Arianos - trágico e bucólico
Arianos - trágico e bucólico
Por: Emerson Monteiro
Primeiro

Antes de iniciar a sua leitura quero fazer duas observações:

A primeira é um aviso.

Apesar das máscaras na ilustradas na capa este não é um livro infantil, trata-se de um suspense, portanto, impróprio para menores.

A segunda observação é sobre o título.

Apesar de ser coerente com a trama, não estou aqui em momento algum me posicionando sobre qualquer ideologia. É simplesmente uma ficção e deve ser tratada como tal.

Este livro, assim como outras histórias que transcrevi, teve início em um breve sonho, onde me via como criança, brincando de pega-pega com uma linda garotinha loira e outros meninos. Corríamos por um casarão antigo que ficava em uma fazenda, mas este lugar continha uma estranheza peculiar que me deixava apreensivo, lá fora uma névoa deixava tudo com um ar fantasmagórico.

Quando acordei decidi desenvolver uma história ambientada naquele mesmo cenário e a garotinha também entrou no enredo.

Assim nasceu Arianos.

Emerson Monteiro da Silva

Nicolau Heinrich ou Nick, como gostava de ser chamado estava radiante, aproveitando mais um dia de realizações. Naquele momento ele e sua família sobrevoavam de helicóptero a sua nova aquisição: uma fabulosa fazenda que se perdia de vista de tão grande. Alguns amigos o preveniam sobre o esbanjamento, afinal de contas ele era o que chamamos hoje de novo rico.

Há quase dois anos ele era apenas mais um pai de família trabalhador, batalhando pelo pão de cada dia para sustentar sua família. Formado pela Universidade Federal de seu estado ele lembrava com tristeza de quando ouvia as pessoas dizerem que bastava um diploma para consolidar uma carreira, ter um futuro garantido. Infelizmente as coisas mudaram radicalmente e aquele papel timbrado conseguido com tanto esforço já não era mais garantia de nada. Seguiu seu caminho mesmo assim. As dificuldades não o impediram de conquistar o coração de uma bela garota. Consequentemente veio o casamento e antes mesmo de completar um ano de matrimônio veio ao mundo o primeiro filho. O casal cuidou para que a família fosse reduzida, não sabiam se o orçamento familiar suportaria mais crianças e foi assim por muito tempo, até que, sem nenhum planejamento a esposa deu a luz a uma garotinha. A situação apertou, eram muitas despesas e as contas sempre se faziam presentes. Estava difícil, mas algo em seu íntimo lhe dizia que aquele não era seu destino.

Numa madrugada, pouco depois de conciliar o sono, Nicolau teve um belo sonho. Neste sonho ele caminhava por uma propriedade, uma linda fazenda, o que mais impressionava era a sensação que tomava conta de sua mente e repercutia em seu corpo. Sentia-se

orgulhoso, ousava dizer até que estava realizado, aquela imensa propriedade era sua. Ele via seus filhos brincando pelos campos e sua mulher acenava de longe enquanto olhava as crianças. Então ele sente uma presença ao seu lado, não conseguia ver, mas ouviu uma voz feminina com sotaque estrangeiro lhe sussurrar números. De um salto Nicolau acorda e a primeira coisa que procura é um lápis ou uma caneta, não quis perder tempo procurando um papel, anotou com uma caneta preta os números nas costas da mão. Naquele mesmo dia, no intervalo do almoço ele ia fazer algo em que não costumava acreditar, ia numa lotérica fazer um jogo. Imagine a surpresa ao constatar que havia um prêmio acumulado. Quando viu o valor tão grande, um arrepio lhe percorreu os braços, como se uma carga elétrica por ali passasse. 

