Fantasmas Nunca Morrem

O apartamento de Valentina ficava no último andar de um dos prédios mais luxuosos de Seul.

Silencioso.

Escuro.

Minimalista.

Grandioso demais para parecer confortável.

As luzes da cidade atravessavam os enormes vidros da sala enquanto ela caminhava lentamente pelo ambiente, ainda usando o vestido branco do evento.

Os saltos ecoavam no mármore frio.

Ela largou a bolsa sobre o sofá sem delicadeza alguma.

O celular vibrava sem parar.

Chamadas.

Mensagens.

Pedidos desesperados da equipe.

A internet inteira parecia em chamas.

Valentina ignorou tudo.

Caminhou até o bar particular próximo à janela e serviu whisky puro em um copo baixo.

Sem gelo.

Sem pressa.

Então finalmente abriu novamente o vídeo de Lee Hwan.

O influenciador aparecia sorrindo para a câmera como alguém orgulhoso demais por estar destruindo uma bomba ao vivo.

— “A BeautyCrown esconde muito mais do que maquiagem de luxo…”

Valentina pausou o vídeo.

Os olhos escuros permaneceram fixos na tela.

Frios.

Vazios.

Ela não sentia raiva da exposição.

Não sentia medo da imprensa.

Não sentia ansiedade.

O que sentia era algo muito pior:

Necessidade de controle.

E Lee Hwan havia mexido exatamente na única coisa que ela não permitia que ninguém tocasse.

Ela pegou o celular novamente.

Uma nova mensagem havia chegado.

“Nome completo: Lee Hwan. 29 anos. Ex-jornalista digital. Duas denúncias por difamação. Dívida alta com apostas. Relacionamento secreto com uma atriz casada. Dois seguranças particulares. Rotina diária enviada em anexo.”

Valentina sorriu levemente.

Doce.

Quase bonita demais para combinar com o que passava pela mente dela naquele instante.

Ela abriu os arquivos.

Fotos.

Endereços.

Horários.

Pessoas próximas.

Hábitos.

Fraquezas.

Perfeito.

— Você deveria ter escolhido outra pessoa pra brincar… — murmurou baixinho.

Então apoiou o copo sobre a bancada e caminhou lentamente até a enorme janela da sala.

A vista de Seul brilhava abaixo dela.

Linda.

Fria.

Artificial.

Assim como quase tudo na vida dela.

E, inevitavelmente…

As lembranças voltaram.

Flashs rápidos.

Fragmentados.

O cheiro forte de álcool.

O som de vidro quebrando.

A voz grave do pai ecoando pela mansão.

— Você é igual à sua mãe. Fraca.

Valentina tinha apenas nove anos quando aprendeu a olhar para alguém sem sentir absolutamente nada.

O pai, Kang Ji-hoon, era um dos empresários mais ricos da Coreia.

Temido.

Influente.

Violento.

A fortuna da família parecia infinita.

Mas dentro da mansão…

Existia apenas silêncio, luxo e crueldade.

A mãe dela, Helena Azevedo, era brasileira.

Elegante.

Gentil.

E absurdamente infeliz.

Valentina lembrava do perfume floral da mãe.

Das mãos suaves arrumando seus cabelos.

E dos olhos cansados escondendo tristeza todos os dias.

Até o dia em que ela morreu.

Oficialmente, problemas de saúde.

Mas Valentina nunca acreditou completamente nisso.

Depois da morte da mãe…

Restou apenas o pai.

E ele nunca realmente enxergou a filha como filha.

Ela era um detalhe.

Uma obrigação.

Algo que existia pelos corredores da casa sem importância suficiente para receber afeto.

Ji-hoon preferia bebidas.

Negócios.

Mulheres.

Controle.

E violência.

Então veio o acidente.

Uma madrugada chuvosa.

Carro destruído numa estrada.

Morte instantânea.

Os jornais chamaram de tragédia.

