Mundo de ficçãoIniciar sessão- Retirem isso da pauta. Agora.
Ninguém discute. Fecho a pasta com precisão. - Próximo assunto. A reunião continua. Mas eu não estou mais ali. Porque, pela primeira vez em anos... Aquele projeto voltou. E com ele... Tudo que eu passei tanto tempo tentando enterrar. Eu já estava finalizando os últimos documentos quando a porta se abre sem aviso. - Senhor Ferraz... A voz do meu assistente vem carregada de algo incomum. Tensão. Ergo o olhar devagar. Ele está rígido. Cauteloso demais. - A senhorita Duarte deseja falar com o senhor. Franzo levemente a testa. Duarte. Desconheço esse sobrenome. - Do que se trata? - Ela apenas disse que é do seu interesse... e de extrema importância. Solto um suspiro impaciente, recostando-me na cadeira. Ninguém chega até aqui sem motivo. - Mande entrar. Volto o olhar para o quadro à minha frente. Monalisa, sorrindo. Sempre sorrindo. Foi em uma das nossas viagens. Ela estava feliz. Plena. Viva. Engulo em seco, sentindo aquele aperto familiar no peito. Então... A porta se abre. O som me puxa de volta. Levanto os olhos. E a vejo. Por um segundo, não reconheço. Mas então... A lembrança encaixa. O abrigo. A discussão. Aquela mulher. Aponto para a cadeira à minha frente, sem dizer nada. Ela entra com firmeza. Sem medo. Isso já me irrita. - Boa tarde, senhor Ferraz. A voz dela é firme. Controlada. - Preciso falar com o senhor sobre algo importante. Cruzo os braços, recostando-me na cadeira. Frio. Impassível. - Você não tem nada que possa ser importante para mim. Faço um gesto seco em direção à porta. - Pode sair. Ela não se move. Nem um centímetro. - Não. Eu só vou sair depois que disser tudo o que vim dizer. Um silêncio pesado cai entre nós. Perigoso. Inclino levemente a cabeça, analisando-a. - Você realmente acha... - minha voz sai baixa, carregada - que eu tenho tempo a perder com você? Me inclino para frente. - Não me faça perder a paciência. Ela sustenta meu olhar. Sem recuar. - Não se pode perder algo que não tem. A resposta vem rápida. Direta. Meus olhos se estreitam. E então ela solta: - Estou aqui por causa da Luna. O nome ecoa. Incômodo. Indesejado. - Você precisa conhecer a menina. Precisa falar com ela. Ela só tem você. Algo dentro de mim se fecha. Violento. Levanto da cadeira de uma vez. - Quem é você - minha voz sobe, carregada de fúria - para entrar aqui e dizer o que eu devo fazer? Dou a volta na mesa, parando a poucos passos dela. - Não se meta na minha vida. Aponto para a porta. - Se está tão preocupada... fique você com ela. Ela se levanta também. E então faz algo que poucos têm coragem. Ela me encara. De igual para igual. Sem medo. - Eu sou alguém que sabe exatamente o que é ser abandonada. A frase me atinge. Mas eu não demonstro. - Sei o que é ser rejeitada. Sei o que é esperar... e ninguém voltar. A voz dela treme por um segundo. Mas não quebra. - E é exatamente por isso que eu estou aqui. Silêncio pesado. - Você é um monstro. As palavras caem entre nós. Secas Minha mandíbula trava. - Como consegue olhar para uma criança... e não sentir nada? Ela dá um passo na minha direção. - Ela é inocente. Não tem culpa da tragédia que tirou a mãe dela. Cada palavra dela b**e. Forte. Mas o que cresce em mim não é culpa. É raiva. - Pois bem - ela continua, a voz mais firme agora - se você quer fugir disso, fuja. Ela pega a bolsa, mas não desvia o olhar. - Porque eu não vou. Meu corpo enrijece. - Eu vou fazer o que for preciso pela Luna. Ela se aproxima mais um passo. Perto demais. - Até o impossível. Silêncio. O ar entre nós parece mais pesado. Mais... perigoso. - Já que ela não pode contar com o único parente vivo que tem. A frase vem como um golpe. Preciso. - E pode ter certeza de uma coisa, senhor Ferraz... A voz dela baixa. - Um dia... você vai se arrepender. O silêncio depois disso é ensurdecedor. Ela me encara por mais um segundo. E então... Vira as costas. E vai embora. A porta se fecha com força. E o som ecoa pela sala. Mas eu não me movo. Fico ali parado. Com o olhar fixo na porta. O maxilar travado. A respiração pesada. Porque, pela primeira vez em muito tempo... Alguém não teve medo de mim. E pior alguém conseguiu me atingir. E isso me irrita muito mais do que deveria....






