Depois de sair do reservado do clube, fui direto para o shopping onde tinha comprado o relógio. A funcionária me reconheceu na mesma hora.
Meia hora antes, eu tinha recebido das mãos dela aquela caixa de presente com o coração cheio de alegria. Agora, a fita da caixa continuava intacta, mas eu pedi que ela aceitasse a devolução do relógio.
— Senhora, o nome foi gravado no verso do relógio. Nós só podemos comprá-lo de volta por um valor menor.
— Quanto você paga?
— Quarenta e dois mil.
Eu tinha economizado o equivalente a seis meses de salário para comprar aquele relógio por sessenta mil. Se eu o devolvesse agora, perderia quase vinte mil.
Eu assenti:
— Pode.
Assim que a funcionária pegou a caixa de presente, a risada de Mariana soou atrás de mim:
— Estão vendo? Eu disse que ela ia devolver esse relógio.
Celso e os amigos do reservado tinham vindo atrás de mim. O grupo ficou parado do lado de fora da loja, como se estivesse ali para assistir a um espetáculo.
Alguém pegou o celular e fotografou o comprovante de recompra:
— Ela compra um relógio de sessenta mil e, daqui a pouco, vai querer que Celso compre um carro esportivo para ela.
— Esse retorno sobre investimento é alto demais. Até os maiores investidores de Wall Street teriam que aprender com ela.
— Ela veio de um lugar pobre e atrasado. Para conseguir chegar até Celso, ela realmente deve ter seus truques.
Aquelas palavras entraram pelos meus ouvidos e fizeram as pontas dos meus dedos formigarem.
Mariana se aproximou de mim e passou os olhos pelo comprovante de recompra:
— Vocês não entendem. Uma interesseira comum simplesmente pede dinheiro ao homem. Mas uma interesseira de alto nível, como ela, primeiro gasta um pouco, depois arruma um jeito de parecer injustiçada e, no fim, devolve o presente. Aí o homem fica se sentindo culpado e acaba compensando com carro, apartamento, essas coisas.
Os amigos riram ainda mais alto:
— Então era isso... Ela estava só se fazendo de difícil e esperando conseguir algo muito maior.
— Agora faz sentido ela ter passado três anos sem aceitar presente do Celso. Ela estava esperando virar a Senhora Malta.
Eu peguei o meu cartão de volta e me virei para ir embora.
Celso segurou o meu pulso:
— Você ainda não cansou desse drama?
Ele tirou um cartão preto da carteira e o enfiou na minha mão:
— Hoje eu pesei nas palavras. Pega isso e compra alguma coisa de que você goste. Só para de fazer essa cara.
Eu olhei para o cartão na minha mão, e uma pressão amarga tomou conta do meu peito. Em três anos juntos, eu nunca tinha gastado um centavo dele.
Mas, naquele momento, ele ainda acreditava que dinheiro bastava para apagar toda a humilhação que eu tinha sofrido.
Eu coloquei o cartão de volta sobre o balcão:
— Celso, eu quero terminar.
O rosto dele mudou.
Mariana, porém, bateu palmas:
— Vocês viram? Devolver o presente era só a "entrada". O término é o "prato principal".
Mariana se virou para Celso e falou com a certeza de quem já tinha decidido a minha culpa:
— Ela aguentou três anos e agora está a um passo de virar oficialmente a Senhora Malta. Seria estranho se ela realmente quisesse ir embora. Na verdade, ela está obrigando você a pedir a mão dela em público.
As pessoas ao lado imediatamente começaram a provocar:
— Celso, pede logo ela em casamento. Se você não pedir agora, da próxima vez ela não vai devolver um relógio. Ela vai aparecer ameaçando se machucar.
A tensão no rosto de Celso foi se desfazendo aos poucos. Ele baixou os olhos para mim, e havia um ar de compreensão arrogante na voz dele:
— Se você quer casar, é só dizer. Não usa término para me assustar. Isso não tem graça.
Eu puxei a minha mão de volta:
— Eu não estou tentando assustar você. Não quero mais você.
Celso me encarou por alguns segundos. O último vestígio de paciência desapareceu dos olhos dele:
— Tudo bem. Eu quero ver quantos dias você aguenta.
Eu não respondi. Saí do shopping sozinha.
Assim que entrei no táxi, Felipe Silveira, um dos superiores da empresa onde eu trabalhava, me ligou:
— Surgiu uma vaga de última hora no projeto do Oriente Médio. Nós precisamos enviar uma funcionária para ficar três anos lá, e a viagem é depois de amanhã. As condições de trabalho são bem difíceis. Você aceita ir?
No passado, por causa de Celso, eu já tinha recusado duas oportunidades de trabalho no exterior.
Desta vez, eu respondi sem hesitar:
— Eu aceito.
Eu comprei uma passagem para o voo das nove da manhã de depois de amanhã.
Faltavam apenas quarenta e oito horas para eu deixar aquela cidade e Celso para trás.