Mundo de ficçãoIniciar sessão
POV: Rafael Ferraz
— Amanhã, às dez da manhã, Rafael, a presidência da Ferraz Nexus deixa de ser sua. O conselheiro à minha esquerda arremessou o tablet na mesa. O aparelho derrapou na madeira e parou a dois dedos da minha mão, com a tela estilhaçada exibindo a manchete que tentávamos abafar. Nem pisquei. Continuei sentado na cabeceira, encarando os doze engravatados que mal conseguiam sustentar o meu olhar. — A matéria não saiu — respondi, sem alterar o tom. — Ainda — Theo soltou do canto da sala, encostado na parede, de braços cruzados, com aquele sorrisinho cínico de quem já se via na minha cadeira. — O rascunho caiu em três redações financeiras de madrugada. Fraude em contratos antigos, vazamento de dados, licitação do governo suspensa preventivamente. Quatro bilhões travados antes da abertura da bolsa de amanhã. — Ninguém provou nada do que tá escrito aí — cortei, seco. — Quem vazou esse lixo escolheu a véspera da assembleia de propósito, pra derrubar as ações. É golpe manjado pra forçar uma compra hostil. Se o conselho amarelar agora, entrega o controle de bandeja. — Bloqueamos as movimentações suspeitas logo cedo — Marcelo Duarte interveio, ajeitando os óculos com a calma de quem trabalha com a família há quinze anos. — Temos caixa de sobra pra segurar o tranco na abertura do mercado. O que a gente precisa agora é de cabeça fria. — Cabeça fria não segura acionista em pânico, Marcelo! — Werner esbravejou, enxugando o suor da testa com o lenço. — Os minoritários já estão fechando com um fundo de fora. Se baterem a cota amanhã, a gente vota a destituição da diretoria executiva. Você é a cara da empresa, Rafael. Se o barco afundar, você afunda junto. Encarei os doze rostos ao redor da mesa, medindo quem ainda estava do meu lado e quem já fazia as contas de uma nova gestão. Virei o rosto para o homem sentado à minha direita. Meu pai, Augusto Ferraz, não dizia um pio. As mãos pálidas tremiam sobre a mesa, num ritmo quase invisível. O homem que mandou naquele império com mão de ferro por trinta anos parecia incapaz de levantar a cabeça. A covardia dele me dava mais ódio do que o chilique do conselho. Ele sabia de onde vinha o golpe. Sabia muito bem qual conta do passado tinha chegado pra cobrar a fatura. — Tem outra saída, Rafael — Theo soltou baixinho, um brilho de deboche escondido atrás da voz preocupada. — Só que você não vai gostar dela. Encarei o meu irmão por um segundo mais longo do que devia. Havia algo naquele tom, não era a provocação de sempre. Era certeza. Ele sempre gostou de brincar com fogo perto da minha cadeira, mas daquela vez havia um cálculo por trás do sorriso que eu não consegui decifrar. Theo sabia de alguma coisa que eu ainda não sabia, e isso me incomodou mais do que toda a manchete da madrugada. — Ninguém me tira desta cadeira enquanto eu estiver respirando — avisei, apoiando os punhos na mesa e me levantando devagar. A sala inteira parou. — O conselho não tem voto suficiente pra derrubar a presidência sem o bloco familiar. E o bloco familiar sou eu. — Isso se o bloco familiar ainda valer alguma coisa amanhã — uma voz seca cortou a sala. As portas duplas se abriram. O Dr. Silveira, advogado do espólio do meu avô e guardião dos documentos mais antigos da empresa, entrou a passos firmes, com uma pasta preta de couro debaixo do braço. O silêncio que ele impôs só de atravessar a porta valia mais do que qualquer discurso do conselho. Theo perdeu o deboche na hora e desencostou da parede. — O que é isso, Silveira? A reunião é fechada pra diretoria. — Esta reunião é sobre quem manda nesta empresa — Silveira rebateu, sem nem olhar na cara dele. Parou ao meu lado e bateu a pasta na mesa. — E antes que os senhores percam tempo com votação inútil, é bom saberem que o controle da Ferraz Nexus não pertence a quem gritar mais alto. — Vá direto ao ponto, Silveira — Werner bufou, impaciente. — Estou falando do testamento de Horácio Ferraz. — O advogado abriu a pasta e tirou uma única folha com selo de cartório. — Quando o seu avô estruturou o contrato social, sabia que uma crise dessas podia acontecer. Por isso, incluiu uma cláusula de proteção sucessória com execução imediata. O ar sumiu da sala. Meu pai fechou os olhos com força e afundou na cadeira, como quem finalmente escuta a própria sentença. — Que cláusula? — perguntei, cravando os olhos no papel. Silveira sustentou o olhar, frio como gelo: — Uma aliança societária irrevogável, Rafael. Se a governança for ameaçada por um escândalo público na véspera da assembleia, a blindagem das suas ações só continua valendo sob uma condição. Senti o corpo inteiro travar antes mesmo de ele terminar a frase. Alguma coisa no jeito como o Silveira media as palavras me disse que aquela condição não tinha nada a ver com dinheiro. — Fala logo, Silveira — mandei, com o maxilar trincado. O advogado não piscou: — A cláusula do seu avô pode ser acionada contra você a qualquer minuto, Rafael. E pra garantir a sua permanência definitiva no comando, a escritura exige a união imediata com a família Montenegro. A sala congelou. Theo arregalou os olhos, sem reação. Os conselheiros começaram a se entreolhar, em choque. Os Montenegro eram os nossos piores inimigos há três décadas, uma guerra comercial que quase destruiu as duas famílias. Fiquei parado, o coração batendo um compasso estranho que eu não soube nomear na hora, nem raiva, nem pânico. Alguma coisa mais fria e mais funda do que as duas coisas juntas. Silveira fechou a pasta com um estalo seco e cravou os olhos nos meus: — Você sabe muito bem o que isso significa, Rafael.






