Segundo

Ainda estava escuro quando o casal de empregados se posicionava para seus afazeres matinais, um farto café da manhã deveria ser feito, com frutas, sucos, café, biscoitos caseiros e pães, mas a mulher parecia ter outras preocupações. Ela olhava seriamente para o seu marido enquanto falava.

         —Vou te falar só mais uma vez: nunca mais comente sobre as crianças que moravam aqui entendeu bem?

         E o homem nervoso apenas acena positivamente e surpreende-se ao ver Lucas de pé na entrada da copa, o garoto teria ouvido que foi dito? Só então ele percebe que o menino estava com seus fones de ouvido.

         — Bom dia gente!

         — Bom dia jovem Lucas, dormiu bem?

         — Ah sim, dormi. Ah! Vocês estão arrumando a mesa. Então eu vou ver televisão.

         O garoto sai e deixa o casal em seu trabalho costumeiro. Pouco depois Ceci aparece em seu pijaminha cor de rosa estampado com florezinhas, e claro, ela estava acompanhada do Pingo. Chegam seus pais na seqüência, eles estavam radiantes.

         Depois que todos terminaram de comer, Nick, com um brilho nos olhos pronunciou:

         — Genival!

         — Sim senhor?

         — Será que você pode selar uns cavalos para darmos um passeio?

         — Claro senhor. Basta me dizer quantos e providenciarei agora mesmo.

         — O que acha família?

         — Mas querido! Eu nunca andei a cavalo!

         — Bobagem! Estarei ao seu lado e imagino que deva ter algum animal que seja mais manso que os outros.

         — Se é assim...

         — Lucas?

         — Tô fora!

         — Como assim? Não quer cavalgar? Até onde eu sei cavaleiros sempre impressionam as garotas.

         — Isso é coisa de séculos atrás, mas... Está bem... Vou encarar essa!

         — É assim que se fala garoto!

         — Mas Nick... E a Ceci?

         — Ora meu amor! Ela vai comigo. Certo princesa?

         — Não papai! Tenho medo!

         — Mas querida... – diz a mãe afagando os cabelos finos e dourados da filha – vai ser divertido!

         — Não! Prefiro ficar em casa e brincar com o Pingo. Não é mesmo Pingo? A gente vai estar seguro aqui dentro.

         — Está bem. Prometo que não vamos demorar! – e Amanda dá um beijo na testa da garotinha que sai em seguida saltitando para o seu quarto.

         Como ordenado Genival trouxe três cavalos devidamente selados.

         — Tem certeza de que não precisa que eu os acompanhe senhor?

         — Pode ficar tranqüilo Genival! Estaremos bem e não nos afastaremos muito.

         Nick impressiona-se com a agilidade com que o filho subiu no cavalo.

         — Muito bem Lucas! Ainda se lembra de como se monta!

         — Ah pai, esqueci de dizer que no fim de semana que passei na casa de meu colega treinamos bastante cavalgada.

         O colega em questão era neto de um político influente e a casa era na verdade um sítio, provavelmente patrocinado pelos cofres públicos.

Depois de acenar para a mãe o garoto dispara.

         — Não vai pra muito longe e toma cuidado! – gritava a mãe sem saber se Lucas a ouvia.

         — Veja a desenvoltura do garoto, ele está crescendo! – diz o pai orgulhoso.

         — Só espero que não esteja crescendo rápido demais!

         — Deixe de ser super protetora mulher, ele já é quase um homem, na idade dele eu já estava trabalhando com meu pai ajudando-o na feira.

         — Eu sei que criamos nossos filhos pra vida e que eles têm que crescer, mas é que é tão bom quando eles são crianças!

         — Não seja boba querida, ainda temos a Ceci e ela é uma criança maravilhosa.

         — Por falar nisso, não gosto da idéia de ter deixado ela sozinha.

         — Ora! Ela está com a cozinheira e a filha dela, e o Genival estará por perto também.

         — Eu sei que o pessoal é de confiança, mas é que a Ceci é tão... Solitária! Vive brincando com seus brinquedos, não tem um amiguinho ou amiguinha de sua idade. Queria que o Lucas desse mais atenção à ela, que brincasse de vez em quando com ela...

