A Mesa Dos Predadores

O caminho até a residência Kang foi silencioso.

Mas não um silêncio confortável.

Era pesado.

Carregado.

Como se algo pudesse explodir a qualquer momento dentro daquele carro.

A chuva escorria pelo vidro enquanto Seul brilhava do lado de fora em tons frios de azul e dourado.

Min-jae observava Valentina discretamente do banco do passageiro.

Ela dirigia com uma tranquilidade irritante.

Uma das mãos apoiada no volante.

A expressão calma.

Elegante.

Como se não tivesse acabado de ameaçar um homem minutos atrás.

Aquilo continuava preso na cabeça dele.

Porque o mais assustador não era a violência.

Era a naturalidade dela.

— Você encara demais — comentou Valentina sem desviar os olhos da rua.

Min-jae apoiou o braço na janela.

— E você percebe tudo.

Ela sorriu minimamente.

— É assim que eu continuo viva.

A resposta fez o clima dentro do carro esfriar ainda mais.

Min-jae percebeu.

Ela falava sério.

Sempre.

O celular dela vibrou novamente no console do carro.

Nome desconhecido.

Valentina ignorou.

O telefone tocou outra vez segundos depois.

E mais uma.

Persistente.

Min-jae observou de lado.

— Não vai atender?

— Pessoas desesperadas normalmente dizem coisas desinteressantes.

A resposta arrancou uma risada baixa dele.

Então o celular parou de tocar.

Mas uma mensagem apareceu logo depois.

Os olhos de Valentina desceram rapidamente até a tela.

E pela primeira vez naquela noite…

Min-jae viu algo raro nela.

Não medo.

Nunca medo.

Mas irritação real.

A mensagem continha apenas uma frase:

“Seu pai ficaria decepcionado com o que você se tornou.”

O maxilar dela tensionou minimamente.

Só um detalhe.

Mas suficiente.

Min-jae percebeu imediatamente.

— De novo essa pessoa?

Valentina bloqueou a tela devagar.

— Sim.

— Quem é?

Ela permaneceu em silêncio por alguns segundos.

A cidade refletia nos olhos escuros dela enquanto dirigia.

Então respondeu calmamente:

— Alguém que conhece coisas que não deveria conhecer.

Min-jae franziu levemente a testa.

Antes que pudesse insistir…

Os enormes portões da residência Kang começaram a se abrir.

O carro entrou lentamente pela estrada iluminada cercada por jardins perfeitamente alinhados.

A mansão surgia ao fundo imponente demais.

Luxuosa demais.

Fria demais.

Valentina observou tudo em silêncio.

Os olhos atentos.

Calculando.

Como sempre fazia.

— Parece um palácio — comentou ela suavemente.

— Meu avô gosta de exageros.

— Não.

O sorriso dela apareceu devagar.

— Seu avô gosta de poder.

Aquilo fez Min-jae olhar para ela por um instante.

Interessante.

Ela entendia rápido.

Muito rápido.

Assim que o carro parou diante da entrada principal, funcionários surgiram imediatamente para abrir as portas.

Valentina saiu primeiro.

Elegante como sempre.

O vestido preto se ajustava perfeitamente ao corpo enquanto os saltos ecoavam no mármore da entrada.

Vários empregados abaixaram discretamente os olhos ao vê-la.

E Min-jae percebeu algo curioso:

Mesmo sem dizer nada…

Valentina dominava qualquer ambiente onde entrava.

A porta principal da mansão se abriu logo em seguida.

E Kang Dae-ho apareceu.

O patriarca da família Kang observou Valentina longamente.

Silencioso.

Inteligente.

Avaliando cada detalhe dela.

Valentina sustentou o olhar sem hesitar.

Calma.

Quase educada demais.

Dois predadores se reconhecendo imediatamente.

Então ela sorriu delicadamente e inclinou levemente a cabeça.

— Senhor Kang.

O velho abriu um pequeno sorriso.

Quase imperceptível.

— Então você realmente existe.

Min-jae soltou um suspiro irritado.

— Vocês dois são estranhos.

Dae-ho ignorou completamente o neto.

Os olhos continuavam em Valentina.

— Achei que recusaria o jantar por orgulho.

Valentina aproximou-se lentamente.

A expressão doce.

Perigosa.

— E eu achei que o senhor fosse menos insistente pessoalmente.

Aquilo arrancou uma risada genuína do velho Kang.

Os funcionários pareceram imediatamente tensos.

Porque Kang Dae-ho quase nunca ria.

— Gostei dela — comentou o velho calmamente.

— Não incentiva — respondeu Min-jae.

Valentina sorriu discretamente ao ouvir aquilo.

Então entrou na mansão ao lado deles.

O interior era ainda mais absurdo.

Lustres enormes.

Obras raríssimas.

Esculturas antigas.

Tudo gritava riqueza.

Mas também controle.

A casa inteira parecia construída para lembrar às pessoas quem mandava ali.

Enquanto caminhavam pelo enorme corredor principal, Valentina percebeu vários retratos da família Kang espalhados pelas paredes.

Homens frios.

Mulheres elegantes.

Todos com a mesma expressão impecável.

Todos parecendo esconder alguma coisa.

Então ela viu uma foto de Min-jae mais jovem.

Talvez dezoito anos.

O olhar já era frio naquela época.

Mas havia algo diferente.

Raiva.

Muito mais evidente.

Interessante.

— Não olha muito pra essa foto — comentou Min-jae atrás dela. — Eu era insuportável.

Valentina virou lentamente o rosto.

— Era?

Aquilo arrancou uma risada baixa até do avô.

Min-jae estreitou os olhos imediatamente.