Valentina chamou de inevitável.

Porque homens como o pai dela sempre acabavam destruindo a si mesmos.

E ainda assim…

Ele deixou tudo para ela.

Toda a fortuna.

Empresas.

Ações.

Dinheiro suficiente para comprar países inteiros se quisesse.

Mas quem realmente a criou depois disso foi a avó.

Yoon Mi-cha.

A única pessoa que jamais tentou controlá-la.

A avó nunca perguntava sobre sentimentos.

Nunca falava sobre dor.

Ela apenas ensinava sobrevivência.

— Pessoas boas morrem rápido, Valentina. As inteligentes vivem mais.

E Valentina aprendeu.

Aprendeu rápido demais.

O celular vibrou novamente.

Outra mensagem da equipe.

“Lee Hwan marcou nova transmissão ao vivo para amanhã.”

Os olhos dela escureceram minimamente.

Então ela pegou o copo de whisky outra vez.

Observando o reflexo da própria imagem no vidro da janela.

Linda.

Calma.

Perigosa.

E pela primeira vez naquela noite…

Ela pensou em Kang Min-jae.

No olhar frio dele.

Na forma como ele parecia enxergar coisas que os outros não enxergavam.

Aquilo a incomodava.

Mas também…

Despertava curiosidade.

Porque homens normalmente olhavam para ela com desejo.

Admiração.

Interesse.

Min-jae olhava com desconfiança.

Como se estivesse esperando o momento exato em que ela mostraria os dentes.

E talvez ele fosse o único homem naquela cidade inteligente o bastante para perceber…

Que ela nunca foi a mocinha da história.

No dia seguinte...

A chuva começou antes do amanhecer em Seul.

Fina.

Constante.

Transformando as ruas da cidade em reflexos frios de neon e concreto.

No alto do apartamento, Valentina permanecia acordada.

Sentada no sofá da sala escura.

Uma taça de whisky intacta sobre a mesa.

E o tablet aberto diante dela exibindo cada detalhe da vida de Lee Hwan.

Ela havia passado horas analisando tudo.

Rotina.

Pessoas próximas.

Horários.

Padrões.

Mentiras.

Porque toda pessoa tinha um ponto fraco.

E ela adorava encontrar exatamente onde doía.

O relógio marcava 5h12 da manhã quando o celular vibrou novamente.

“Lee Hwan saiu de casa.”

Valentina levantou lentamente.

A expressão tranquila.

Delicada.

Como alguém prestes a encontrar um velho amigo.

Uma hora depois, um carro preto estacionava discretamente do outro lado da rua de um prédio comercial em Gangnam.

Dentro dele, Valentina observava.

Lee Hwan caminhava sorrindo pela calçada enquanto falava ao celular.

Confiante.

Arrogante.

Achando que estava vencendo.

Ela inclinou levemente a cabeça.

Quase curiosa.

Como alguém estudando um animal antes do abate.

— Ele realmente acredita que pode me destruir… — murmurou baixinho.

Então desbloqueou o celular.

Uma chamada de vídeo foi iniciada imediatamente.

Do outro lado, um homem de terno apareceu.

— Senhora.

— O material foi enviado?

— Sim.

— E a atriz?

— Já recebeu tudo.

Valentina sorriu suavemente.

— Ótimo.

Então desligou.

Sem emoção alguma.

Sem culpa.

Porque Lee Hwan adorava destruir reputações.

Ela apenas devolveria o favor.

Exatamente vinte minutos depois…

O celular do influenciador começou a tocar sem parar.

Ele franziu a testa enquanto atravessava o lobby do prédio.

Outra ligação.

Outra.

Outra.

O sorriso começou a desaparecer.

Valentina observava de dentro do carro.

Calma.

Atenta.

Então finalmente viu.

O exato momento em que ele abriu uma notícia no celular.

E empalideceu.

Perfeito.

