Capítulo 6

- E foi isso.... – Olhei para Anna que estava com os olhos arregalados.

- Meu Deus... que loucura, mas quem era ele? – Ela se jogou do meu lado na cama

- Não sei, só sei que o nome era Alex... – Suspirei meio triste de pensar na noite maravilhosa que eu tive e que nunca mais teria.... – Acho que era para ser assim né....

- Não era! Você devia ter ficado lá ou acordado ele com uma surpresa! – Anna ria e me olhava com uma cara de safada

- Podia né, mas sei lá a gente bebeu muito ontem, vai que ele ficasse decepcionado – respondi num impulso

- Arrependido de quê? – ela me olhava nervosa – De ter dormido com uma mulher gostosa e maravilhosa como você?

- Ai Anna... – olhei pra ela dando de ombros

- Para com isso agora Helena, você é linda – Ela disse séria

- Sei....

- Você é sim! Odeio quando você começa com isso – Ela segurou meu rosto – Eu não sei quem fez isso com você...

- Fez o que?

- Você achar que não é bonita e interessante! – Ela me olhava séria – Varias caras já pediram pra sair com você...

- É eu....  eu to confusa – Eu admiti

- Não é porque ele não gosta de você que isso te faz uma pessoa menos interessante sabia? – Ela se sentou do meu lado – Você é uma mulher incrível e eu quero você com a mesma atitude de ontem! Essa é você!!!

Eu olhei pra ela e era como se tivesse virado uma chave, essa era eu... Era Helena de verdade, ali eu não precisava dar satisfação pra ninguém, podia ser quem eu queria.

O restante da viagem foi tranquila, visitamos mais alguns lugares, mas as vezes eu me pegava observando em volta, pensando que talvez eu pudesse encontrar com o Alex, mas nada aconteceu.

Quando desci do táxi, olhei pra minha casa e senti uma angustia que eu não sabia explicar, era o local onde eu cresci, passei tantos momentos bons, eu não entendia em que momento ele tinha virado esse lugar que me causava mal estar, era como se eu fosse uma prisioneira, onde eu entrava e sentia que tinha que me portar de um certo modo, onde eu não me sentia em casa.

Suspirei e peguei minhas malas, Anna acabou pegando mais coisas do que eu realmente precisava, ela não gostou nada de saber que eu voltaria para casa, mas eu não queria mais incomodar, queria mais causar preocupação, eu abri o portão e quando passei pela porta, senti uma sensação de peso, olhei em volta e parecia estar vazia, deixei minhas malas próximo a porta e andei pelos cômodos procurando alguém, foi quando vi um bilhete pendurado na geladeira, era da minha mãe, informando que eles estavam na casa do lago do Ethan.

- Pelo menos não vou ter que lidar com eles agora.... – Deixei o bilhete pendurado e fui para o meu quarto, tinha deixado as malas ainda na possibilidade de sair correndo, eu me joguei na cama e fechei meus olhos por alguns instantes, aquela sensação ainda de ser uma intrusa permanecia, mas o que eu poderia fazer?

Levantei e fui até a janela, me sentia presa ali como se fosse difícil de respirar, olhei em volta e me sentei um pouco no chão olhando em volta, eu não conseguia entender o que eu sentia, quando foi me comecei a me sentir? Aquele foi o lugar onde eu brincava com meus irmãos, onde me trancava quando estava brava porque meus pais não queriam que eu saísse, onde me escondia quando o Ethan estava em casa.

Vi alguma coisa embaixo da cama, eu andei engatinhando até lá e foi quando puxei e vi que era uma caixa meio rasgada, quando abri vi que era uma caixa onde eu guardava meus tesouros, mas o que ela estava fazendo ali, tinha certeza que estava dentro do meu armário, só que ela não estava assim... eu suspirei.

- Claro que ia estar aqui, eu não posso nem guardar minhas coisas no meu quarto que sempre tem alguém fuçando! – eu sabia como funcionava, se eu reclamasse meus pais iriam dizer que a casa era deles, eu só aceitei aquilo e quando resolvi abri, vi meus diários, livros e muitas fotos.

- Não acredito nisso! – era uma foto minha e da Anna em uma festa – Graças a Deus eu melhorei um pouco....

Tinham fotos da gente criança e achei ate um desenho que a Milena me deu quando era criança, eu nem me lembrava quando foi que essa briga entre a gente começou, a gente sempre foi tão unida, temos só dois anos de diferença.

