me fez um bem enorme.

Na mansão, eu ainda estava tentando descobrir quem era naquela nova família. Ali, ninguém precisava perguntar quem eu era. Elas já sabiam.

Enquanto esperávamos os pedidos, Duda cruzou os braços.

Duda: — Agora conta. Como é morar na casa dos bilionários?

Dei uma mordida na batata frita antes de responder.

Luana: — Tem muito mármore.

Fiz uma pausa.

Luana: — Pouca paz.

As três caíram na risada.

Paloma apoiou o queixo na mão.

Paloma: — E aquele noivo da sua irmã?

Levantei uma sobrancelha.

Luana: — O que tem ele?

Ela sorriu.

Paloma: — Nada... só vi o jeito que ele olhou para você na festa.

Balancei a cabeça.

Luana: — Você vê romance em tudo.

Paloma: — Não. Eu vejo homens. É diferente.

Jéssica percebeu minha expressão e mudou de assunto antes que Paloma continuasse.

Jéssica: — Vocês lembram como conheceram a Lu?

Duda bateu a mão na mesa.

Duda: — Como esquecer?

A lembrança me fez sorrir.

...

Dois anos antes, eu ainda trabalhava em um bar. Era uma sexta-feira, a casa estava cheia e a música alta o suficiente para dificultar qualquer conversa.

Um homem completamente bêbado segurou meu braço quando fui entregar uma cerveja.

Cliente: — Senta aqui com a gente.

Puxei meu braço.

Luana: — Solta.

Ele apertou ainda mais.

Foi quando ouvi uma voz atrás dele.

Duda: — Ela mandou soltar.

O homem virou, rindo.

Cliente: — E você é quem?

Duda nem respondeu. Pegou o copo de cerveja que estava sobre a mesa e despejou o conteúdo inteiro na cabeça dele.

O bar inteiro ficou em silêncio.

O homem levantou furioso, mas o segurança chegou antes que a situação piorasse e o expulsou dali.

Quando tudo acabou, olhei para aquela garota que eu mal conhecia.

Ela apenas deu de ombros.

Duda: — Não gosto de homem folgado.

Naquela mesma noite, sentamos para tomar uma cerveja depois do expediente. Conversamos até quase amanhecer, descobrimos que tínhamos mais coisas em comum do que imaginávamos e, de alguma maneira, aquela desconhecida se tornou uma das pessoas mais importantes da minha vida.

Nunca mais nos separamos.

...

Voltei ao presente sorrindo.

Luana: — Você continua maluca.

Duda fez uma reverência exagerada.

Duda: — Esse é meu charme.

Olhei para as três.

Por alguns segundos, apenas observei minhas amigas. Elas tinham me conhecido quando eu não tinha dinheiro, sobrenome importante ou uma mansão esperando por mim. Tinham estado comigo quando minhas preocupações eram pagar as contas, chegar ao fim do mês e sobreviver a mais um turno cansativo.

Naquele momento, tive certeza de uma coisa.

A riqueza podia ter mudado meu endereço, meu sobrenome e minha rotina, mas jamais mudaria quem caminhou ao meu lado quando eu não tinha absolutamente nada.

E isso...

Eu nunca permitiria perder.

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