Nicolau não contou à esposa sobre o sonho, também não contou que jogara na lotérica, apenas esperou o horário de divulgação do concurso. Ele ficou pálido ao conferir aquele pequeno papel em suas mãos. Como algo tão pequeno poderia causar uma revolução tão grande na vida de uma família? Havia ganhado um prêmio acumulado na loteria. Muitos pessimistas disseram que não iria durar muito e que em pouco tempo estaria até com menos do que antes do concurso. Ele encarava tudo isso como inveja, olho gordo, despeito, e tentava não dar ouvidos aos comentários, afinal, batalhou a vida inteira se sacrificando em trabalhos desgastantes em escritórios, sendo menosprezado e humilhado por chefes que tinham o rei na barriga e que sempre o ameaçavam dizendo que outro trabalharia pela metade do salário, agora tudo havia mudado e para melhor, nunca mais seria tratado como inferior pelo fato de não ter ninguém poderoso conhecido para ajudá-lo ou por simplesmente não ter dinheiro o suficiente para freqüentar a alta sociedade, agora ele fazia parte deste grupo seleto. Havia empregado sua inteligência antes de esbanjar o dinheiro, precisava fazer rendê-lo e manter reservas, por isso reaproximou-se de um ex-colega dos tempos de faculdade que já era rico e entrou como sócio em sua empresa. Tempos depois outros dois sócios entraram e então Nicolau teve que se habituar a trabalhar lado a lado com pessoas que não confiava e que mantinham o mesmo poder dentro da empresa. Ele conversou com seu amigo, tentou dissuadir da idéia de agregar mais gente à cúpula empresarial, mas a situação financeira falou mais alto e o aumento de membros na sociedade garantiu mais segurança e mais clientela, em outras palavras: lucro.

         Aquela situação deixou Nick eufórico, mas ao mesmo tempo cansado. Nunca imaginou que ser chefe seria tão desgastante. Seu sócio o aconselhou a sair de férias com a família, curtir uma praia ou até mesmo um ambiente rural. E foi daí que veio a idéia de comprar uma fazenda. Ele já havia adquirido casa de praia, apartamentos, mas uma fazenda seria algo desafiador para alguém que passou a vida inteira na cidade, mas ele pensou:

         — Quando tive a revelação dos números premiados em meu sonho eu me via numa bela fazenda. Eu tenho a obrigação de adquirir aquela fazenda de meu sonho!

         E foi o que ele fez.

         Enquanto via a extensão de terra coberta por grama, trechos de vegetação nativa e árvores frutíferas das mais diversas, um trecho de mata fechada e um rio que cortava parte do terreno ele relembrava como foi um verdadeiro golpe de sorte o que aconteceu. Estava num shopping no centro da cidade, havia comprado pipoca e já voltava para a fila do cinema onde estava sua família quando percebeu logo à sua frente dois casais conversando. As mulheres falavam de coisas triviais como sapatos e roupas de grifes, os homens falavam de compra e venda de imóveis.

         — Tem certeza de que não está interessado?

— Olha... Eu até gosto de lidar com a terra, mas aquela região é um pouco fria e minha alergia não ia me deixar em paz...

Nick ao ouvir aquilo percebeu uma chance de ouro. Tratou de aproximar-se e jovialmente interferiu na conversação:

— Com licença! Desculpem minha intromissão, mas o senhor está vendendo alguma propriedade?

— Sim! Sou corretor e estou vendendo uma fazenda maravilhosa! Sou Tony! – e o sujeito risonho lhe estendeu a mão.

— Sou Nicolau Heinrich. Estou justamente querendo comprar uma fazenda.

— E eu sou o Bento. – mais apertos de mãos – Eu vi as fotos desse lugar e é realmente lindo, o preço é um pouco salgado, mas não faço negócio justamente por causa de meu problema com o frio e a chuva. Heinrich você disse? Então é alemão?

— Meus avós... Todos os quatro, mas nasci aqui mesmo.

Os homens trocaram olhares e em ambos surgiu uma fisionomia enigmática, como se fossem duas esfinges.

— Olha... Está chegando a vez de vocês irem ao guichê e eu tenho que levar essas pipocas para a garotada.

— Você tem filhos? – perguntou o que se chamava Bento.

— Sim! Um garotão e uma princesinha.

— Ótimo! Eles vão adorar correr pelos campos. Tome. Aqui está meu cartão com os horários que atendo no escritório e o e-mail também.

— Sim... Pode esperar que vou ligar com certeza!

E Nick saiu radiante com aquele encontro fortuito. Chegou ao meio da fila com um sorriso que ia de orelha a orelha, o que não passou despercebido pela sua família.

— O que houve querido? Por que essa cara de pateta?

— Pateta, hi, hi, hi! – falava baixinho a garotinha.

— O que vocês acham de passar uns tempos numa maravilhosa fazenda?

— Que fazenda Nick?

— A que vou agregar ao nosso patrimônio!