Achei algumas revistas também e alguns CDs, eu sorri pensando que eu já tive algumas fases que eu não teria coragem de falar pra ninguém, conforme ia tirando as coisas da caixa, mas coisas iam aparecendo, como se eu tivesse guardado tudo aquilo para esse tipo de momento, tinham tantas fotos em família e pequenos tesouros que eu acabava guardando toda vez que viajávamos, inclusive achei algumas pequenas conchas e pedras que eu acaba trazendo toda vez que íamos na casa do Ethan, lembro bem de uma vez que ele me trouxe uma pequena pedra que tinha encontrado na beira do lago, eu fiquei tão feliz, eu mostrei para todo mundo quando ele me deu... eu não conseguia lembrar de qualquer momento em que ele tenha me tratado mal, queria muito poder dizer que ele me maltratava e que ele era uma pessoa ruim, acho que assim seria muito mais fácil não gostar dele, mas infelizmente as coisas não são assim, ele sempre cuidou muito de mim e sempre foi muito atencioso, acho que era por isso que eu gostava tanto dele... Mexi mais um pouco e vi algo no fundo da caixa, guardado em um saquinho transparente.

- O que é isso? – Era um papel – Quando abri vi uma carta, eu tinha escrito pro Ethan, como eu tinha me esquecido disso! Eu nunca tive coragem de entregar, quando lembrei minha vista começou a arder, eu não queria mais, não queria mais chorar... Eu só peguei aquela carta e abracei, deitei no chão e fechei meus olhos mais uma vez.

Capitulo 7

Quando abri meus olhos de novo eu estava largada no chão, nem sabia que horas eram só sentia uma dor imensa nas minhas costas, como se um trator tivesse passado por cima de mim.

Me encurvei um pouco tentando fazer aquela dor passar, respirei um pouco mais fundo e decidir levantar, a dor era incomoda, mas eu precisava levantar, andei até a cozinha e abri o armário, estava praticamente vazio, só tinha algumas massas velhas e na geladeira só um leite aberto que só Deus sabe quanto tempo estava na geladeira.

Respirei fundo, peguei meu celular e decidi ir até um mercadinho que tinha no final da esquina, eu ainda estava andando esquisita por conta da dor nas costas, entrei no mercado e peguei algumas coisas pra fazer uma janta rápido, foi quando cheguei no caixa e a dona do mercado sorriu:

- Cadê aquela moça que sempre está com você? – ela perguntou passando as compras

- A Anna? – perguntei, ela fez que sim com a cabeça – Ela está na casa dela!

- Nós estávamos conversando outro dia e ela perguntou se eu conhecia alguém que estava alugando um apartamento e eu tenho um cliente que está

- Vou avisar pra ela – respondi – você tem o número dele?

- Aqui! – ela me passou um cartão – Não é tão grande, mas quem sabe ela não gosta!

- Vou mandar pra ela – Olhei o cartão e vi que ele era advogado, guardei no bolso, eu paguei minhas compras e fui para casa, pensando que ainda teria que fazer a comida, eu estava tão cansada que só queria dormir, mas eu nem lembro da ultima vez que eu comi.

Quando cheguei em casa, preparei um sanduíche rápido e tirei aquele cartão do bolso e fiquei olhando, será que a Anna queria mudar? Ela não me falou nada, o lugar que ela mora é tão bom.

Peguei o cartão e tirei uma foto, mandei pra ela com uma mensagem simples enquanto terminava meu sanduiche e peguei finalmente minhas malas que estavam abandonadas na porta, minhas costas gritavam a cada degrau que eu subia, quando cheguei no meu quarto, só me joguei na cama, eu respirava com um pouco de dificuldade e senti meu celular vibrando, quando olhei na tela:

“Mensagem de Ethan”

Meu coração gelou, o que será? Eu sabia que não devia abrir, mas meu coração batia descompassadamente, eu só não queria sentir tudo aquilo, joguei o celular do lado e fechei meus olhos, eu não queria parecer estar disponível, eu respirava fundo e tentava me lembrar: Ele não te quer! Ele não te quer! Acorda!

Tentei não mexer no celular e me forcei a esperar por um tempo, quando abri o olho, já tinha amanhecido, olhei para os lados e me sentei na cama.

- Realmente a idade chegou – passei a mão pelos meus cabelos que estavam bagunçados, eu não tinha nem escovados os dentes, fui no banheiro e escovei os dentes, quando voltei peguei meu celular e vi duas mensagens que me chamaram atenção, uma era a do Ethan e outra da Anna.

“ Lena era pra um amigo que queria de mudar, mas ele conseguiu renovar o contrato”

- Ah que coisa... – Tirei o cartão do meu bolso e olhei mais um pouco – Será?

Escrevi uma mensagem simples, me apresentando e pedindo mais informações sobre o apartamento, mandei e em seguida recebi uma mensagem automática, sorri e balancei a cabeça.

Comecei a desfazer minha mala e foi quando tirei o vestido, comecei a sorrir e me lembrei daquela noite:

- Será que você lembra de mim? – me perguntei por alguns instantes, sei que não devia ter saído de fininho, mas eu não sabia se ele iria agir de manhã, afinal ele mesmo disse que aquela festa só tinha um objetivo, mas eu não podia negar, ele me fez esquecer por um momento.