         — Ah, ah, ah!

         — Qual é a graça?

         — Não imagino o Lucas brincando de bonecas com a irmã. Ele já está na idade de pensar em meninas que não sejam crianças.

         — Seu bobo! Você só pensa nisso?

         — Ah querida! Fala a verdade, esse lugar paradisíaco não lhe dá umas idéias?

         — O que você tem em mente seu pervertido?

         — Está vendo aquela árvore enorme? O que acha de amarrarmos os cavalos e deitarmos um instante debaixo dela?

         — Nicolau?!

         — Ei! Eu só estou com a bunda dolorida!

         E os dois foram dando sonoras gargalhadas até a antiga árvore, lá chegando eles percebem inscrições talhadas no tronco, eram nomes de casais, uns envoltos em corações, a maioria nomes alemães.

         — Veja querido! Você já sabia disso? Desses nomes gravados?

         — Eu não, mas... – e Nick enfia a mão em um bolso da calça e pega um canivete.

         — O que está fazendo?

         — O que acha? Esta árvore agora nos pertence, como tudo ao nosso redor, então nada mais justo que eu colocar o meu nome e o da minha garota aqui também!

         — Sua garota! Você me faz sentir com uns quinze anos a menos!

         Eles se beijam apaixonados e não percebem que na parte oposta do tronco existia um outro entalhe: uma suástica.

        

Mais adiante Lucas cavalga animado e só então percebe que havia esquecido seu celular e seus fones de ouvido. O impressionante é que não estava fazendo falta. O ar puro, a brisa, a visão deslumbrante da vegetação, de árvores frondosas, o céu azul e as poucas nuvens alvas que vagavam lentamente. Então o garoto lembra das palavras do pai sobre cavaleiros, parecia até coisa de contos de fadas, que absurdo! Há tempos ele não gostava mais daquele tipo de história, aquilo era para garotas românticas, na verdade ele não via a hora em que estivesse maior de idade para dirigir um belo automóvel, era só ele manter as boas notas e ser comportado que teria um carro importado. Seu pai era esperto e entrou como sócio numa grande empresa, o que fez com que seu patrimônio ficasse sólido e seguro, pelo menos era isso que o seu sócio havia dito no dia em que esteve em sua casa. Sua mente viajava entre as alternativas. Uma ferrari? Não, era uma idéia muito repetitiva! Um mustang? Sim! Um mustang azul escuro, quase preto com o estofado de couro e um painel brilhante e o volante parecido com um console de nave espacial. Já se via dirigindo a máquina, correndo pelas ruas da cidade e as garotas surgindo a cada esquina, empolgadas com sua aquisição. Garotas lindas, loiras, pele alva, corpo esguio, um vestido longo que parece brincar ao vento e um chapéu para protegê-la dos raios do sol. Espere? Mas essa garota estava ali, a alguns metros de distância de Lucas, seria uma miragem? Recebera muito sol na cabeça?

         — Ei moça?

         E Lucas aproxima-se da menina que parecia ter uma idade próxima à sua. Notou que ela estava colhendo flores e colocando num pequeno cesto.

         — Ah... Oi!

         Ela possuía um belo sorriso, seus dentes eram tão brancos que pareciam brilhar, a visão daquele rosto fez com que Lucas perdesse o fôlego, sua beleza era quase mágica e ele deveria ver de perto, então desce do cavalo e aproxima-se trazendo o animal pela rédea.

         — O... o que faz aqui? Na minha... Quer dizer, na fazenda da minha família?

         — Oh! Desculpe-me! Não sabia que havia novos moradores, eu tenho o costume de sair para passear e colher flores que nascem no mato. Acho que desta vez me empolguei e vim um pouco além. Mas já estou voltando, desculpe pela invasão.

         — Eu não quis assustá-la, quer dizer... Você com certeza não é uma assassina que vem roubar a fortuna de meu pai e...

         A jovem arregala os olhos e fica estática.

         — Desculpa! Eu viajo às vezes, deve ser muito vídeo game e filmes de ação. Você curte um cinema de vez em quando?

