Capítulo 5
Ponto de vista de Rosalie

Sete anos depois.

— Mamãe, estou com fome.

Olhei para minha filha. Lucy tinha meus cabelos escuros, mas os olhos do pai. Os mesmos olhos castanhos profundos que me assombravam havia sete anos.

— Eu sei, querida. Vamos comer logo. Prometo.

Estávamos voltando a pé da escola. O trajeto levava quarenta minutos porque, naquele mês, eu não tinha dinheiro para pagar o passe de ônibus. Meus pés doíam dentro dos tênis gastos. Minhas costas ainda reclamavam por eu ter passado a manhã esfregando pisos.

Mas Lucy caminhava saltitante ao meu lado, contando alegremente como havia sido seu dia. Ela tinha seis anos e era linda.

Era o meu mundo inteiro, e o pai dela nem sequer sabia que ela existia.

Quando descobri que estava grávida, sete anos antes, fiquei apavorada. Quase contei ao meu pai e a Jeffery.

Então vi a publicação no Facebook.

Aiden King estava noivo de Elena Vasquez.

O anúncio estava por toda parte. Havia fotos dos dois em um baile militar. A mão dela repousava sobre o peito dele, exibindo um enorme anel de diamante, enquanto Aiden aparecia bonito e distante em seu uniforme de gala.

A legenda dizia: Ela disse sim. Eu não poderia estar mais feliz.

Fiquei horas encarando aquilo.

Ele esteve noivo durante todo aquele tempo. Quando me beijou, tirou minha virgindade e disse que eu era perfeita... Já tinha uma noiva.

E eu havia sido a outra sem nem sequer saber.

Foi naquele momento que tomei minha decisão.

Arrumei uma bolsa, peguei todo o dinheiro que havia juntado no trabalho de meio período na biblioteca e fui embora.

Não deixei um bilhete. Não me despedi de ninguém.

Eu simplesmente desapareci.

Mudei-me para um estado a três fronteiras de distância. Troquei de número. Apaguei todas as minhas redes sociais. Matriculei-me em uma faculdade comunitária usando o sobrenome de solteira da minha mãe. Encontrei um apartamento minúsculo. Consegui um emprego como garçonete.

E, nove meses depois, Lucy nasceu.

Meu pai me declarou desaparecida. Eu sabia porque havia visto os cartazes.

Cheguei a ligar para ele uma vez, de um telefone público, para dizer que estava viva e em segurança, mas que precisava de espaço. Ele implorou para que eu voltasse para casa.

Desliguei.

Isso havia acontecido seis anos antes. Desde então, eu não falava com ele.

Também não falava com Jeffery nem havia contado a ninguém da minha antiga vida onde eu estava.

Dizia a mim mesma que era melhor assim. Aiden havia deixado claro que não me queria. Então eu não obrigaria um homem a ser pai se ele não quisesse ser.

— Mamãe, olha! Um passarinho!

Lucy apontou, animada, para um pombo.

Apesar do cansaço, sorri.

— É um pombo, querida. Lembra? Nós vimos alguns no parque.

— Ah, é. Podemos ir ao parque neste fim de semana?

— Talvez.

Se eu conseguisse um turno extra. Se sobrasse dinheiro depois das compras. Ou... Se o universo resolvesse nos dar uma trégua, pelo menos uma vez.

Finalmente chegamos ao nosso prédio.

Era velho e malconservado. O elevador estava quebrado outra vez.

Subimos quatro lances de escada.

Dentro do nosso pequeno apartamento de um único cômodo, preparei para Lucy um sanduíche de pasta de amendoim com o resto do pão. Ela comeu feliz enquanto assistia a desenhos em nossa televisão antiga.

Sentei-me à mesa pequena e abri as correspondências que havia recolhido lá embaixo. Uma conta. Um aviso de atraso. Uma notificação de despejo.

Minhas mãos começaram a tremer.

Era a segunda notificação.

Se eu não pagasse o aluguel até o fim da semana, estaríamos na rua.

Eu tinha duzentos dólares na conta bancária, enquanto o aluguel era de oitocentos.

Escondi o rosto nas mãos.

Eu havia me esforçado tanto. Concluíra um curso superior de curta duração e me tornara professora de artes no ensino fundamental.

Mas o salário era péssimo, e nunca havia horas suficientes.

Por isso, arranjei um segundo emprego limpando quartos de hotel nos fins de semana e à noite.

Lucy ficava com nossa vizinha, a senhora Willow, uma idosa gentil que se recusava a aceitar qualquer pagamento.

Mesmo assim, ainda não era suficiente.

— Mamãe? Por que você está triste?

Levantei os olhos. Lucy estava ao meu lado, com a preocupação estampada no rostinho.

— Não estou triste, querida. Só estou cansada.

— Você está sempre cansada.

— Eu sei. Desculpa.

Ela subiu no meu colo e passou os braços ao meu redor.

Meu coração se partiu. Ela merecia muito mais do que aquilo.

Mais do que um apartamento apertado, com a tinta descascando, e macarrão com queijo cinco noites por semana.

Mais do que uma mãe cansada demais para brincar com ela.

Ela merecia um pai, mas eu não podia voltar.

Não podia encarar Aiden nem vê-lo rejeitar Lucy da mesma forma que havia me rejeitado.

Naquela noite, depois que Lucy adormeceu em nossa cama, sentei-me na escada de incêndio e chorei durante horas.

Eu havia cometido tantos erros. Amar Aiden, dormir com ele, fugir e acreditar que conseguiria fazer tudo sozinha.

Mas precisava continuar, por Lucy. Pela minha filha.

No dia seguinte, pediria mais horas ao meu chefe. Venderia meu notebook, daria um jeito. Eu sempre dava.

Na manhã seguinte, deixei Lucy na escola e fui para meu emprego de fim de semana no Grandview Hotel.

Era o hotel mais sofisticado da cidade. O tipo de lugar em que eu jamais teria dinheiro para me hospedar.

Troquei de roupa, vesti o uniforme da equipe de limpeza e peguei o carrinho.

Meu supervisor, senhor Gregor, parou-me no corredor.

— Rivers. Sala de Conferências Três. Agora.

Um nó se formou em meu estômago.

— Eu fiz alguma coisa errada?

— Apenas vá.

Minhas pernas tremiam enquanto eu seguia até a sala de conferências.

Será que eu seria demitida? Eu não podia perder aquele emprego. Precisava dele.

Bati à porta.

— Entre.

Abri a porta... E meu mundo parou.

Sentado à mesa de reuniões, vestindo um terno caro e parecendo mais velho, mais duro e muito mais perigoso do que eu me lembrava, estava Aiden King.

Nossos olhares se encontraram. Naquele instante, sete anos de fuga e esconderijo desapareceram de uma vez.

— Olá, Rosie. — Disse ele suavemente.

— Precisamos conversar.

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