Mundo de ficçãoIniciar sessão
SANGUE JORRAVA EM TODAS AS DIREÇÕES.
A garganta de um cavaleiro qualquer estava entreaberta pelo punhal do inimigo. Havia tantos homens igualmente mortos ao redor, tantos servos feridos e inocentes por uma luta pela qual não tinham culpa. Vidas corriam perigo devido às terras mais cobiçadas. Era fácil julgar que elas eram as mais importantes quando várias pessoas jaziam deitadas sobre o próprio sangue. Havia apenas as terras e como adquiri-las. Havia espadas, luta e morte. Ian Valadares tentava impedi-los de tomarem posse das terras dele. Não existia nenhuma Lei que o fizesse sair daquele lugar. Ele devia matar sem lamentos os culpados que tentavam roubar o que lhe pertencia — exatamente como fizera com tantos outros. Não teria alcançado o título de Senhor dos Vales se não tivesse conquistado-a. Não seria considerado o Senhor Valadares se não tivesse a tomado; e, como tal, ele agia como um verdadeiro nobre de renome, porém insolente o bastante para não se preocupar com a guerra que estava travando. Meses atrás, uma mulher lhe disse que aquelas terras não lhe pertenciam, e que ele deveria devolvê-las para os verdadeiros donos. Ian, claro, não acreditou. Dificilmente daria ouvidos a uma desconhecida que falava sozinha. Pouco tempo depois, no entanto, um velho ranzinza chegou na casa dele para alertá-lo do perigo que era manter-se ali com todos os servos. Mas, novamente, Ian não se importou. Ian não iria embora mesmo que o terror tomasse forma humana e decidisse aparecer naquela região que era dele por direito de linhagem, sangue e poder. Além do mais, sair daquele lugar era deixar que os vizinhos estúpidos reivindicassem tudo, já que dificilmente se manteriam longe depois que soubessem que o senhor daquelas terras havia partido. Era por isso que Ian lutava pelo o que era dele. Que se fodam todos, tudo isso tudo me pertence!, pensava enquanto atacava. O cavalo, Chama Negra, relinchava arrebatado devido ao cheiro de sangue que tinha em todos os lugares. Ian o impediu de fugir, galopando adiante, matando alguns homens que tentavam lhe derrubar, salvando os guerreiros de um ou outro, atirando punhais certeiros nos inimigos. Era um exímio lutador, e sabia exatamente como utilizar uma espada. Os olhos dele fitavam um alvo e o matava; depois outro, e o mesmo destino acontecia. Era evidente que o perigo se apossou daquelas terras; e como se não bastasse, não muito longe dali, algo era invocado. * Sangue e fogo eram tudo o que precisava para libertá-los. Ao fazê-lo, poderia saldar a dívida que mantinha com aquelas pessoas e finalmente tomaria o próprio destino. No entanto, ainda estava presa a um ritual complicado e cansativo. Kalidh era o nome que lhe deram assim que foi salva da fogueira. Em uma acusação injusta, lhe incriminaram de praticar bruxaria contra uma jovem e foi condenada por isso. Kalidh devia saber que as boas intenções daquela mulher eram falsas, caso contrário, não estaria sofrendo. Se tivesse ideia de que aquela bela jovem havia manipulado Frankie e a família, não teria passado por toda aquela dor. Kalidh não teria perdido as filhas. Ainda assim, estava claro para ela que não poderia ficar naquela região por muito tempo — exceto o necessário. Kalidh finalmente percebeu que a lua estava escura. Por causa do eclipse, agora era tão negra quanto a fumaça que saía daquele círculo de fogo e sangue que pairava no chão. As pessoas ao redor formavam parte do ritual, oferecendo um pouco da energia para fortalecê-lo. Energia vinda dos próprios talentos, dos dons, da magia. Embora não fizesse parte de qualquer família, Kalidh sabia na qual estava inserida. As mulheres murmuravam o Velho Cântico, e clamavam para que os filhos dele, que foram presos injustamente, fossem libertos para governar a Terra. Filhos que foram condenados a viver na escuridão para sempre. Assim como eu, quando a vida das minhas filhas foram roubadas, pensou Kalidh. O vento gélido que soprava naquela noite parecia congelar os ossos de cada uma que estava presente, mas ela não podia falhar! Faltava pouco para cumprir o ritual e em breve poderia vingar-se. Muito embora a aparência de Kalidh não fosse mais a mesma, ela sabia que ao encontrar Frankie e contá-lo exatamente o que aconteceu, ele puniria a culpada como realmente merecia — e Kalidh estaria lá para fazer a parte dela. Para matá-la. Pensar naquilo fez com que o fogo aumentasse. Junto aos murmúrios do canto, ela se pôs a dançar ao redor das chamas, exalando a energia misturada ao sabor da ira do coração. Passou muito tempo assim: pensando, dançando, sentindo a magia pulsar nas veias. Quando o Cântico terminou, um trovão retumbou o céu escuro indicando a chuva. Foi questão de instantes para que a água apagasse o fogo Elas ficaram molhadas — inclusive os novos integrantes que estavam dentro do círculo que antes estava vazio. Todas pareciam se curvar perante as sete beldades — somente Kalidh ficou tão estupefata a ponto de se esquecer de tal reverência. As figuras que viam a fez entrar numa espécie de catatonia e, então, várias imagens varreram a mente dela. Eles eram aqueles que foram condenados: os filhos do Deus Mondha. E estavam aqui para governar.