Parte do sucesso de Nicolau era devido à sua esposa, ela sempre lhe pediu calma, pra que agisse sempre com cuidado e nunca por impulso, se dependesse da euforia de Nick ele compraria a fazenda ali mesmo na fila do cinema, no entanto, sua esposa lhe aconselhou a ver todos os detalhes. Coisas como documentação, o que vinha junto com a propriedade, quanto media, se o valor era mesmo justo, quem eram os antigos proprietários...

Nicolau confiava na esposa, mas achava que ela exagerava às vezes, então resolveu que deveria checar com um grande amigo, o Lourival, ele daria esse apoio, pois era advogado e entendia de transações de vendas e todos os trâmites legais. Nos dia seguinte, logo pela tarde, Lourival foi visitar o amigo Nicolau, fazia tempos que não se viam, mas mesmo assim foi recebido com carinho por todos, inclusive as crianças que sempre pediam que a levantassem o mais alto possível. O advogado era um homem alto magro e sorridente. Sua altura e a cor de sua pele lhe renderam a alcunha de jogador de basquete. Curiosamente Lourival sempre foi um péssimo desportista. Outra brincadeira era o fato de seu apelido ser Louro.

Depois de muito analisar a proposta de venda, se era verdadeira, pois Lourival temia se tratar de um golpe, viram várias fotos do local mandadas por e-mail e a expectativa aumentava. Foi uma semana inteira de verificações e pareceres.

— E então Louro? O que está faltando para eu fechar negócio?

— Sabe Nick... Tudo parece em ordem, mas...

— Mas o quê homem? Você mesmo disse que a documentação está toda em ordem, que é tudo legítimo!

— É que acho estranho um patrimônio de uma família de tradição de várias décadas ser desfeito assim, de uma hora para outra!

— Quantas vezes vimos acontecer dessas coisas, o dono fica mal de grana e...

— Eu sei Nick... Mesmo assim, tem algo a mais que não consigo ver...

— Isso já é outro problema e são esses seus óculos que precisam de revisão!

— Sabe... Eu vou fazer uma viagem de alguns dias, coisa rápida, espera eu voltar para você finalizar essa compra!

Lourival estava apreensivo, não sabia exatamente o porquê, era uma sensação que lhe apertava o peito o deixava com falta de ar, toda vez que pensava na compra daquela bendita fazenda pelo seu amigo Nicolau. A preocupação lhe tirou o sono, ele virava de um lado para o outro da cama de casal que há meses ocupava sozinho, desde o divórcio. Resolveu que ia assistir TV até vir o sono, mas assim que se levantou olhou para o notebook e o iniciou. Algo em sua mente parecia lhe dizer que deveria fazer uma pesquisa na internet e foi exatamente o que ele fez. Colocou o nome e o endereço da fazenda no campo de pesquisa do buscador, mas não apareceu nada que ele já não havia visto. Sem pensar no que estava fazendo ele apagou o nome da fazenda, deixando apenas o endereço e procurou não por imagens, mas por notícias e um l**k no final da página lhe chamou a atenção. Não se tratava de questões imobiliárias, nem sobre agricultura ou criação de gado, mas sim um site sobre coisas aterrorizantes. Lourival sabia que nem tudo que aparecia na web era de total confiança, no entanto, quando abriu o l**k surgiu logo uma fotografia de uma criança numa janela, a imagem não era nítida, mas dava para identificar uma garota usando roupas de época. Uma legenda dizia tratar-se de um fantasma. Seria possível? Podia muito bem ser uma montagem, mas o que impressionou foi o fato daquela janela ser realmente parte da casa que seu amigo ia comprar. De repente, o fato dos moradores quererem sair ás pressas do lugar devido a assombrações pareceu fazer algum sentido. Lourival desceu a barra de rolagem e surgiu na tela mais matérias sobre o local, curiosamente chamado por outro nome. Havia ali mais imagens, muitas em preto e branco, mostrando pessoas alvas, todas com características européias. Acionou com o mouse para voltar ao início do parágrafo e ler, mas nesse exato momento um súbito curto fez sua máquina entrar em pane, dando um estouro que rachou a tela do aparelho e emanou uma nuvem de fumaça.

