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Capítulo 2.2 Dante Ferraz

- Retirem isso da pauta. Agora.

Ninguém discute.

Fecho a pasta com precisão.

- Próximo assunto.

A reunião continua.

Mas eu não estou mais ali. Porque, pela primeira vez em anos... Aquele projeto voltou. E com ele... Tudo que eu passei tanto tempo tentando enterrar.

Eu já estava finalizando os últimos documentos quando a porta se abre sem aviso.

- Senhor Ferraz...

A voz do meu assistente vem carregada de algo incomum.

Tensão. Ergo o olhar devagar. Ele está rígido.

Cauteloso demais.

- A senhorita Duarte deseja falar com o senhor.

Franzo levemente a testa.

Duarte.

Desconheço esse sobrenome.

- Do que se trata?

- Ela apenas disse que é do seu interesse... e de extrema importância.

Solto um suspiro impaciente, recostando-me na cadeira.

Ninguém chega até aqui sem motivo.

- Mande entrar.

Volto o olhar para o quadro à minha frente.

Monalisa, sorrindo.

Sempre sorrindo.

Foi em uma das nossas viagens.

Ela estava feliz. Plena. Viva.

Engulo em seco, sentindo aquele aperto familiar no peito.

Então... A porta se abre. O som me puxa de volta. Levanto os olhos.

E a vejo. Por um segundo, não reconheço.

Mas então... A lembrança encaixa.

O abrigo. A discussão. Aquela mulher.

Aponto para a cadeira à minha frente, sem dizer nada.

Ela entra com firmeza.

Sem medo.

Isso já me irrita.

- Boa tarde, senhor Ferraz.

A voz dela é firme.

Controlada.

- Preciso falar com o senhor sobre algo importante.

Cruzo os braços, recostando-me na cadeira.

Frio.

Impassível.

- Você não tem nada que possa ser importante para mim.

Faço um gesto seco em direção à porta.

- Pode sair.

Ela não se move.

Nem um centímetro.

- Não. Eu só vou sair depois que disser tudo o que vim dizer.

Um silêncio pesado cai entre nós.

Perigoso.

Inclino levemente a cabeça, analisando-a.

- Você realmente acha... - minha voz sai baixa, carregada - que eu tenho tempo a perder com você?

Me inclino para frente.

- Não me faça perder a paciência.

Ela sustenta meu olhar.

Sem recuar.

- Não se pode perder algo que não tem.

A resposta vem rápida.

Direta. Meus olhos se estreitam.

E então ela solta:

- Estou aqui por causa da Luna.

O nome ecoa.

Incômodo.

Indesejado.

- Você precisa conhecer a menina. Precisa falar com ela. Ela só tem você.

Algo dentro de mim se fecha.

Violento.

Levanto da cadeira de uma vez.

- Quem é você - minha voz sobe, carregada de fúria - para entrar aqui e dizer o que eu devo fazer?

Dou a volta na mesa, parando a poucos passos dela.

- Não se meta na minha vida.

Aponto para a porta.

- Se está tão preocupada... fique você com ela.

Ela se levanta também.

E então faz algo que poucos têm coragem.

Ela me encara.

De igual para igual.

Sem medo.

- Eu sou alguém que sabe exatamente o que é ser abandonada.

A frase me atinge.

Mas eu não demonstro.

- Sei o que é ser rejeitada. Sei o que é esperar... e ninguém voltar.

A voz dela treme por um segundo.

Mas não quebra.

- E é exatamente por isso que eu estou aqui.

Silêncio pesado.

- Você é um monstro.

As palavras caem entre nós.

Secas

Minha mandíbula trava.

- Como consegue olhar para uma criança... e não sentir nada?

Ela dá um passo na minha direção.

- Ela é inocente. Não tem culpa da tragédia que tirou a mãe dela.

Cada palavra dela b**e.

Forte.

Mas o que cresce em mim não é culpa. É raiva.

- Pois bem - ela continua, a voz mais firme agora - se você quer fugir disso, fuja.

Ela pega a bolsa, mas não desvia o olhar.

- Porque eu não vou.

Meu corpo enrijece.

- Eu vou fazer o que for preciso pela Luna.

Ela se aproxima mais um passo.

Perto demais.

- Até o impossível.

Silêncio.

O ar entre nós parece mais pesado.

Mais... perigoso.

- Já que ela não pode contar com o único parente vivo que tem.

A frase vem como um golpe.

Preciso.

- E pode ter certeza de uma coisa, senhor Ferraz...

A voz dela baixa.

- Um dia... você vai se arrepender.

O silêncio depois disso é ensurdecedor.

Ela me encara por mais um segundo. E então... Vira as costas.

E vai embora.

A porta se fecha com força.

E o som ecoa pela sala.

Mas eu não me movo.

Fico ali parado.

Com o olhar fixo na porta.

O maxilar travado.

A respiração pesada.

Porque, pela primeira vez em muito tempo... Alguém não teve medo de mim. E pior alguém conseguiu me atingir. E isso me irrita muito mais do que deveria....

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