— Você gosta de provocar porque acha engraçado.

— E você fica irritado muito fácil.

— Porque você ultrapassa limites.

Ela aproximou-se um pouco mais dele.

Perto demais.

O suficiente para o perfume suave dela bagunçar completamente a concentração dele outra vez.

— E mesmo assim você continua vindo atrás de mim, senhor Kang.

O olhar dos dois se prendeu novamente.

Pesado.

Intenso.

Perigoso.

E Kang Dae-ho observava tudo em absoluto silêncio.

Porque naquele instante…

O velho percebeu algo importante.

Aquela mulher não era um problema para Min-jae.

Era uma obsessão prestes a acontecer.

O jantar começou poucos minutos depois.

A mesa principal da família Kang parecia saída de um filme antigo sobre dinastias milionárias.

Longa.

Impecável.

Luxuosa ao ponto de parecer fria.

Funcionários circulavam silenciosamente enquanto pratos sofisticados eram servidos em perfeita sincronia.

Mas o verdadeiro espetáculo não era a comida.

Era a tensão.

Kang Dae-ho observava Valentina o tempo inteiro.

Discretamente.

Analisando cada resposta.

Cada reação.

E Valentina fazia exatamente o mesmo.

Ela sorria delicadamente enquanto conversava.

Educada.

Elegante.

Perfeita.

Mas por trás dos olhos suaves, continuava calculando tudo ao redor.

Min-jae percebia.

Claro que percebia.

E aquilo o deixava cada vez mais obcecado.

— Então a BeautyCrown pretende expandir para outros países da Ásia? — perguntou Dae-ho calmamente.

Valentina apoiou delicadamente a taça sobre a mesa.

— Pretende dominar.

A resposta arrancou um pequeno silêncio.

Min-jae sorriu de lado imediatamente.

O avô também.

— Ambiciosa — comentou o velho.

— Realista — corrigiu ela suavemente.

Os olhos de Dae-ho brilharam com interesse.

— Você me lembra alguém.

Valentina inclinou levemente a cabeça.

— Isso é bom?

— Não para os outros.

Min-jae soltou uma risada baixa.

Aquilo estava ficando perigoso.

Porque o avô raramente se interessava por alguém daquele jeito.

E Valentina parecia confortável demais cercada por pessoas poderosas.

Como se tivesse nascido naquele tipo de ambiente.

Talvez tivesse mesmo.

O jantar avançou rapidamente entre conversas sobre negócios, mercado internacional e política coreana.

Mas existia outra conversa acontecendo silenciosamente por baixo da mesa.

Olhares.

Provocações discretas.

Tensão.

Toda vez que Valentina sorria para alguém, Min-jae percebia.

Toda vez que Min-jae ficava irritado com algum comentário dela, Valentina percebia.

Era quase ridículo.

E Kang Dae-ho observava aquilo com diversão silenciosa.

Até que finalmente o jantar terminou.

Os funcionários começaram a recolher a mesa enquanto o velho Kang se levantava lentamente.

— Foi interessante conhecer você, senhorita Azevedo.

Valentina também se levantou.

Elegante como sempre.

— O prazer foi meu, senhor Kang.

O velho segurou a bengala antes de lançar um olhar significativo para o neto.

— Min-jae. Acompanhe nossa convidada.

Aquilo não soou como sugestão.

Nunca soava.

Min-jae soltou um suspiro discreto.

— Eu já estava indo mesmo.

Valentina quase sorriu.

Mentiroso.

Minutos depois, os dois caminhavam sozinhos pelo enorme jardim externo da mansão.

A chuva havia parado.

O ar noturno estava frio.

Silencioso.

As luzes douradas refletiam nos caminhos de pedra enquanto o vento movimentava levemente os cabelos escuros de Valentina.

Ela caminhava devagar.

Calma.

Como se não tivesse pressa para ir embora.

Min-jae observava de lado.

E odiava perceber o quanto ela parecia bonita naquele silêncio.

Aquilo era inconveniente.

Muito.

— Meu avô gostou de você — comentou ele finalmente.

Valentina soltou uma risada baixa.

— Seu avô gosta de pessoas perigosas.

— E você gostou dele.

Ela olhou para frente por alguns segundos antes de responder:

— Ele é inteligente. Isso já coloca ele acima da maioria das pessoas.

Aquilo arrancou outra pequena risada dele.

Então o silêncio voltou.

Mas dessa vez…

Mais confortável.

Mais íntimo.

Quando chegaram perto do carro dela, Valentina destravou as portas lentamente.

Mas antes que entrasse…

Min-jae segurou o braço dela.

Não forte.

Mas firme o suficiente para fazê-la parar.

Os olhos dela desceram lentamente até a mão dele.

Depois voltaram para o rosto dele.

O ar entre os dois pareceu mudar instantaneamente.

Mais quente.

Mais perigoso.

— O quê? — perguntou ela suavemente.

Min-jae não respondeu imediatamente.

Porque nem ele entendia completamente por que tinha feito aquilo.

Só sabia que não queria que ela fosse embora ainda.

O que era ridículo.

Impulsivo.

Irritante.

Muito a cara dele.

— Você sempre deixa as pessoas curiosas desse jeito? — perguntou em voz baixa.

Valentina se aproximou um pouco mais.

Perto demais outra vez.

— Não.

O perfume dela bagunçou completamente os pensamentos dele.

— Só as que eu acho interessantes.

O coração de Min-jae bateu forte uma vez.

Pesado.

Ela percebeu.

Claro que percebeu.

E o sorriso dela cresceu minimamente.

Porque pela primeira vez…

O herdeiro Kang parecia perigosamente perto de perder o controle.

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