Um pouco perto demais

Capítulo 3

Mia não deveria ter aceitado a segunda taça.

Essa conclusão surgiu aproximadamente sete minutos depois.

Não porque estivesse bêbada.

Ainda não.

Mas porque Dante continuava ao lado dela.

E aquilo parecia muito mais perigoso do que qualquer bebida.

— Então? — ele perguntou.

Mia desviou os olhos para a pista.

— Então o quê?

— Vai continuar fingindo que não está curiosa?

Ela soltou uma risada curta.

— Sobre você?

— Sobre qualquer coisa.

— Isso soa como uma tentativa muito preguiçosa de iniciar uma conversa.

Dante tomou um gole da própria bebida.

— E mesmo assim você respondeu.

— Porque silêncio constrangedor também me incomoda.

Ele inclinou a cabeça.

— Você fala bastante quando está nervosa?

Mia virou o rosto lentamente.

— Eu não estou nervosa.

— Certo.

— Não estou.

— Já entendi.

— Essa sua cara está discordando.

— Minha cara não disse nada.

— Disse bastante.

Dante sorriu.

Mia se odiou um pouco por perceber o sorriso.

Era lento.

Controlado.

Como se ele tivesse aprendido cedo que não precisava fazer muito esforço para chamar atenção.

Pior ainda: funcionava.

Ela olhou novamente para o salão.

Alice conversava com alguns convidados perto da pista, completamente ocupada.

Traição.

Mia poderia jurar que a amiga havia prometido não abandoná-la.

— Você conhece a aniversariante há muito tempo? — Dante perguntou.

Finalmente uma pergunta normal.

— Desde a faculdade.

— Então ela é culpada por você estar aqui.

— Integralmente.

— Você não gosta de festas?

— Eu gosto.

Dante esperou.

Mia suspirou.

— Em teoria.

— Interessante.

— O que isso quer dizer?

— Que você passou a maior parte da noite procurando lugares para se esconder.

Ela estreitou os olhos.

— Está me observando?

Dante levou a taça à boca sem desviar os olhos dela.

— Um pouco.

A resposta foi simples demais.

Direta demais.

Mia demorou um instante para reagir.

— Isso deveria me preocupar?

— Depende.

— Do quê?

— Se você gostou de saber.

Mia abriu a boca.

Nada saiu.

Dante sorriu de leve.

Ela ergueu a taça e bebeu mais do que pretendia.

— Você faz isso com frequência?

— O quê?

— Responde perguntas com outras perguntas.

— Você faz muitas.

— Porque você não responde nenhuma direito.

— Talvez esteja perguntando as coisas erradas.

Mia apontou a taça para ele.

— Isso.

— Isso o quê?

— Exatamente essa coisa.

— Vai precisar ser mais específica.

— Esse jeito.

— Que jeito?

Mia olhou para ele por dois segundos.

— Irritante.

Dante riu.

De verdade.

Não apenas aquele sorriso calculado.

Uma risada baixa que mudou um pouco a expressão dele e, contra toda lógica, o deixou ainda mais atraente.

Mia desviou o rosto.

Aquilo era inconveniente.

— Agora você está fugindo do olhar — ele comentou.

Ela voltou imediatamente.

— Não estou.

— Está.

— Você se acha muito perceptivo.

— Sou.

— Arrogante.

— Também.

Mia ficou alguns segundos em silêncio.

— Pelo menos admite.

— Economiza tempo.

A música mudou.

Algumas pessoas começaram a se reunir mais perto da pista.

Alice apareceu entre elas e, ao avistar Mia, abriu um sorriso enorme.

Mia reconheceu o perigo imediatamente.

— Não.

Dante olhou para ela.

— Não o quê?

— Nada.

Alice já estava vindo.

— Mia!

— Não.

— Você prometeu.

— Eu não prometi nada.

Alice segurou a mão dela.

— É meu aniversário.

— Essa frase já foi usada contra mim muitas vezes hoje.

— E vai continuar sendo.

Mia resistiu quando a amiga tentou puxá-la.

— Eu não vou dançar.

— Vai, sim.

— Alice.

— Mia.

Dante assistia à cena com evidente diversão.

Mia olhou para ele.

— Não ria.

— Não estou rindo.

— Seus olhos estão.

— Isso é novo.

— Para mim, não.