         — Curte?

— Sim! Você gosta de ver filmes de ação?

         — Já fui ao cinema algumas vezes. Só vi dois tipos de filmes: de romance e sobre a guerra, mas não gosto desse último!

         Ela abaixou o rosto, parecia ter ficado triste de repente. Lucas apressou os passos e colocou-se ao seu lado.

         — O que foi? – ele delicadamente segura o queixo da garota – foi porque falei sobre filmes de guerra?

         — Meu avô era militar e... Esquece! Qual é o seu nome? O meu é Eva.

         — Eu sou Lucas. – ele pegou a mão direita dela e aproximou-se para dar um beijinho no rosto e ela recuou um pouco, mas deixou.

         — Bem... Lucas! Você está aqui com mais alguém? Na fazenda?

         — Meu pai a comprou tem pouco tempo e agora viemos todos para passar um mês. Somos eu, meus pais e minha irmãzinha.

         — Quantos anos ela tem?

         — Ah! É uma pirralha, de sete anos.

         — E onde ela está?

         — Ficou na casa com os empregados, tem medo de cair do cavalo.

         — Você não tem mais irmãos tem? Mais crianças na família?

         — Temos uns primos pequenos, mas eles moram longe, quase não os vemos. Por que o interesse em crianças? Você tem irmãos menores? Já sei, é por isso que está aqui sozinha, eles te encheram a paciência e...

         — Olha Lucas, fico grata por conhecê-lo, mas tenho que ir.

         — Onde você mora?

         — Moro naquela direção! – com o braço estendido ela aponta na direção da porteira onde se podia ver um barranco alto e coberto de névoa.

         — Parece ser um lugar frio.

         — Eu já me acostumei.

         E os dois caminham, não falam mais nada, no entanto, Lucas segura a mão de Eva, o que faz com que a garota fique ruborizada. Ambos sentem algo estranho brotar dentro deles, uma sensação boa e quente.

         — É aqui, não pode me levar mais além deste ponto.

         — Por quê? Não tem namorado, tem?

         — Não seu bobo! Meus pais são um tanto... Antiquados.

         E lembrando de como Eva havia ficado com o beijo no rosto Lucas abaixa-se e beija a mão da bela donzela como deveria fazer um cavaleiro medieval. Em agradecimento ela retribuiu com mais um belo sorriso. O galante garoto sobe em sua montaria e fica um tempo admirando a menina, mas então se lembrou de algo importante.

         — Ei Eva! Espere! Preciso te ver de novo!

         A interação entre os dois estava tal que Lucas não percebera que nuvens carregadas haviam se formado no céu e então pingos grossos começaram a cair. A garota começou a correr em direção à névoa. O menino vai atrás dela.

         — Eva espera, eu te levo para casa!

         Mas os planos de Lucas são interrompidos pelo inesperado, Eva havia sumido em meio a neblina e de repente a mesma sensação que ele sentiu na cozinha, como se outras pessoas estivem bem perto, mas não conseguiu ver pessoa alguma.

         — Eva! Eva é você?

         E o cavalo assustou-se, relinchou alto, deu uma empinada que quase derrubou o garoto, virou e voltou em disparada.

         No momento em que seus pais e o irmão saíram Ceci voltou para o seu quarto e para os seus brinquedos. Enquanto despejava o conteúdo de uma caixa de papelão no chão reparou que não estava sozinha, uma sombra aproximava, virou-se e deu de cara com Antônia, a filha de Genival e Josefina.

         — Oi! Quer brincar também?

         Ceci achou a moça estranha, ela tinha um olhar assustado.

         — Não! Estou aqui só pra... Para varrer o corredor!

         — Está bem. – e a menininha pega seu fiel Pingo e o coloca sentado diante de uma mesa cor de rosa, ao lado de outra boneca e um cavalinho de um olho só.

         Antônia sentiu bem no fundo de seu ser uma tremenda vontade de sentar-se ali e brincar também, mas esse pensamento foi logo afastado de sua mente quando ouviu algo estranho.

         — Ela é o quê? Você tem falado muito baixo Pingo, quase não ouço você!       