Guardei as coisas aos poucos, eu ainda estava tão cansada que mal conseguia pensar direito, quando não aguentei mais eu desci pra comer alguma coisa, eu não sentia muita fome, o que eu estranhei porque sempre comi muito, enquanto o macarrão cozinhava na água, meu celular vibrou de novo, o advogado tinha respondido.

“ Ele está disponível ainda, você quer visitar?”

Será que eu devo? Nem sabia se teria dinheiro para pagar um apartamento novo, apesar que faz anos que eu digo que vou me mudar e ainda estou aqui? Eu disse que eu iria mudar quem eu era e já estava com os velhos hábitos, toda vez que algo de bom surgia eu sempre deixava de fazer, preocupada em como minha família ia reagir, mas eles nem estavam ali e nem mensagem tinham mandado pra saber como eu estava. Acho que estava na hora de cortar o cordão e fazer valer a promessa que fiz pra mim.

Respondi a mensagem perguntando quando poderia visitar e ele prontamente me respondeu perguntando se gostaria de ir hoje!

- Ah porque não? Já tô na merda mesmo! – Sorri – Pior do que tá tem como ficar!

Marquei com ele depois do almoço, fiz meu macarrão rapidinho, coloquei uma roupa e fui ate lá, era meio longe de onde eu morava, tive que pegar um ônibus, mas quando cheguei no bairro parecia ser um lugar tranquilo, diferente de onde eu morava que era bem no centro e um lugar bom onde muitas pessoas queriam morar.

Encontrei um Sr na frente do imóvel, corri ate la e me apresentei:

- Boa tarde, sou Helena... – estendi a mão e puxei a mão – Vim visitar o apartamento...

Ele me olhou assustado e puxou a mão com força, eu olhei pra ele sem entender, ele só saiu andando resmungando.

- Helena...? – olhei pra trás e tinha um homem parado atras de mim segurando o riso – Oi, eu sou o Carlos... dono do apartamento – ele estendeu a mão, na hora senti meu rosto ficar vermelho....

- Eu achei.... – tentei disfarçar

- Sem problemas – ele disse rindo – Vamos lá?

Ele abriu a porta e subimos por uma escada, o prédio tinha um estilo meio gótico, mas era extremamente bem conservado, quando entramos ele me mostrou os ambientes e me explicou que tinha feito algumas reformas, mas que eu poderia mudar caso não gostasse.

A sala era pequena, mas tinha uma janela que tinha um armário em cima, onde eu tinha certeza que a Anna iria querer fazer um sofá e não sairia de la por nada! A cozinha era estilo americano e tinha uma bancadinha fofa que comportaria duas pessoas tranquilamente, eu não precisaria mais comer no meu quarto, o banheiro era gigantesco, um sonho ele tinha ate uma banheira pequena que segundo o Carlos acabou sendo colocada pela antiga inquilina que precisava dar banho na sua mãe e o quarto foi o que me ganhou, ele era grande e tinha um ar acolhedor, com lindo armários com um tom meio turquesa, eu podia facilmente me ver ali, eu olhei pela janela que tinha ali e a claridade e as pessoas passando do lado de fora me passou tanta paz, ele me explicou mais algumas coisas técnicas, que sinceramente acabei não escutando muito porque já estava imaginando o potencial daquele lugar...

- Bom é isso, caso decida ficar... – ele me mostrou alguns papéis – Faríamos apenas um contrato de gaveta e pediria apenas 2 meses de depósito.

Eu peguei os papeis e olhei por alguns minutos, ele sorria pra mim, eu me despedi e segui para casa segurando aquele contrato como se ele fosse a coisa mais preciosa que tinha naquele momento. Quando cheguei em casa coloquei ele na mesa do meu quarto, fui terminar algumas coisas que tinha pra fazer, eu sei que poderia pagar, com o dinheiro que eu tinha guardado, mas algo me deixava triste, olhei para o meu quarto de novo, eu não queria sair, mas eu me sentia como uma intrusa, eu sabia que minha cabeça queria me enganar de novo, mas eu não tinha nada, se saísse dali só levaria minhas roupas e mais alguns móveis, teria que começar do zero e ainda por cima ter que aguentar o sermão dos meus pais.

- Deus, o que eu faço?

Encostei minha cabeça na mesa e tentei pensar, será que aquilo estava certo? Eu sabia que eles precisavam de mim, mas eles agiam como se eu não fosse nada? Nunca me convidavam para nada, mas quando estávamos em casa, em alguns momentos era tão bom, como se eu estivesse na minha infância, onde minha mãe contava algumas histórias, enquanto meu pai falava de alguma coisa vergonhosa dela, eu queria tanto ter aquilo sempre, queria tanto ter uma família que eu pudesse fazer isso também.... eu só não sabia como fazer aquilo....

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