Na internet, dezenas de portais haviam acabado de publicar fotos dele entrando em hotéis com a atriz casada.

Conversas privadas.

Transferências bancárias suspeitas.

Prints antigos manipulando informações para extorquir celebridades.

Até denúncias anônimas começaram a surgir.

A reputação dele estava sendo destruída em tempo real.

Exatamente como ele fizera com os outros durante anos.

Lee Hwan começou a olhar ao redor nervosamente.

Confuso.

Tentando entender de onde o ataque vinha.

O celular não parava de tocar.

Mensagens explodiam na tela.

A hashtag com o nome dele já estava entre os assuntos mais comentados da Coreia.

Valentina observava tudo em silêncio absoluto.

Então finalmente abriu a porta do carro.

Os saltos tocaram o asfalto molhado lentamente.

Lee Hwan ergueu os olhos.

E congelou.

Ela caminhava na direção dele usando um sobretudo preto elegante, os cabelos escuros presos num coque baixo impecável.

Linda.

Fria.

Assustadoramente calma.

O influenciador tentou recuperar a postura.

— Você—

— Bom dia, Hwan — interrompeu ela suavemente.

A voz doce contrastava perigosamente com os olhos vazios.

Ele engoliu seco.

— Foi você?

Valentina inclinou levemente a cabeça.

— Você realmente esperava atacar minha empresa e continuar dormindo tranquilo?

— Você não pode fazer isso comigo.

Ela sorriu.

Pequeno.

Delicado.

Psicopata.

— Acabei de fazer.

O rosto dele começou a endurecer de raiva.

— Você acha que venceu? Eu ainda tenho documentos.

— Tem?

Ela deu mais um passo.

Próxima demais agora.

O perfume suave dela misturava-se à chuva fria.

— Então publica — murmurou calmamente. — E eu acabo com o resto da sua vida até você implorar pra desaparecer.

Silêncio.

Lee Hwan percebeu naquele instante uma coisa terrível:

Valentina não blefava.

Ela realmente faria.

Os olhos dela não tinham raiva.

Nem descontrole.

Nem impulsividade.

E aquilo era pior.

Muito pior.

Porque pessoas calmas eram as mais perigosas.

O celular dele vibrou novamente.

Outra notícia.

Outra denúncia.

Outro patrocinador cancelando contrato.

Ele abriu a mensagem rapidamente.

E o sangue desapareceu do rosto.

Valentina observou a reação com um interesse quase clínico.

— O que foi? — perguntou docemente. — Problemas?

Ele ergueu os olhos para ela.

Desesperado pela primeira vez.

— Como você conseguiu tudo isso tão rápido?

Ela sorriu novamente.

E então respondeu algo que fez um arrepio atravessar a espinha dele:

— Porque enquanto você estava ocupado tentando parecer inteligente na internet… eu estava aprendendo a destruir pessoas de verdade.

Então o celular dela vibrou.

Uma nova mensagem.

“Cuidado com Kang Min-jae.”

Os olhos de Valentina mudaram minimamente.

Só um detalhe.

Só por um segundo.

Mas suficiente para quebrar o clima.

Ela bloqueou o celular lentamente.

Interessante.

Muito interessante.

Porque agora…

O herdeiro Kang havia entrado oficialmente no jogo.

A chuva continuava caindo sobre Seul quando Valentina entrou novamente no carro.

O cheiro de couro misturava-se ao perfume suave dela enquanto fechava a porta lentamente.

Do lado de fora, Lee Hwan permanecia imóvel na calçada.

Destruído.

Confuso.

Desesperado.

Exatamente onde ela queria.

Valentina ajustou calmamente o cinto de segurança.

Então ligou o carro.

O celular vibrou no mesmo instante.

Número desconhecido.

Ela observou a tela por alguns segundos antes de atender.

— Sim?

Do outro lado da linha, a voz grave surgiu imediatamente.

Calma.

Controlada.

Irritantemente fria.