         Antônia ouviu um sussurro:

         — Ela tem medo.

         A moça virou-se rapidamente e lá estava Cecília brincando animadamente como se nada tivesse ocorrido. Antônia larga a vassoura, entra no quarto, abaixa-se, segura firmemente os braços da garotinha e diz:

         — O que você disse? Por que disse que eu tinha medo, medo de quê?

         — Você está me machucando!

         Só então Antônia percebe que apertava um dos braços da garotinha.

         — Desculpe... Mas por que falou aquilo?

         — Mas não fui eu... foi o Pingo!

         A doméstica olha para o boneco que tinha um sorriso largo e olhos grandes e brilhantes e viu que estava imaginando coisas, mas ouviu-se então o barulho de coisas caindo e quebrando no chão.

         — A cozinha. Precisam de você lá. – Cecília ficou séria, parecia até mesmo um adulto falando.

         Antônia saiu correndo.

         — Mãe!

         Quando chegou à cozinha Joselina estava tentando se levantar do chão, segurava a própria garganta e estava com o rosto todo vermelho. Antônia a ajuda a levantar e acomodar-se numa cadeira, pega um copo com água e o serve. Depois de um gole a mulher respira fundo e diz ainda com a voz rouca:

         — Agora está tudo bem... Eu estou bem!

         — Como assim mãe? O que aconteceu aqui?

         — Nada minha filha. Apenas engasguei e só. Ajude-me a recolher os pedaços de vidro, devo comunicar ao senhor Nicolau para descontar de meu salário.

         — Mãe? Foi só isso mesmo?

         — Sim minha filha, já lhe disse, volte a varrer o chão, vou continuar a aprontar o almoço, os patrões já devem estar voltando.

         Antônia conhecia a mãe o suficiente para saber quando ela estava escondendo alguma coisa, aquilo não foi apenas um engasgo. Ouviu passos rápidos, olhou para trás e nada viu. Resolveu voltar ao quarto da garota, ela sabia exatamente de onde estava vindo o barulho. Quando chegou o quarto estava fechado, ela girou a maçaneta e tentou abrir a porta, mas esta parecia emperrada.

         — Cecília por que fechou a porta?

         Forçando a madeira com o ombro ela consegue abrir o aposento, mas estava vazio. Assustada ela percebe que o seu pai a estava chamando e resmungando.

         — Antônia! Preciso de ajuda com estes cachos de bananas! Pare de viver no mundo da lua!

         — Estou indo pai.

         A jovem vai ajudar o pai a levar as frutas para um canto da cozinha, mas a menina Ceci não saía do seu pensamento, aonde ela havia ido, sentia-se responsável pela garota, afinal, havia sido grossa com ela e isso poderia trazer graves conseqüências. Voltou ao quarto e desta vez estava com a porta aberta, lá dentro a menina novamente brincava como se nada tivesse acontecido.

— Antônia! Termine logo de varrer e venha me ajudar com o almoço!

Pelo menos a garganta de sua mãe já estava boa o suficiente para ela gritar suas ordens.

Mais adiante Nick e a esposa procuravam o filho. Até que ele surge cavalgando devagar e de cabeça baixa.

— Filho! O que houve? Você está encharcado! – diz Amanda aproximando-se o suficiente para acariciar os cabelos molhados do filho.

— Isso é suor? Esteve correndo com seu alazão? – Nick estava feliz vendo o filho curtir a fazenda.

— Aqui não choveu? Peguei praticamente uma tempestade lá atrás!

— Não! Aqui estava quente e sem nuvens. Vamos filho, vamos almoçar, não gosto de ficar tanto tempo sem minha bonequinha!

— Está bem mãe, quero tirar logo essa camisa ensopada.

— Sinto algo diferente em você moleque, aconteceu algo?

— Algo? Não! – como explicar sobre a linda garota que o encantou e depois desapareceu como por mágica? – nada demais, só estou com fome!

Dizendo essas palavras o jovem sai em disparada com seu cavalo.

— O que foi aquilo?

— O que foi o quê Amanda?

— Por que falou com ele daquele jeito?