Na manhã seguinte Lourival realmente se preparou para viajar, mas não estava indo tentar resgatar seu casamento, como era seu plano original, mas estava indo visitar aquela fazenda que tanto o intrigava. Pegou a estrada e seguiu o roteiro como estava no mapa, depois de muito asfalto teve que adentrar por um caminho de barro batido, em outras circunstâncias ele adoraria admirar a paisagem, mas não era esse o caso, a ansiedade oprimia novamente seu peito, a respiração difícil o fez por duas ou três vezes derrapar e quase sair da estrada. O tempo transcorria e nada de vislumbrar a propriedade até que surgiu uma dupla de trabalhadores puxando uma carroça, a pele era curtida pelo sol, mas tinham traços finos e cabelos loiros.

— Boa tarde amigos! Estou procurando uma fazenda que está á venda e...

Os sujeitos se encararam e depois um deles apertou os olhos observando bem o ocupante do automóvel.

— O senhor vai comprar o terreno?

— Bem eu... Sim... Estou pensando em adquirir o terreno. – não sabia por que havia mentido, mas sentia que isso protegeria o amigo.

— Eu posso apontar o caminho para o senhor, mas lá mais na frente o senhor pode se atrapalhar.

A alternativa era levar o homem em seu carro, um completo estranho, mas não tinha outro jeito, ele se esticou e abriu a porta para o sujeito entrar. De repente se sentiu como aquelas tolas vítimas que convidavam o vampiro para adentrar em sua morada.

— Desculpe tirá-lo de seus afazeres, mas é que sou novo por essas bandas... E seu amigo?

— Ah! Meu irmão? Tem problema não seu moço, aqui a gente sabe se cuidar.

E o homem acena com a cabeça para o outro que permanecia junto à carroça. O que incomodava Lourival era a seriedade daqueles dois.

— O senhor pode seguir em frente por meia hora pelo menos.

Segue-se um silêncio constrangedor e Lourival decidiu quebrá-lo ligando o rádio, só estática, mexeu no dial e então um ruído alto colocou por terra a idéia de ouvir música. Ao lado o homem permanecia calado com os olhos fixos na estrada que se descortinava à frente do automóvel.

— Eu não pude deixar de reparar uma coisa seu...

— Gustav!

— Seu Gustav... O senhor me parece uma pessoa bem esclarecida para alguém que mora num lugar como esse...

— O senhor quer dizer que um homem que mora na roça não pode ter uma boa educação?

— Não quis dizer isso! Apenas acho um tanto quanto... Incomum! Seus pais são imigrantes?

— Meus bisavós.

E voltou a ficar mudo. A estrada se prolongava e nada além de mato, barro, pedras, poeira e um contrastante céu azul. Lourival já estava mais do que apreensivo, será que foi uma boa idéia ter chamado aquele homem para guiá-lo?

— Ali. – o sujeito apontou uma bifurcação à esquerda.

Depois de se certificar de que não vinha nenhum veículo nos arredores Lourival atravessa a estrada e desce por uma via um pouco mais estreita, dali podia ver uma ponte, um caminho que subia, cercas bem cuidadas, uma e outra cabeça de gado e acima de tudo uma mansão. Havia finalmente chegado à fazenda dos sonhos de seu amigo. Parece que se precipitara em julgar o colono, afinal ele o havia trazido ao local que queria chegar. Parou o carro e meteu a mão num dos bolsos da calça, iria pagar pelo favor. Foi então que o homem loiro falou:

— Sabe... Eu também estava pensando uma coisa...

Lourival apenas parou para encarar o rosto inanimado do sujeito. Nada a não ser uma grande interrogação pairava em sua mente. Esperou o carona continuar seu raciocínio.

— Eu estava pensando como um ser inferior e desprezível como você pode aparecer aqui usando essas roupas novas, dirigindo um automóvel e ainda tendo a petulância de dizer que vai comprar as terras de minha gente. O que há? Roubou esse dinheiro de quem?

— O quê?

Não houve tempo para nada, o “caipira” avançou no pescoço de Lourival e suas mãos começaram a estrangular, e aquelas mãos eram incrivelmente fortes. Não havia escapatória para o pobre e pacato advogado. Quem passasse por aquela estrada uma hora depois não perceberia nada fora do normal, não veria ninguém, nenhum carro, apenas uma paisagem linda de tirar o fôlego.