— Você trabalha rápido.

Valentina reconheceu na mesma hora.

Kang Min-jae.

Um sorriso pequeno apareceu nos lábios dela.

— E você observa demais.

Silêncio.

Curto.

Tenso.

Ela conseguia praticamente imaginá-lo do outro lado da linha, encostado em algum lugar luxuoso da empresa Kang, com aquele olhar arrogante e calculista.

— Lee Hwan acabou de perder metade dos patrocinadores .

comentou ele

— Impressionante.

— Eu odeio gente inconveniente.

— Percebi.

A voz dele continuava perigosamente tranquila.

Como se nada o abalasse.

Como se estivesse testando cada reação dela.

Aquilo divertia Valentina.

Mas também irritava.

Porque Min-jae não falava com admiração.

Nem medo.

Falava como alguém analisando uma ameaça.

E ela gostava disso mais do que deveria.

— Então…

— murmurou ela enquanto ligava o limpador de para-brisa.

— Ligou só pra me parabenizar?

— Não.

A resposta veio imediata.

Direta.

— Meu avô quer jantar com você hoje à noite.

Valentina soltou uma risada baixa.

Linda.

Sem humor algum.

— Que pena pra ele.

— Às oito horas. Na residência Kang.

Aquilo fez o sorriso dela desaparecer minimamente.

Não pelo convite.

Mas pelo tom.

Não parecia um convite.

Parecia uma ordem.

E Valentina Azevedo odiava ordens.

— Você costuma falar assim com todas as pessoas? — perguntou suavemente.

— Só com as que entendem rápido.

Ela encostou a cabeça no banco.

Os olhos fixos na chuva caindo no para-brisa.

— E se eu não quiser ir?

— Vai ser ruim recusar meu avô agora.

A voz dele ficou um pouco mais fria.

Mais firme.

— A imprensa já está pressionando sua empresa. Um jantar com a família Kang diminuiria os danos.

Valentina permaneceu em silêncio por alguns segundos.

Então sorriu.

Mas dessa vez…

O sorriso veio perigoso.

Porque ela finalmente entendeu.

Min-jae estava tentando controlar a situação.

Controlá-la.

Talvez acreditasse que estava ajudando.

Talvez acreditasse que ela precisava da família Kang.

Que precisava de proteção.

Homens ricos sempre cometiam esse erro.

Achavam que poder impressionava.

— Escuta com atenção, senhor Kang — disse ela calmamente.

— Eu não sou uma das mulheres obedientes que existem ao seu redor.

O silêncio do outro lado da linha ficou pesado.

Ela continuou:

— Seu avô pode mandar em ministros, empresários e políticos. Mas não manda em mim.

Min-jae apoiou lentamente os dedos sobre a mesa do escritório onde estava.

Interessante.

Muito interessante.

Porque qualquer outra pessoa teria aceitado imediatamente.

Por medo.

Interesse.

Ambição.

Mas Valentina…

Recusava como se o sobrenome Kang não significasse absolutamente nada.

Aquilo irritou Min-jae num nível inesperado.

E, estranhamente…

O deixou ainda mais interessado nela.

— Você gosta de desafiar as pessoas erradas

— disse ele friamente.

Valentina deu partida no carro.

— E você está acostumado demais com pessoas dizendo sim.

Ela desligou antes que ele respondesse.

O silêncio tomou o carro novamente.

Mas o celular vibrou quase imediatamente.

Uma nova mensagem dele.

“Às oito horas. Você vai mudar de ideia.”

Valentina leu a mensagem.

Então riu sozinha.

Baixo.

Doce.

Psicopata.

E respondeu apenas:

“Homens arrogantes sempre acreditam nisso.”

Então bloqueou o celular e acelerou pelas ruas molhadas de Seul.

Sem perceber…

Que pela primeira vez em muito tempo, alguém havia conseguido prender sua atenção além de alguns minutos.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App