Alice finalmente percebeu Dante de verdade.

Seus olhos passaram dele para Mia.

Depois voltaram.

— Você vem também.

Dante arqueou uma sobrancelha.

— Eu?

— Sim.

Mia quase engasgou.

— Não.

Alice ignorou.

— Ninguém fica parado na minha festa.

— Alice...

— Anda.

Antes que Mia pudesse impedir, Alice segurou a mão dela e a levou para a pista.

Mia olhou por cima do ombro.

Dante ficou onde estava.

Ótimo.

Perfeito.

Um problema a menos.

Ela mal teve tempo de sentir alívio.

Trinta segundos depois, ele apareceu.

Mia fechou os olhos.

— Você está de brincadeira.

— Fui convidado.

— Pela aniversariante.

— Convite legítimo.

Alice, satisfeita com o próprio trabalho, desapareceu entre os convidados.

Mia ficou diante de Dante.

— Eu odeio ela.

— Não parece.

— Neste momento, um pouco.

A música tinha um ritmo lento, mas não exatamente romântico.

Havia espaço suficiente entre os dois.

Mia decidiu mantê-lo.

Dante parecia ter outros planos.

Ele estendeu a mão.

— Não.

— Eu ainda não disse nada.

— Conheço essa mão.

Ele olhou para a própria mão.

— Estranho. Achei que tínhamos acabado de nos conhecer.

— Você entendeu.

— Talvez eu só esteja oferecendo ajuda.

— Para quê?

— Você parece estar com medo de cair.

Mia olhou para baixo.

Malditos sapatos.

— Não estou.

— Então prove.

Ela ergueu o queixo.

— Você é insuportável.

Mesmo assim, colocou a mão na dele.

Dante fechou os dedos ao redor dos seus.

Desta vez, conduziu-a um pouco mais para o centro.

Mia não era uma dançarina ruim.

Só não gostava da sensação de estar sendo observada.

E Dante observava.

Muito.

— Pare de olhar assim — murmurou.

— Assim como?

— Você sabe.

— Continuo sem saber.

— Mentiroso.

O sorriso dele voltou.

— Essa é uma acusação séria.

— Vai sobreviver.

Dante soltou a mão dela apenas para repousar a palma na lateral de sua cintura.

Mia ficou imóvel por meio segundo.

O toque era firme.

Quente.

Nada invasivo.

Ainda assim, mudou tudo.

A distância entre eles diminuiu.

Não muito.

O suficiente.

Mia colocou a mão no ombro dele por necessidade prática.

Foi quando percebeu o tamanho da diferença entre os dois.

Dante era alto demais.

Largo demais.

Quente demais.

E estava perto demais.

— Melhor? — ele perguntou.

A voz estava mais baixa agora.

Mia precisou levantar o rosto para encará-lo.

— Não.

— Quer que eu solte?

Ela abriu a boca.

Essa seria a resposta correta.

Sim.

Sim, solte.

Mas Dante esperou.

E Mia percebeu que ele realmente soltaria.

Não havia pressão.

Só uma pergunta.

Ela deveria dizer sim.

— Não precisa.

Os olhos dele ficaram um pouco mais atentos.

— Tem certeza?

Mia odiou o fato de a pergunta soar quase íntima.

— Você pergunta demais.

— Você também.

— Eu posso.

— E eu não?

— Não.

— Injusto.

— A vida é difícil.

Dante riu.

A mão dele continuava em sua cintura.

O polegar se moveu quase imperceptivelmente sobre o tecido do vestido.

Talvez sem intenção.

Talvez não.

Mia perdeu o ritmo por um instante.

— Cuidado.

Ela olhou para ele.

— Foi você.

— Eu?

— Você me distraiu.

— Eu não fiz nada.

— Exatamente.

Dante inclinou um pouco a cabeça.

— Mia.

— O quê?

— Você sempre fica irritada quando se sente atraída por alguém?

Ela parou.

Literalmente.

O corpo ficou imóvel.

As pessoas continuaram dançando ao redor.

Dante também parou.

Mia soltou a mão do ombro dele.

— Eu não estou atraída por você.

— Certo.

— Não faça essa cara.

— Qual?

— A de quem não acredita.

— Não estou fazendo nada.

— Outra vez.

Ela tentou se afastar.

Dante não segurou.

A mão saiu da cintura dela imediatamente.

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