Nem é preciso dizer que o ocorrido na entrada da fazenda não chegou ao conhecimento de Nicolau Heinrich, pois este imaginava que o amigo havia viajado para tentar uma reconciliação com a ex-esposa, motivo pelo qual não retornava suas chamadas. De qualquer forma a decisão já estava tomada: seguiria adiante com a compra da fazenda.

         Nick tinha belos entes queridos que poderiam se passar facilmente por uma família européia, todos, inclusive ele, eram loiros: sua esposa Amanda, seu filho Lucas de quatorze anos e sua adorável caçula, a Cecília, ou Ceci, como gostava de ser chamada, de sete.

         O helicóptero pousa depois de quase meia hora sobrevoando toda a extensão da fazenda. O corretor disse que era uma propriedade muito antiga e que pertencia a uma família de alemães que um dia resolveu voltar para sua terra de origem, por isso estava vendendo por um preço camarada.

Quando a família desce da aeronave o corretor vai à frente mostrando e descrevendo o lugar:

         — E agora vamos voltar à sua linda casa e...

         — Moço, moço! – puxava a calça do corretor a garotinha Ceci.

         — O que foi meu anjo?

         — O que tem naquela parte cheia de fumaça?

         — Fumaça? Ah... A neblina! Aquele trecho fica quase sempre assim mocinha, dizem que é porque tem a nascente de um rio perto, a água é muito fria, e porque é um trecho mais alto também.

         — Não tem fantasmas lá tem?

         O homem de repente parou e sem graça falou à menininha:

         — Fantasmas? Não existe tal coisa. Ahan! Pois bem, vamos continuar Nicolau? Aqui estão as chaves.

         — Ei! Que droga! – reclamou o garoto.

         — Lucas! Olhe os modos! – diz a mãe puxando-o pelo braço.

         — Este fim de mundo não pega internet e acho que a linha de meu smartfone não funciona também!

         — Meu filho, quantas vezes vou precisar lhe dizer que estamos aqui para curtir as férias e a natureza, por que não aproveita para brincar com sua irmã por aí? – o pai tenta acalmar os ânimos.

         — Eu não vou brincar com uma menina, principalmente uma criança! Vamos entrar logo, quero ir pro meu quarto jogar e ouvir música, isso pelo menos não foi afetado aqui!

         — Pré-adolescentes! Sabe como é essa galerinha quando chega nessa idade!

         — Não precisa se explicar Nicolau...

         — Nick, por favor!

         — Está bem Nick! Vamos entrar para que eu possa mostrar as dependências e todo o espaço interno, vocês verão que é tudo um luxo e extremamente confortável.

         Ao entrarem na mansão a família percebe que realmente tudo é muito bonito, um lugar amplo com móveis modernos, apesar de espaçoso era aconchegante.

         — Seu Tony? – pergunta Amanda ao corretor – Eu tenho uma dúvida.

         — Pois não senhora?

         — Você nos disse que esta fazenda foi ocupada por décadas por uma família de alemães, não é isso?

         — Exatamente.

         — E por que tudo que vemos é uma construção nova e nada de antigo, eles quiseram levar tudo referente à sua história?

         — Bem... Tudo que sei é que os descendentes não quiseram mais viver aqui, sentiam muita vontade de voltar à Alemanha. Quanto às coisas antigas eles devem ter levado consigo. Havia uma antiga casa em outra parte do terreno, mas foi demolida anos atrás. Nem sei onde ficava tal construção.

         — Ah querida! Nada disso importa agora, vamos ver o resto da casa.

         Tony, o corretor, apresenta os cômodos da casa para a família Heinrich. No pavimento térreo dois quartos que seriam ocupados por Lucas e Ceci, dois outros quartos para hóspedes, uma grande sala com sofás brancos e macios, um cômodo para as refeições com uma mesa de vidro e cadeiras pretas de espaldar alto, uma cozinha equipada com uma geladeira, um freezer, um fogão que parecia ter vindo de um requintado restaurante, dois outros quartos nos fundos para os empregados, uma lavanderia, dois banheiros, uma dispensa e um outro quarto que ficava fechado, provavelmente uma dispensa reserva. No andar de cima o maior quarto reservado ao casal com suíte, outro quarto, mais uma sala e uma varanda. Depois de visitarem todos os cômodos o corretor tendo seu trabalho concluído apressa-se para chegar ao helicóptero. O homem corria como se tudo à sua volta o quisesse engolir.

