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Mais um dia na minha vida, não era nem duas horas da tarde, e eu já estava completamente bêbado, não tenho mesmo jeito, é assim que é a minha vida baby, me aceite como sou, um responsável.
Talvez a natureza não tenha me feito para permanecer sóbrio, baby! Aceite o inaceitável, que tudo parecerá mais fácil na sua vida!
Não podia fazer aquilo, não podia enfrentar meus irmãos, não podia enfrentar a minha mãe, não podia olhar na cara de todos os meus funcionários, não podia nem sequer levantar a minha cabeça, era tanto não podia, que estremecia de tanta raiva que sentia de mim mesmo! Eu decepcionei a todos, tinham pessoas que dependiam daquela empresa para sobreviver, e eu levei tudo aquilo para o ralo! Era uma coisa realmente revoltante, eu fui o único causador da minha própria desgraça, ponto pra mim, e mais uma taça de vinho para dentro, naquele dia eu tinha bebido tanto, que sinceramente não sabia diferenciar uma taça de vinho de uma dose de vodka, só sabia que não sabia se dirigi um carro ou um trator, não poderia sentir a diferença. Estava em uma experiência cósmica, é assim que me sinto quando bebo, consigo para, pelo menos por um momento, dos meus problemas pessoais, que são tantos.
Foi naquele dia que absolutamente tudo começou, já fazia um tempo que o meu pai tinha morrido, a herança tinha sido dividida, e os ânimos estavam alterados, era óbvio que alguma coisa de errado iria acontecer, era mais do que provável.
Poliana não quis me ajudar, me chantageou para conseguir exumar o corpo do meu pai, e eu achei que tivesse conseguido uma aliada, doce engano, Poliana estava se sentindo traída, e eu compreendo ela, o que minha mãe e o Lauro fizeram foi imperdoável, por isso que ela quis tanto se vingar dele, mas isso já não era problema meu, também tenho que resolver a minha vida, não é mesmo...
Com Poliana não poderia contar, só poderia contar comigo mesmo! Era mais do que provável que iria mais uma vez para o Cassino Alvorada, o mais renomado da cidade, onde os homens mais ricos da região jogam até voltarem com os bolsos vazios para casa.
Uma noite deslumbrante, um cassino radiante, e um homem desesperado, parecia mesmo ser o grande dia, foi aí que encontrei o velho Jorge Robles, um dos homens mais estúpidos que havia conhecido na minha vida.
Entre as cartadas, vem um e outro, se venci uma e se perde dez, imagina o saldo no fim?
Jorge Robles soube me enganar direito, aquele velho era muito esperto, além de ser podre de rico, não posso dizer que eu era assim tão ingênuo, sou apenas um homem que gosta de jogar, e por esse motivo, não conseguia parar... Nem quando a casa já havia levado tudo o que eu tinha...
Eu e Jorge, dois homens em uma mesa jogando até as últimas consequências, eu perdia, e o fazendeiro me convenceu a assinar promissórias, achei um gesto gentil e de confiança, nem ao menos as li, o homem parecia ter palavra, além de carregar um semblante muito sério.
O jogo acabou, odeio perder, mas o que aconteceu?! Ainda acredito na premissa ‘Perdeu-se uma batalha e não a guerra’, amanhã o Cassino iria abrir de novo, e iria tirar as calças daquele velhote, de uma maneira ou de outra, iria recuperar tudo o que tinha perdido naquela mesa...
Jorge se despediu de mim, e logo se foi, prometendo que amanhã eu poderia lhe propor uma revanche, fiquei com aquelas palavras circulando pela minha mente, também havia chegado a hora de ir embora, eu só pensava no amanhã...
Trocando as pernas, e não sabendo para onde ficava o norte ou o sul, fui até ao meu apartamento, que fica em uma das zonas mais cobiçadas de Alvorada, eu era um Bravo, e ainda mantinha as aparências, mesmo que tivesse verdadeiramente na bancarrota...
Me joguei na cama, não tirei os sapatos nem nada, só queria dormir, no outro dia, decidi não ir trabalhar, tinha certeza, que de alguma maneira estava com sorte, e a sorte era algo primordial na vida de um jogador, eu estava sentindo...
Mais uma noite de esplendor no Cassino Alvorada, mulheres bonitas, regado de muita bebida alcoólica, parecia mesmo o paraíso para alguém como eu. Percebi que Jorge me observava de longe, e me cumprimentou levantando o copo, um sinal de que estava me chamando para a mesa.
