####CAPÍTULO 03

Um silêncio quase palpável se instala por todo o ambiente, fazendo com que eu me sinta extremamente consciente de que centenas de profissionais experientes e acadêmicos estão prestando atenção em cada palavra que sai da minha boca.

—'Preston não interrompe e continua me observando com uma atenção concentrada e analítica.

— Qual é o seu nome completo, senhorita?

— Madison Christ, senhor, venho do Haras Silver Creek, no Texas.

Algo muda discretamente na expressão rígida do rosto dele ao ouvir a minha resposta.

— Silver Creek, ele repete em tom baixo, como se estivesse buscando internamente alguma memória antiga ou registro associado àquele nome geográfico.

Eu aguardo em silêncio que ele continue a interação.

— Por favor, continue com a sua linha de raciocínio, senhorita Christ.

Eu aperto levemente o corpo da minha caneta entre os dedos para canalizar a adrenalina do momento.

— A análise genética avançada pode, sem dúvida alguma, definir e mapear o potencial biológico de um animal.

— Ela pode determinar características estruturais importantíssimas e aumentar de forma expressiva as probabilidades de sucesso em um programa de seleção.

— Contudo, eu acredito do fundo do meu coração que seja exclusivamente o vínculo de confiança desenvolvido no dia a dia com o animal que permita transformar esse potencial teórico em um rendimento prático de excelência.

— Um cavalo pode perfeitamente obedecer às ordens de um cavaleiro apenas por puro condicionamento mecânico ou medo da punição, porém a verdadeira confiança é algo completamente diferente e superior à simples obediência cega.

Preston cruza os braços na altura do peito, mantendo o microfone perto da boca.

— Ele não parece nem um pouco contrariado com a minha intervenção pública.

— Na verdade, ele parece genuinamente interessado no meu ponto de vista.

A percepção desse interesse sincero me dá a coragem necessária para ir ainda mais longe na minha explicação.

— Um animal acuado ou assustado também cumpre ordens e obedece aos comandos por sobrevivência, senhor Lawson.

— No entanto, o fato de ele obedecer sob pressão não significa de forma alguma que ele confie na pessoa que o está conduzindo naquela pista.

Um murmúrio discreto e contido de opiniões divididas percorre as fileiras de cadeiras ao nosso redor.

— Então a senhorita está querendo afirmar diante deste auditório que os métodos humanos de treinamento e manejo diário são capazes de interferir diretamente na manifestação prática de características que foram selecionadas geneticamente em laboratório?

— Eu estou afirmando que tenho a convicção de que eles podem interferir de maneira profunda e definitiva.

— O fato de um animal possuir um excelente e caríssimo potencial genético não o impede de desenvolver bloqueios emocionais, medos profundos, inseguranças graves ou comportamentos de resistência crônica quando ele é conduzido ao longo da vida de uma maneira insensível ou inadequada.

Preston permanece durante alguns segundos inteiros em um silêncio absoluto, absorvendo cada palavra do meu argumento sem piscar.

— E qual seria, na sua visão prática, a alternativa correta para evitar essa degradação do animal?

Agora, um pequeno sorriso espontâneo surge nos meus lábios diante da simplicidade da resposta que trago de casa.

— Aprender a escutar o cavalo antes de tentar dominá-lo.

Algumas poucas pessoas espalhadas pelo auditório deixam escapar risadas discretas e céticas ao ouvirem essa frase.

— Ele, no entanto, não ri em momento algum.

— Explique melhor o que a senhorita quer dizer com essa expressão.

— Significa observar com atenção o animal antes de começar a fazer exigências técnicas dele. Significa buscar entender o temperamento individual, respeitar os limites físicos e psicológicos e analisar as respostas comportamentais que ele nos dá a cada abordagem.

O meu pai sempre costuma dizer na nossa fazenda que existem cavalos que correm em uma competição apenas porque foram ensinados mecanicamente a correr sob dor ou pressão, e existem aqueles raros cavalos que correm com a alma porque confiam plenamente na pessoa que pediu para que eles dessem o seu melhor.

—Os olhos escuros de Preston se estreitam levemente enquanto ele digere essa reflexão.

— E a senhorita realmente acredita que essa diferença filosófica no manejo é capaz de produzir um campeão de alto rendimento?

— Eu acredito com certeza absoluta que essa filosofia é capaz de produzir algo infinitamente melhor e mais valioso do que um simples troféu.

— O quê, por exemplo?

— Um verdadeiro campeão que não precise ter o seu espírito ou a sua saúde destruídos para conseguir vencer uma prova.

Dessa vez, absolutamente ninguém no auditório se atreve a rir ou fazer qualquer comentário sarcástico.

O meu rosto esquenta consideravelmente ao perceber a força e o peso das palavras que acabei de pronunciar diante de tanta gente importante, mas eu sustento o meu olhar e não recuo um único milímetro da minha posição.

— Preston continua olhando diretamente para mim por longos segundos que parecem se arrastar no tempo, mantendo uma intensidade que faz o restante da sala parecer desaparecer ao fundo.

Então, um sorriso discreto e quase imperceptível surge no canto direito da sua boca.

— Essa foi uma excelente e extremamente necessária observação, senhorita Christ.

Espontaneamente, uma onda de aplausos entusiasmados começa a se espalhar pelas fileiras de cadeiras do auditório, vinda de diversos profissionais que se identificaram com a reflexão.

— Sinto as minhas bochechas queimarem intensamente de vergonha pela atenção recebida e abaixo rapidamente os olhos para o meu caderno por alguns instantes para tentar recuperar o meu autocontrole.

Quando volto a erguê-los para o palco, vejo que Preston ainda está com o olhar fixo em mim, ignorando o restante da plateia.

— Talvez exista aqui uma variável fundamental que as nossas pesquisas laboratoriais mais avançadas ainda não consigam medir ou quantificar adequadamente através de dados estatísticos — acrescenta ele com a voz pausada que ressoa pelas caixas de som. — O vínculo afetivo. Ou, se me permitirem utilizar uma palavra muito menos científica e muito mais humana dentro deste congresso acadêmico, o amor pelo animal.

O meu sorriso ressurge nos meus lábios antes mesmo que eu consiga ter qualquer controle racional sobre ele.

— O amor, senhorita Christ, continua sendo uma das poucas e mais poderosas variáveis da vida que a ciência ainda não foi capaz de decifrar ou engarrafar completamente.

A salva de aplausos se intensifica por todo o auditório principal, marcando o encerramento da apresentação.

Olivia se inclina rapidamente na minha direção, com os olhos arregalados de puro choque e uma expressão incrédula no rosto.

— Madison, você tem noção de que acabou de entrar em uma discussão conceitual pública com o Preston Lawson na frente de centenas de especialistas do mundo inteiro?

— Eu não entrei em discussão nenhuma com ele, Olivia. Eu apenas respondi com sinceridade à pergunta que ele mesmo fez para a plateia.

— Madison, pelo amor de Deus, ele passou praticamente a segunda metade inteira da palestra olhando quase que exclusivamente para você depois que você falou tudo aquilo.

— Por favor, pare de dizer esse tipo de bobagem.

— Eu estou falando absolutamente sério, você precisa ver a cara dele.

Eu finjo voltar a minha atenção concentrada para as folhas do meu caderno, tentando rabiscar algo, embora a minha mente esteja tão acelerada que eu não consiga escrever absolutamente nada que faça sentido naquele papel.

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