         — Senhor Nick foi um prazer fazer negócio contigo, aqui pode ter dificuldade para pegar celular, mas o telefone funciona, caso precise de alguma coisa é só ligar. O senhor saberá voltar tranquilamente pela estrada na volta?

         — Sim. A estrada é de terra, mas meu carro é quase um trator, não se preocupe.

         — Olha... Eu vou fazer uma viagem daqui a uns dias, portanto, pode deixar recado com minha secretária.

         — Engraçado você dizer isso!

         — Isso o quê? – o homem repentinamente pareceu preocupado.

— Nada... Esquece! Espero que não precise ligar, o que pode dar errado num paraíso como esse?

         — Nada! É como se esse lugar fosse feito para vocês! Adeus senhor Nick, aproveite suas férias e curta bastante esse... Paraíso! Agora se afaste.

         O homem entra na aeronave que logo depois some no céu por entre as nuvens. Por um momento Nick chegou a pensar que o corretor estivesse com pressa de ir embora, como se estivesse fugindo de algo ou alguém, mas afastou logo esse pensamento, afinal o sujeito era bastante ocupado, deveria ter outros compromissos na cidade, apenas isso.

         Lucas foi para o quarto que estava reservado para ele, jogou sua mochila no chão e atirou-se na cama, pegou os fones de ouvido e ligou seu aparelho.

         A pequena Ceci também se ajeitou em seu novo quarto, o que lhe interessava de imediato não era algo tão sofisticado como um aparelho eletrônico, mas aquele que ela considerava seu melhor amigo: o Pingo. Pingo era um surrado boneco de pano, um palhacinho com cabelos de lã alaranjados, uma carinha sorridente e roupas de tecido lustroso e colorido.

         — Oi Pingo! Tudo bem com você? Vamos brincar?

         Os pais de Ceci aproximam-se da porta entreaberta do quarto e observam a filhinha brincar solitariamente com seu boneco e ficam tristes por não verem uma maior união entre seus filhos, queriam vê-los brincando juntos, passariam um mês naquela fazenda, longe da civilização e de outras pessoas além deles e dos empregados, nada de crianças ou shoppings. O filho alegava que a distância de sete anos entre eles e o fato dele ser garoto e ela uma menininha era motivo suficiente para mantê-los afastados. Eles eram diferentes em tantas coisas, ele mal humorado e ela sempre alegre, ele meditativo, retraído, a irmã, comunicativa e brincalhona. Curiosamente, na cidade, Lucas possuía vários amigos, enquanto Ceci contava nos seus dedinhos da mão a quantidade de coleguinhas, todos do colégio, único local em que brincava com gente de carne e osso. Pelo menos ela não havia esquecido o “amiguinho” de pano no apartamento na cidade.

          Na casa trabalhava um casal e uma moça magra e tristonha filha desse mesmo casal. Eram: Genival, Joselina e a jovem Antônia. Os três eram sempre compenetrados em seus afazeres e muito eficientes, a casa estava limpa e cheirosa, mas o que preenchia mesmo o ambiente era o delicioso aroma do jantar.

         Uma longa mesa posta, com jarras de sucos de frutas diferentes, uma fabulosa lasanha, salada feita com vegetais frescos cultivados na parte dos fundos da casa, arroz de forno e um leitão assado. Os olhos das crianças brilhavam diante de tão apetitosa refeição. Enquanto isso, um sorriso disfarçado de Nick para sua esposa era uma senha que há muito não usava e significava que ele queria recordar os tempos de diversão anterior ao nascimento das crianças. Amanda sente seu rosto corar, mesmo sabendo que mais ninguém percebia o comportamento sigiloso dos dois.

         Todos comiam tranquilamente até que Ceci quebra o silêncio:

         — Dona Joselina! Tinha crianças morando nessa casa?

         A mulher pareceu empalidecer ao ouvir a pergunta, ela olhou para o marido que trazia uma bandeja com um apetitoso pudim para a sobremesa e foi ele quem respondeu à garotinha.

         — Crianças? Sim pequenina! Muitas crianças já correram por esta fazenda, mas isso tem muito tempo. – o homem falava com um sorriso sem graça no rosto e olhava para a esposa que mantinha um ar contrariado.