Não perdi o foco, fui ao encontro daquele homem tão singular, que parecia esconder suas intenções, como alguém que guarda as cartas na manga.
O jogo havia começado, jogadas pra lá e pra cá, e logo ficou claro que a sorte não queria dançar comigo naquela noite, parecia demasiado clichê para tal situação, mas a verdade era que eu não conseguia vencer uma, sequer uma. Já estava bêbado, e foi novamente quando Jorge começou gentilmente a me fazer assinar mais promissórias, eu não impus qualquer tipo de resistência, achava realmente que o velho não estava com segundas intenções, e nem que ele iria fazer uma coisa daquelas.
Mais uma noite, mais uma derrota, não tinha problema Lorenzo, Jorge me convidou para mais uma noite de jogos, e promissórias intermináveis, obviamente que eu iria pagar tudo o que devia, era uma questão de tempo, pelo menos era o que eu pensava naquela época.
No terceiro dia, como quando o galo canta e isso se torna o sinônimo de uma traição, fui como um cordeiro até aquele Cassino, Jorge Robles estava novamente a minha espera, lembro-me de seu semblante, e também do fumo que saia de seu cachimbo, ele havia ido até ali com um propósito, nem pelas mulheres e nem pelo jogo, seu interesse era outro, descobri tarde demais que eu era o seu alvo, por isso tanto foco da parte dele.
Enganos traições, grandes segredos, tudo isso era algo que vieram junto com aquele homem, tudo começou com ele, ele foi o início da minha desgraça, e logo de tudo aquilo que veio a acontecer.
Seus seguranças sempre compenetrados, naquela noite eu estava começando a desacreditar, estava derrotado, pressionado, com medo das reações, ‘e se descobrissem que a minha empresa estava falida?’ Seria o fim, seria o fim.
Joguei como se não houvesse amanhã, e pra mim não havia amanhã, pois tudo o que poderia esperar era o pior, eu precisava de um milagre, e não seria fácil conseguir esse tal milagre. Mais promissórias, mais promessas, e não consegui impedir mais uma derrota na mesa daquele cassino.
Me despedi de Jorge, que me disse com um ar misterioso e ao mesmo tempo pretensioso:
- O senhor me verá em breve senhor Bravo.
- Por que me diz isso, senhor Robles?!
- Porque as dívidas que nós fazemos nessa vida, nós pagamos nessa vida. E eu vou te procurar um dia, e você terá que me devolver tudo o que me deve!
- E eu vou pagar, não tenha medo! Eu assinei as promissórias, não foi?!
- O senhor está completamente bêbado! Nem se deu conta do que estava assinando!
- Eu bebo, e o senhor fuma, quem pode falar de quem?
- Talvez sua futura esposa não goste desse seu comportamento!
- Por favor senhor Robles, eu não nasci para me casar, e olha que não me faltaram oportunidades, várias mulheres morreriam para que eu me casasse com elas, e aqui estou eu, solteiro e feliz.
- As vezes, homens como você, precisam sofrer de amor, para tomarem jeito nessa vida! E eu digo por experiência própria, algumas vezes não somos nós que escolhemos o casamento, e sim o casamento que escolhe a gente! Assim é a vida, cheia de mistérios, se o destino não nos pega de um lado, ele nos pega do outro.
- Não acredito em destino senhor Robles, acredito que eu comando a minha vida, a meu bel-prazer.
- Não senhor Bravo, não é assim que a vida funciona, mas você ainda é muito novo para perceber como o mundo gira, e ele gira rápido, quando se nota, os cabelos brancos são mais freqüentes, o rio passou, sem que ninguém visse.
- De verdade, estou confuso, não sei do que o senhor está falando.
- Estou falando meu filho, que não tem coisa mais certa na vida, do que o ódio, é ele que alimenta homens como eu, e ele irá te alimentar um dia, e sabe por quê?! Porque quando olho pra você, me vejo no passado, logo eu, sou sua versão no futuro.
- Na verdade eu não acho que nós tenhamos alguma coisa em comum!
- Mais do que você imagina senhor Bravo, mais do que você
- E você pode me dizer o que nós temos em comum?!
- Bom, afortunadamente conheci o seu pai, fomos grandes amigos, e eu soube que acharam a verdadeira filha dele! Porque eu sei exatamente que vocês e seus irmãos não são filhos biológicos de Júlio Bravo.







