Logo após deixar o hospital, Rafaela recebeu a ligação da agência confirmando que o seu visto estava pronto.
Com todos os documentos recuperados e organizados, ela começou a arrumar as malas em silêncio. As folhas do calendário sobre a mesa eram arrancadas dia após dia, revelando o fim de mais um ano e a iminência de sua partida definitiva da cidade onde havia construído toda a sua vida nas últimas duas décadas.
Durante aquela semana inteira, Bernardo não voltou para casa uma vez sequer.
Em compensação, Natacha fazia questão de enviar mensagens provocativas todos os dias. Faltando sete dias para a viagem, ela mandou um vídeo onde Bernardo aparecia ajoelhado, massageando a perna da amante com uma delicadeza ímpar.
Enquanto assistia àquela cena, Rafaela reuniu todas as roupas e objetos que havia comprado para Bernardo ao longo dos anos e jogou tudo no lixo sem hesitar.
No quinto dia antes da partida, chegaram fotos de uma caixa de joias luxuosa, acompanhadas de uma imagem do próprio Bernardo colocando um anel no dedo de Natacha.
Como resposta silenciosa a isso, Rafaela estilhaçou o porta-retratos com a foto do seu casamento e atirou os restos nas chamas da lareira.
Já no terceiro dia, a provocação veio em formato de áudio, revelando a voz do marido adormecido murmurando o nome da amante com um afeto profundo.
Diante disso, Rafaela empacotou cada um dos presentes que recebeu dele após o matrimônio e enviou tudo para instituições de caridade.
Aquela mansão espaçosa, que um dia ela chamou de lar, foi se esvaziando aos poucos até restar apenas uma mala e poucas coisas no canto do quarto.
Ao notarem a casa perdendo a vida, os funcionários começaram a se preocupar e perguntaram algumas vezes o que estava acontecendo.
— É apenas um divórcio. — Rafaela respondeu com um sorriso leve e um tom de voz despreocupado.
— E o senhor Bernardo já concordou com isso, dona Rafaela? — Indagou uma das empregadas, com o cenho franzido de aflição.
Se ele havia concordado ou não, ela não fazia a menor ideia. No entanto, imaginava que, se Bernardo visse os papéis do divórcio assinados naquele instante, ficaria bastante satisfeito. Afinal, o coração e os olhos dele pertenciam apenas a Natacha agora.
No penúltimo dia, mais uma notificação brilhou na tela do celular. Dessa vez, a câmera não focava em Bernardo, mas sim nos pais dele, todos reunidos ao redor da cama do hospital em meio a risadas e conversas animadas.
Observar aquela cena familiar tão íntima não causou nenhuma dor no peito de Rafaela. Sem emitir qualquer resposta, ela apenas abriu a lista de contatos e apagou os números de Natacha, do marido e de qualquer outra pessoa ligada àquela família.
O dia da partida amanheceu sob a primeira nevasca do ano. Aproveitando o ar gélido da manhã, Rafaela levou para o quintal todos os diários e cartas de amor não enviadas que havia separado na noite anterior.
O brilho alaranjado das chamas iluminou o seu rosto pálido enquanto o fogo consumia as palavras repletas de uma ingenuidade que não existia mais. Com o rosto erguido para o céu cinzento, ela observou os flocos de neve caindo sem parar, calculando em silêncio quanto tempo levaria para que o manto branco cobrisse as cinzas de seu passado.
O barulho do portão principal se abrindo de súbito a tirou de seus devaneios. Era Bernardo, retornando a casa após semanas de ausência, caminhando com passos apressados em direção à porta da frente.
Ele lançou um olhar rápido para a esposa agachada no jardim antes de entrar na sala de estar, mas retornou logo em seguida para parar ao lado dela. Ao notar os envelopes de tom rosado sendo consumidos pelo fogo, uma memória antiga de uma carta entregue em uma reunião de colegas invadiu a mente do homem, fazendo com que a raiva guardada por tantos dias desse lugar a uma brandura inesperada.
— Tenho andado muito ocupado com o trabalho. — Bernardo quebrou o silêncio, pigarreando de leve. — Quando as coisas acalmarem daqui a alguns dias, sentamos para conversar com calma.
Conversar sobre o quê? Sobre o divórcio?
Rafaela abriu um sorriso contido, ergueu o olhar para encontrar o do marido e respondeu com uma voz desprovida de qualquer emoção:
— Não precisamos conversar sobre nada. Aquilo que você mais desejava no mundo, eu já deixei nas suas mãos há um mês.
As palavras soaram confusas para Bernardo. Ele estava prestes a perguntar do que ela estava falando, mas o som das notificações de seu celular interrompeu o momento. Ao ler a mensagem na tela, um sorriso largo se formou em seu rosto.
Notando a expressão de pura alegria do homem, Rafaela atirou as últimas cartas na fogueira e se levantou, usando o volume da saia de seu vestido para esconder as chamas que ainda ardiam às suas costas.
Quando ele terminou de digitar a resposta, o papel já havia virado cinzas, e a curiosidade sobre o que a esposa dissera sumira de sua mente por completo.
Como se nada estivesse acontecendo, Rafaela o acompanhou até a saída e fez questão de abrir a porta do carro para ele.
Uma lufada de vento gelado atingiu os dois, fazendo Bernardo reparar nas roupas finas que a esposa vestia. Com um tom de voz preocupado, ele pediu para que ela entrasse em casa e se protegesse do frio, mas Rafaela insistiu em permanecer ali no portão.
Pelo vidro fechado da janela do carro, ele a viu acenar com a mão e mover os lábios, pronunciando algo em um murmúrio quase inaudível.
Bernardo não conseguiu escutar as palavras exatas, mas deduziu que fosse apenas o clássico pedido para que dirigisse com cuidado, uma recomendação que escutara milhares de vezes ao longo dos três anos de casamento, por isso não deu importância.
O motor roncou e o veículo se afastou rápido, desaparecendo da vista dela em poucos segundos.
Rafaela permaneceu parada no meio da neve por um longo tempo antes de entrar na mansão vazia. Ela subiu até o quarto, vestiu um casaco pesado e desceu as escadas puxando a sua única mala de rodinhas.
A nevasca havia ganhado força, e os flocos brancos que pousavam em seus cabelos davam a ilusão de fios grisalhos para quem observasse de longe. O táxi já a aguardava do lado de fora. Antes de entrar no banco de trás, ela virou o rosto para contemplar a fachada da casa pela última vez e repetiu a frase sussurrada minutos atrás:
— Adeus para sempre, minha cidade. Adeus para sempre, Bernardo.