         O jantar prossegue e mais ninguém comenta algo que não fosse referente ao jantar e à sobremesa até o dono da casa resolver fazer um pronunciamento:

         — Bem... – diz Nick em tom animado – Já que todos terminaram eu quero dizer que estou muito feliz. Mais do que o dinheiro que agora temos e todo esse conforto, quero dizer que... Agora seremos mais unidos como família e prometo que farei de tudo para sermos sempre felizes e realizados!

         — Oh querido! Que discurso lindo! – a esposa o abraça e lhe dá um afetuoso beijo.

         — Tanta besteira!

         — O que disse Lucas? – pergunta o pai.

         — Hã! Nada não pai, estava só limpando a garganta.

         Todos estavam cansados da viagem e foram para seus respectivos quartos:

Nick e a esposa foram para o quarto de casal que ficava no segundo pavimento da casa, iriam aproveitar aquela noite como se ainda estivessem nos tempos de colégio;

 Lucas voltou à sua cama e aos seus fones de ouvido, assim como para sua playlist de músicas agitadas;

Ceci pegou uma caixa de papelão contendo utensílios de plástico, retirou-os e improvisou uma pequena sala de jantar cor de rosa, olhou para Pingo e convidou-o para jantar.

         As horas passam e ao contrário do que era de se esperar, todos estão acordados.

         No quarto maior o casal conversa um pouco, depois de relembrar os bons tempos e suas “brincadeiras” adolescentes.

         — Querido!

         — Fala minha linda.

         — Você acha que eles estão bem?

         — Quem?

         — As crianças seu bobo. Esqueceu? Temos dois filhos!

         — Ah... Eles vão ficar bem, estamos num lugar maravilhoso, vão acabar gostando daqui. E sabe o que eu ia adorar agora?

         — Nicolau...

         E o casal volta a se desligar do mundo externo ao aposento em que estão aconchegados.

        

No andar de baixo, em outro dos quartos Lucas ainda tenta dormir, mas uma sede repentina o faz levantar e interromper uma banda de rock no meio da música, ele retira os fones de ouvido, pois a orelha já doía um pouco. O garoto anda devagar, passa em frente ao quarto da irmãzinha e surpreende-se ao ouvi-la ainda brincando. A garotinha estava falando sozinha, como se conversasse com seus brinquedos, algo que Lucas se envergonha de ter feito anos antes. Ele gira a maçaneta, mas não consegue abrir a porta, parece emperrada.

         — Cecília? Por que trancou a porta?

         Lá de dentro a irmã responde:

         — Mas não está trancada!

         O garoto tenta novamente e agora a porta abre facilmente. Ele vê que a menina estava sentada na cama e segurava seu inseparável boneco de pano.

         — O que foi?

         — Nada! Está tarde garota, vai dormir!

         E a resposta da menininha foi colocar a língua pra fora.

         Lucas resmunga um pouco e sai em direção à cozinha, pouco importava se a irmã ia obedecer ou não, sabia que ela o achava um chato, mas se ele a achava uma boba então estavam quites. Abriu a geladeira, encheu um copo de água e enquanto bebia tomou um susto. Sentiu como se algo tivesse passado rapidamente por suas costas, ouviu uma risada e em seguida passos rápidos se distanciando.

         — Ceci!

         Largou o copo na pia e voltou resoluto ao quarto da irmã, estava disposto a reclamar com ela, não gostava daquele tipo de brincadeira. Girou a maçaneta e abriu a porta. A garota estava deitada e parecia dormir, mas com certeza ela estava fingindo, ele a ouviu correr, ouviu os passos de seus pezinhos tocando o chão rapidamente. A claridade da luz vinda do corredor iluminava os olhos do boneco palhaço que permanecia protegido no terno abraço de sua dona. O brilho naqueles olhos de plástico gerou um arrepio que subiu até o pescoço de Lucas, aqueles olhos pareciam vivos, por mais incrível que poderia parecer! Sentiu como se mais alguém estivesse ali, mas não havia pessoa alguma. Então ele calmamente fechou a porta e achou melhor voltar ao seu próprio quarto, para ouvir mais um pouco as suas músicas, queria esquecer aquela sensação e dormir.

        

Do lado de fora da casa, em meio ao mato algo se move, provavelmente um animal noturno passeando.

Leia este capítulo gratuitamente no aplicativo >
capítulo anteriorpróximo capítulo

Capítulos relacionados

Último capítulo