— Coisa de homem.

— Que coisa de homem? Não estou te entendendo Nicolau!

— Sabe aquele sentimento especial que eu senti quando lhe conheci?

— Sim. Você já me falou disso, mas... Você não acha que nosso filho está...

— Apaixonado? Aquele brilho no olhar é inconfundível!

Depois de tomar banho e vestirem-se com roupas confortáveis e frescas a família Heinrich prepara-se para almoçar.

— Mamãe, mamãe!

— Fala princesinha do meu coração. Como foi sua manhã? Brincou muito?

— Desenhei muito e brinquei também com o Pingo e a Helga!

— Helga? O Pingo eu sei quem é, mas essa Helga é nova. Deixa-me ver seus desenhos, venha aqui para a sala, coloque os papéis na mesinha.

— Ah pai! Eu estou com fome! – resmunga o garoto ao ver que a refeição seria interrompida pelos caprichos infantis da pirralha da sua irmã.

— Acalme-se Lucas, quando você era menor a gente também largava tudo para ver seus desenhos. Pode ir pra mesa, eu vou ver os desenhos de sua irmã. – diz Nick tentando compensar por ter deixado a filha em casa.

— Que lindo desenho Ceci, explica pra gente. – diz a mãe carinhosamente.

— Esta aqui no meio sou eu, vê o pijama? Este é o Pingo...

— Sim, você está segurando o Pingo, mas e essa outra garotinha? É alguma amiguinha do colégio? – quis saber o pai.

— Não papai! Esta é a amiguinha que falei pra mamãe, a Helga.

— Por que a Helga é do seu tamanho e o Pingo é pequenininho?

— Ah pai, o Pingo é baixinho mesmo... Hum... Minha barriguinha está roncando, podemos almoçar agora? – a doce menininha abraça a mãe.

— Tudo bem. Estamos todos com fome e a Joselina já pôs a comida na mesa.

Enquanto todos comiam Ceci viu a expressão de preocupação de Joselina ao ver os outros desenhos que estavam na mesinha. Por um instante seus olhares se cruzaram e a menina deu um sorriso enigmático que fez com que a cozinheira ficasse nervosa e com os olhos marejados. Apenas Ceci notou isso, mas também não contou a ninguém.

Assim como na hora em que Lucas cavalgava a chuva chegou de repente, e desta vez veio mais forte, o vento zunia feroz e o som parecia fantasmagórico. Raios rasgavam o céu prateando tudo ao redor e os trovões faziam parecer um terrível bombardeio aéreo.

— Está chovendo muito, então não vamos poder passear mais hoje. Vocês querem ficar conosco em nosso quarto?

— Sai dessa pai! Chame a Ceci, é ela quem tem medo de raios!

— Ceci? – pergunta a mãe.

— Não tenho mais medo de raio mamãe, meus amiguinhos me protegem, além do mais... Sei que a senhora e o papai querem namorar.

— Ceci! – fala surpreso o pai.

— Você vai ficar bem meu anjo?

— Vou sim mamãe.

— Lucas. Antes de ir pro seu quarto verifique se a janela do quarto de sua irmã está bem fechada.

— Sim senhor.

Então cada um foi para seu respectivo quarto, menos Lucas, que foi verificar a janela do quarto de Ceci, lá chegando viu a costumeira bagunça de brinquedos espalhados. Com cuidado Lucas andou como se ali fosse um campo minado e, caso pisasse em alguma peça daquelas, o grito de sua irmã teria efeito parecido a uma bomba explodindo. Foi até a janela que ficava ao lado da cama e verificou-a.

— Quer que eu feche as cortinas?

— Pode ser. – diz a menininha enquanto arruma novamente sua casa de bonecas.

Ao puxar um dos lados da cortina Lucas vê o que parece ser dois, não, três pares de olhos brilhantes entre a vegetação lá fora, logo depois um raio risca o céu clareando tudo, o menino enxerga nitidamente crianças na chuva, no entanto, a imagem some tão rapidamente quanto surgiu.

— O que foi Lulu? Você está tremendo!

— Na-nada!

A garotinha pega no pulso do irmão e lhe fala:

— Você tem um segredo não é?

