Capitulo 5
Ele não respondeu.
Apenas virou as costas e caminhou até a porta. Mas antes de sair, parou. Por um segundo, apenas um segundo, ele olhou para a flor. A aba do chapéu escondia seus olhos, mas o peso do seu olhar recaiu direto sobre mim. Suas mãos, sempre cobertas pelas luvas de couro, estavam cruzadas nas costas. Havia uma rigidez diferente em sua postura. Um alerta.
— Maelyn Tafyllo — a voz dele cortou o ar, calma e gélida. — Você sabe qual é a sua função nesta casa? E por que sua presença está me causando problemas de segurança antes mesmo de você se recuperar?
Eu engoli seco, sentindo a voz sumir na garganta.
— Eu... — tentei, mas desviei o olhar. — Sei que estou aqui porque o senhor me tirou daquela prisão. Sei que devo obedecer suas regras.
— E criar tumulto com a criadagem faz parte dessas regras? — Ele deu um passo à frente, a distância regulamentar de dois metros que ele sempre mantinha, como se eu fosse perigosa. — Uma das camareiras foi flagrada com fotos suas no celular. Fotos tiradas aqui dentro. Minha casa deveria ser um forte, não um ninho de fofocas para o mercado de tablóides.
Meu estômago despencou. Azael. Se aquelas fotos saíssem...
— Eu não fiz nada — murmurei, a voz saindo fraca, cansada demais para lutar contra o peso do mundo. — Eu não pedi para ninguém me fotografar. Eu só... queria que me deixassem em paz, então porque esta me repreendendo como se eu tivesse alguma culpa?
Magnus não respondeu imediatamente.
Mas eu vi. Seus dedos enluvados se fecharam brevemente em punho ao lado do corpo, um gesto rápido de impaciência que ele tentou disfarçar. Ele deu mais um passo, quebrando de leve a própria regra de distância, e parou bem diante da minha cama. O corpo dele, imponente e largo, acabou criando uma barreira entre mim e a porta, como se me isolasse do resto do mundo.
— Se tem uma coisa que não tolero nesta casa — continuou ele, a voz controlada até o limite —, são distrações. Você deveria estar grata, Maelyn. Grata por ter um teto, comida e tratamento, em vez de apodrecer em uma cela. Mas sua mera existência aqui está atraindo os olhos errados. Se os funcionários começarem a falar, o que você acha que eu devo fazer?
Olhei para a figura impecável à minha frente. Para o mistério daquele rosto oculto. E algo dentro de mim simplesmente... desistiu. Eu já tinha sido a culpada na mansão de Azael. Já tinha sido a culpada no tribunal. Por que aqui seria diferente? Não sei o que disseram para e estar tão irritado.
Abaixei a cabeça, fitando as minhas próprias mãos pálidas.
— Já estou bem acostumada com isso. O senhor tem razão. Devo ser grata. Peço desculpas pelo transtorno. Se for mais fácil me devolver para a cela...
Um silêncio abrupto e sufocante caiu sobre o quarto.
Por um segundo, a postura rígida de Magnus hesitou.
Houve um leve tilt em sua cabeça, um recuo imperceptível. Eu arrisquei olhar para cima e vi, os nós de seus dedos enluvados estavam brancos sob o couro, tamanho o aperto de seus punhos.
— O quê? — a voz dele saiu mais baixa, quase áspera.
— Nada. — Desviei os olhos de novo. — O senhor tem razão. Faça o que achar melhor. Não vou mais argumentar.
— Faz diferença para você? — perguntou ele, e havia uma nota cortante na sua voz. Como se a minha falta de reação o estivesse agredindo pessoalmente.
— Nenhuma. Eu não sou nada nesta casa, senhor Blackthone. Se é mais fácil me culpar para manter a ordem dos seus funcionários, que seja, mas não tenho nem um pingo de culpa se seus funcionários não tem discrição.
Magnus travou o maxilar de forma tão visível que o contorno de seu rosto tencionou sob a sombra do chapéu. Ele se virou abruptamente para Bruno, que aguardava perto da porta como uma estátua.
— Já que ela aceita qualquer transigência... mude-na de quarto — ordenou Magnus, a frieza retornando com força total. — Reserve um quarto simples no primeiro andar. Parece que cometi um erro em lhe dar qualquer privilégio se você é tão passiva diante da própria vida.
Aquelas palavras doeram, mas eu não demonstrei. Apenas assenti.
Magnus deu as costas e saiu a passos largos, sem olhar para trás. Bruno me deu um aceno breve e tenso antes de segui-lo.
Quando a porta se fechou, olhei para o quarto luxuoso à minha volta. As cortinas de seda, a luz ampla.
Tudo isso iria embora. Eu seria realocada para o primeiro andar, confinada a um espaço menor, mais isolado.
Mas enquanto eu reunia as poucas coisas que me pertenciam, uma certeza antiga e desgastada se consolidou no meu coração, Não importa para onde eu fuja, eu sempre carrego a culpa.
No corredor, longe dos ouvidos de Maelyn, Magnus caminhava tão rápido que Bruno precisava apressar o passo para acompanhá-lo.
— O que quer que eu faça com a equipe, senhor? — Bruno perguntou em voz baixa.
— Quero todos os envolvidos demitidos até o final do dia — Magnus respondeu, a voz destilando puro veneno. — Pague pelo silêncio deles, use os contratos de confidencialidade da M&B. Se uma única foto daquela mulher vazar para os homens de Azael, eu mesmo destruo a carreira de cada um deles.
— Sim, senhor. Mas... mudar a senhora Tafyllo de quarto não foi radical demais?
Magnus parou de andar abruptamente, virando-se para o assistente. Sob o chapéu, seus olhos faiscaram.
— Foi o necessário, Bruno. Se eu a mantivesse no quarto principal depois do que houve, os funcionários demitidos sairiam daqui espalhando que ela é minha protegida. Azael está caçando-a como uma foragida. Rebaixá-la aos olhos da casa é a única forma de fazê-la parecer insignificante para quem olha de fora. É para a segurança dela.
Bruno hesitou, medindo as palavras.
— Ainda assim... o senhor foi duro. Ela parecia... quebrada o suficiente com tudo que já tinha acontecido.
Magnus apertou os punhos dentro dos bolsos do paletó, sentindo um gosto amargo na boca.
A imagem dela abaixando a cabeça e aceitando a culpa sem lutar queimava em sua mente.
— Ela precisa parar de aceitar os golpes do mundo como se os merecesse — murmurou Magnus, quase para si mesmo, antes de retomar o passo. — E descubra tudo o que Azael fez com ela naquela casa. Quero o relatório completo na minha mesa, não sei como Maelyn mudou tanto a ponto de simplesmente aceitar que lhe tratem de qualquer jeito.