Passei a observar com atenção cada movimento da alma de Wallace.
Talvez se afastar demais do próprio corpo dificultasse seu retorno. Por isso, ele quase sempre permanecia no quarto e só saía para tomar um pouco de ar quando o tempo estava agradável.
A última vez que se arriscara a ir tão longe havia sido para ver Eliane.
Agora que finalmente desistira dela, também havia se aquietado.
Enquanto eu cuidava de seu corpo, a alma permanecia por perto, resmungando sem parar.
— Como Vitória descobriu que eu gosto de ópera? Pelo visto, pesquisou bastante sobre mim. Nada mal.
Ele percorreu o quarto com os olhos e logo encontrou outro motivo para reclamar.
— Mas custava descobrir também que minha fruta preferida é jaca? Todo dia ela me faz sentir cheiro de maçã. Já não aguento mais.
No dia seguinte, apareci com uma jaca enorme e comecei a abri-la bem diante dele.
— Senhor herdeiro, quantos gomos acha que vamos encontrar aqui dentro?
Àquela altura, eu já me sentia bem mais à vontade. Até havia adquirido o hábito de brincar com os dedos de Wallace.
Às vezes, dobrava alguns para formar o número seis. Em outras, mudava a posição deles para fazer um oito.
No começo, a alma protestava na mesma hora.
— Pare com isso! Ninguém jamais ousou me tratar desse jeito. Está achando que sou seu brinquedo?
Com o tempo, porém, ele se acostumou.
Passou a apenas revirar os olhos, tentando disfarçar o sorriso que insistia em surgir no canto da boca.
Logo, o cheiro forte e adocicado da jaca tomou conta do quarto.
A alma se animou de imediato. Até sua vontade de viver pareceu ganhar força.
— Estou morrendo de vontade de comer isso... Preciso acordar logo para devorar uma jaca inteira com Vitória.
Assim que terminou de falar, o traçado do monitor cardíaco apresentou uma leve oscilação.
Peguei alguns gomos e comecei a comer com gosto.
— Sabe de uma coisa, senhor herdeiro? Graças a você, esta é a primeira vez que consigo comer jaca.
Olhei para o homem imóvel sobre a cama e continuei:
— Na casa dos Silva, eu só podia comer as maçãs e as laranjas que já estavam começando a estragar.
Wallace ficou imóvel, como se minhas palavras o tivessem atingido em cheio.
Depois de passar tanto tempo diante de seu rosto, eu já havia me acostumado com sua presença. Aos poucos, comecei a tratá-lo como um amigo e a dividir com ele tudo o que guardava dentro de mim.
— Sua mãe achou que eu estava me esforçando demais e me deu cem mil reais pelo meu trabalho. Mas, na casa dos Silva, eu cuidava dos meus pais e de Eliane. Antes disso, ainda precisava tomar conta dos meus avós.
Deixei escapar uma risada baixa.
— Agora só tenho você para cuidar. Para falar a verdade, minha vida ficou muito mais fácil.
A alma flutuou até meu lado e me observou em silêncio.
Naquele dia, contei coisas que nunca havia conseguido dizer a ninguém.
Falei sobre a forma como meus pais me tratavam e sobre tudo o que Eliane fizera comigo ao longo dos anos.
Depois de colocar para fora toda a amargura acumulada, senti o peito finalmente mais leve.
Wallace, por outro lado, estava com os olhos vermelhos.
— Os pais de Vitória só podem ter algum problema. Como conseguem desprezar uma filha biológica tão boa e, ao mesmo tempo, tratar uma adotiva mimada como uma princesa?
Quanto mais pensava no assunto, mais indignado ficava.
— Quando eu acordar, vou dar uma boa lição naquela família por tudo o que fizeram com Vitória.
Confesso que fiquei um pouco comovida.
Mas ele não precisava se preocupar em dar lição nenhuma.
Se os duzentos milhões de reais caíssem na minha conta sem complicações, eu já agradeceria aos céus.
Depois daquele dia, minha relação com a alma se tornou muito mais próxima.
Continuei fingindo que não sabia de sua existência, mas passei a atender a todos os seus desejos.
Ele, por sua vez, permanecia o tempo todo ao meu lado, acompanhando cada coisa que eu fazia.
E assim se passaram quatro meses.
Naquele dia, enquanto eu voltava a brincar com os dedos de Wallace, um deles se moveu sozinho.
Até a própria alma ficou atônito.
— Meus nervos e músculos... Acho que começaram a responder aos estímulos externos.
Ele encarou o próprio corpo, incrédulo.
— Pelo visto, meu cérebro está se recuperando muito bem. Será que vou conseguir voltar em breve?
Fiquei tão feliz que quase perdi o controle. Corri imediatamente para avisar Sabrina.
A notícia se espalhou depressa.
Além da equipe de especialistas que veio avaliar Wallace, Eliane também apareceu de repente no quarto.
Ela lançou um olhar de desprezo para o homem em coma e me arrastou para fora com brutalidade.
— Ouvi dizer que Wallace vai acordar.
Como permaneci calada, Eliane me deu um tapa no rosto.
— Você acha mesmo que, só porque conseguiu entrar para a família Pereira, agora pode me tratar com essa arrogância?
Wallace rangeu os dentes de raiva.
— Vitória, você é idiota? Revida! Eu estou do seu lado.
Ele avançou furioso na direção de Eliane.
— Não vai bater nela? Então eu bato por você.
No entanto, os socos atravessaram o ar e levantaram apenas rajadas de frio, sem causar o menor dano.
Eliane apontou o dedo para o meu rosto.
— Se Wallace realmente acordar, você vai embora. Vou fazer com que ele acredite que fui eu quem cuidou dele durante todo esse tempo.
Um sorriso presunçoso tomou conta de seus lábios.
— Afinal, eu sou a mulher de quem Wallace gosta. Mesmo depois de despertar, ele só vai querer se casar comigo.