— Segredo? Não! Olha! Deixa eu verificar de novo a janela, quero ir logo pro meu quarto dormir um pouco, você devia fazer o mesmo!

Ele foi para o seu quarto, mas não dormiu de imediato, ficou lembrando de Eva e de como ela parecia uma daquelas pinturas antigas que viu rapidamente no livro de História da Arte. Adormeceu depois de ouvir umas poucas músicas românticas de seu arquivo.

A Ceci aproveitou o silêncio para explorar a casa, pisando na ponta de seus pezinhos, devidamente calçados em pantufas de pés de coelho cor de rosa, ela falava baixinho e seguia em direção aos fundos da casa, viu que Joselina, Genival e Antônia estavam ocupados arrumando a dispensa e passou rapidamente para o outro lado da cozinha e empurrou uma porta de madeira que estava fechada há anos. O aposento possuía coisas muito velhas e empoeiradas: cadernos, livros, roupas escuras e umas coisas redondas que lembravam capacetes.

— Ceci? Onde você está garota chata?

E Ceci parece despertar de um sonho acordado, volta-se e vê seu irmão a procurá-la.

— Eu tô aqui Lulu, quero água!

Ela lança um olhar de filhotinho manhoso para o irmão que acaba por se derreter e vai colocar um pouco de água num copo de plástico rosa ornado com figuras de alguma animação de cinema, para sua adorável irmãzinha. A verdade era que amava aquela doce criança, era só ele não demonstrar isso a ela e tudo ficaria bem.

As horas passam e a chuva diminui, mas não pára. A família Heinrich reúne-se para sua refeição noturna e mais uma vez Nick aproveita para fazer mais uma de suas declarações.

— Bem família... Tenho duas declarações a fazer, uma boa e uma ruim, a ruim é que a TV está fora do ar, mas... Ainda temos jogos!

O dono da casa saiu por uns instantes e voltou com uma grande caixa de papelão. Nick levou os passatempos justamente para unir a família em algo que não fosse ao redor da televisão com todos aqueles programas impróprios, por isso mesmo, naquele momento Nick sentia-se feliz e isso não tinha nada a ver com a mansão, nem com a fazenda ou o dinheiro, mas por que estava aconchegado, abrigado da chuva, aquecido e via o contentamento no rosto de cada um de seus familiares ali presentes, todos estavam bem e isso era o que realmente importava. Estavam tão distraídos que não viram as horas passarem. Jogaram partidas de buraco, damas, jogo da memória, dominó e até mesmo alguns jogos bobinhos que Cecília havia levado, a menininha sentia-se muito feliz por estar ali se divertindo com sua família, até mesmo o chato do seu irmão jogou também, ela apenas parava de vez em quando e falava alguma coisa no ouvido de Pingo. A família estava compenetrada na brincadeira, afinal, não havia necessidade de acordar cedo e todos foram dormir depois da meia noite.

Enquanto isso nos últimos quartos da casa, que eram reservados para os empregados, apenas Genival dormia e roncava tranquilamente. Joselina permanecia deitada, olhando para o teto esperando o calmante fazer efeito para que pudesse ter um sono pesado e sem sonhos, caso ela resolvesse se olhar num espelho iria perceber duas manchas arroxeadas situadas em volta de seu pescoço, tais manchas eram compridas e poderiam muito bem parecer com marcas dedos de crianças. No quarto ao lado Antônia revirava-se agitada sonhando com sombras de um metro de altura que a rodeavam e tentavam pegá-la com suas sujas mãos pequenas. Era noite também no sonho, mas, apesar da claridade da lua, não conseguia vislumbrar detalhes dos rostos de seus atacantes, pareciam anões amaldiçoados, pequenos demônios ou coisa parecida. O cheiro de mato molhado e pisado entrava pelas narinas da moça e um vento frio a açoitava como um chicote afiado, ela tentava gritar, no entanto não saía som algum de sua garganta.

Talvez se Antônia levantasse e saísse de seu quarto poderia ter a impressão de ver duas daquelas mesmas sombras de seu pesadelo rondando a casa.

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