Nenhum Rio Volta Atrás
Nenhum Rio Volta Atrás
Por: Pêssego e Perinha
Capítulo 1
Quando o eco do terceiro toque do sino finalmente se perdeu no ar, algumas mulheres que estavam na margem me levaram até o vestiário improvisado.

As roupas encharcadas pesavam no meu corpo, grudadas à pele, e meus dedos estavam cheios de areia e lama.

Maria me envolveu com uma manta grossa e estava prestes a me ajudar a secar o cabelo quando Francisco, o mordomo da família Alves, entrou apressado.

— Sra. Luana, hoje a cidade está cheia de gente. Sobre o que você disse agora há pouco...

Levantei a mão, interrompendo ele.

Tirei a placa de madeira presa à minha cintura e coloquei sobre a mesa.

A água tinha escurecido justamente a parte onde meu nome estava gravado.

— Por favor, chame o responsável pelo registro civil e peça para retirar meu nome dos registros da família Alves.

A expressão de Francisco mudou, e ele abaixou ainda mais a voz.

— O Sr. Henrique só estava nervoso naquele momento. Se você realmente levar esse divórcio adiante, como a família Alves vai ficar diante de todos?

A cortina do vestiário foi aberta de repente.

Henrique entrou.

Ainda havia cinzas do incenso queimado no barco do desfile grudadas no ombro dele.

O olhar dele passou rapidamente pelos meus lábios pálidos e depois caiu sobre a placa de madeira.

— Você está com tanta pressa assim para se divorciar de mim?

Não respondi.

Mas minha mente voltou, contra a minha vontade, para a vida passada.

Naquela vida, foi depois daquela queda no rio que comecei a tossir sem parar.

No inverno, eu sempre sentia o peito apertado.

Nos períodos de chuva contínua, passava noites inteiras sem conseguir dormir.

Mais tarde, Henrique chegou a chamar médicos para mim e ficou algumas noites ao lado da minha cama.

Naquela época, sempre que ele demonstrava um pouco de carinho, eu achava que os seis anos de sofrimento finalmente tinham valido a pena.

Agora, pensando melhor, percebo que eu aceitava muito pouco.

Maria falou em voz baixa:

— Sr. Henrique, a Luana está completamente molhada. Deixe ela trocar de roupa primeiro.

Henrique voltou a olhar para mim e ficou em silêncio por alguns segundos.

Ele tirou o casaco e levantou a mão como se fosse entregar para mim, mas pareceu se lembrar de alguma coisa.

No fim, apenas colocou a peça sobre o encosto da cadeira.

— Se ela ainda tem energia para usar as regras contra mim, então não vai morrer de frio.

A movimentação do lado de fora foi diminuindo aos poucos.

Um parente mais velho da família Alves entrou apoiado em uma bengala, acompanhado por alguns responsáveis pela comissão do desfile.

— Luana, ao longo dos anos, você não foi a única pessoa que caiu na água durante o desfile. No passado, ninguém realmente usou essa regra para terminar um casamento. As pessoas conversavam em particular, resolviam tudo e deixavam o assunto para trás.

Apertei a manta ao redor do corpo e encarei ele.

— Se essa regra pode decidir quem fica com a Mansão dos Alves, então ela também deve proteger a minha dignidade. Não importa quem seja a pessoa envolvida, a regra precisa valer da mesma forma.

O homem mais velho ficou sem resposta por um instante, e sua expressão também ficou séria.

Henrique soltou uma risada baixa de repente, caminhou até a mesa e pegou a placa de madeira.

— Seis anos se passaram, e você escolheu justamente hoje para pedir o divórcio. Por quê? Porque sabe que o Rafael está prestes a voltar?

Achei aquela acusação absurda.

— O que isso tem a ver com ele?

Henrique abaixou os olhos e passou o polegar com força sobre o meu nome gravado na placa.

— Você esperou seis anos, não foi? Esperou por uma oportunidade para sair do meu lado sem que ninguém pudesse culpar você. Agora que está divorciada, quando ele voltar, vai poder dizer que, naquela época, você se casou com a pessoa errada.

Minha garganta ainda carregava o gosto da água do rio.

Durante seis anos, nunca procurei Rafael por vontade própria.

Também evitava mencionar o nome dele na frente de Henrique.

Mas, aos olhos dele, quanto mais eu tentava evitar qualquer suspeita, mais parecia que eu escondia alguma coisa.

Eu costumava acreditar que, com tempo suficiente, Henrique acabaria confiando em mim.

Na vida passada, ouvi todos os conselhos.

Diziam que Henrique apenas falava coisas duras porque não sabia demonstrar sentimentos.

Diziam que ele devia estar magoado por ter assumido o lugar de Rafael na cerimônia e que, se eu tivesse mais paciência, um dia ele entenderia quem realmente se importava com ele.

Então aguentei seis anos.

Depois, aguentei mais dezesseis anos.

Até meu corpo não suportar mais.

Mas, no fim, a pergunta dele continuava sendo a mesma: Se eu tinha me arrependido de não ter me casado com Rafael.

Baixei os olhos e não quis mais explicar nada.

Quando levantei a cabeça novamente, meu coração já estava em paz.

— Me devolva a placa. Eu mesma vou resolver os documentos.

Henrique não soltou.

Nesse momento, Isabela Pereira saiu de trás da multidão segurando um lenço limpo.

Ela pressionou delicadamente o ferimento na mão dele.

— Primeiro cuide desse corte. A Luana acabou de sair da água, provavelmente está confusa por causa do frio. Não precisa discutir com ela.

Ela era a única filha do antigo dono da oficina de barcos e cresceu junto com Rafael e Henrique.

Durante todos os anos em que Henrique ficou responsável pela oficina, Isabela praticamente esteve ali todos os dias.

Ela se virou para mim com uma voz que parecia extremamente gentil.

— Primeiro troque essa roupa molhada. Vocês dois não podem conversar isso em casa? Precisavam transformar tudo nessa situação diante da cidade inteira? No fim, quem vai passar vergonha é você.

Não aceitei a sugestão dela.

— Esse é um assunto da família Alves. Você não precisa se envolver.

A mão de Isabela ficou imóvel por um instante.

Henrique puxou a mão de volta e colocou a placa sobre a mesa.

Ele me encarou, como se esperasse ver algum arrependimento no meu rosto.

— Se você quer transformar isso em um problema, eu vou acompanhar. Tudo que você teve durante esses anos foi proporcionado pela família Alves. E aquela oficina de guarda-chuvas? Também pertence à minha família. Quer se divorciar? Tudo bem. Mas primeiro vamos acertar as contas.

Ele tinha certeza de que eu não teria coragem de aceitar.

Mas apenas assenti.

— Amanhã à tarde, vamos acertar as contas na oficina de guarda-chuvas.

Os olhos de Henrique ficaram mais escuros.

— Você realmente quer fazer as contas comigo?

Peguei a placa de madeira de volta das mãos dele. Minha voz permaneceu calma.

— Claro. Assim você também vai entender quem realmente sustentou quem nesses seis anos.

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