Capítulo 4
A alma reagiu antes de mim.

— Desde que meu cérebro preserve as lembranças deste período, jamais vou me casar com você.

Assim que terminou de falar, porém, ele próprio vacilou.

— Pensando bem... Será que vou me lembrar de tudo quando acordar? E se eu esquecer?

A aflição em seu rosto aumentava a cada segundo.

— Será que a consciência da minha alma vai se integrar por completo à do meu corpo? Como não pensei nisso antes...?

Ele levou as mãos à cabeça, desesperado.

— Estou ferrado. E se eu esquecer tudo e realmente acreditar que foi Eliane quem cuidou de mim?

Esfreguei a bochecha ainda dolorida, tomada pela mesma preocupação.

Wallace podia se casar com quem bem entendesse.

O problema era que, se Eliane roubasse todo o mérito, meus duzentos milhões de reais iriam por água abaixo.

Pouco depois, a alma deu um tapa na própria testa.

— Quase me esqueci da minha mãe. Ela já viu quem Eliane realmente é. Não vai permitir que eu me case com ela de novo.

Seu semblante relaxou.

— Isso. Enquanto minha mãe estiver por perto, ela poderá provar que foi Vitória quem cuidou de mim durante todo esse tempo.

Eliane, no entanto, não pretendia desistir tão facilmente.

Pouco depois, procurou Sabrina e declarou, sem o menor constrangimento:

— A senhora conhece o temperamento de Wallace. Quando ele coloca uma coisa na cabeça, ninguém consegue fazê-lo mudar de ideia. Se decidiu ficar comigo, no fim vai se casar comigo.

Ela fez uma breve pausa, segura de si.

— Quando ele acordar, a senhora não poderá obrigá-lo a se casar com uma mulher que ele nem conhece, poderá?

Então adotou um tom ainda mais incisivo.

— Wallace escapou da morte. Como mãe, a senhora deveria apoiá-lo mais do que nunca, não interferir na escolha da esposa dele.

Para minha surpresa, Sabrina realmente se deixou convencer.

Visivelmente constrangida, ela veio conversar comigo.

— Wallace não sabe quem cuidou dele durante todo esse tempo. Quando acordar, posso dizer que foi Eliane. Os dois já se amavam antes, então o casamento aconteceria naturalmente e todos sairiam satisfeitos.

Ela hesitou por um instante antes de completar:

— Em troca, vou lhe dar uma compensação generosa. Desde que você não conte a verdade, ninguém jamais saberá que foi você quem cuidou de Wallace.

Ao me ver assentir sem contestar, a alma começou a reclamar ao meu lado.

— Vitória, você não consegue lutar um pouco pelo que é seu? Por que vai entregar todo o mérito de bandeja para outra pessoa?

Eu também queria lutar.

Mas havia passado a vida inteira aceitando tudo em silêncio.

Sem uma família influente, sem ninguém ao meu lado e sem confiança em mim mesma, com que forças eu poderia disputar alguma coisa?

A alma me encarou, frustrado com minha passividade.

— Esquece. Não dá para contar com ninguém. Vou ter que me esforçar e garantir que essas lembranças permaneçam quando eu voltar ao corpo.

Depois de convencer Sabrina, Eliane resolveu se precaver.

Antes mesmo de Wallace despertar, divulgou uma declaração à imprensa:

— Graças aos meus cuidados e à minha dedicação, Wallace finalmente está prestes a acordar. Em breve, vamos oficializar nossa união e realizar o casamento. Logo me tornarei, oficialmente, a senhora Pereira. Agradeço a todos pelas felicitações.

Com isso, todos passaram a acreditar que o amor inabalável de Eliane havia sido responsável pelo milagre.

Graças ao acompanhamento de um número cada vez maior de especialistas, somado à forte vontade de viver de Wallace, nem sequer foram necessários seis meses.

Os exames indicaram que seu cérebro já havia se recuperado por completo.

Ele poderia despertar a qualquer momento.

E, quanto mais esse momento se aproximava, menos a alma parecia disposto a se afastar de mim.

— Vitória, espero me lembrar de tudo quando acordar. Que Deus me ajude. Não quero esquecer o que você fez por mim, muito menos confundir Eliane com a pessoa que me salvou.

Eu desejava exatamente a mesma coisa.

Mas aquilo estava além do meu controle.

Naquela manhã, acordei e não encontrei a alma em lugar nenhum.

Entendi na mesma hora.

Wallace estava prestes a despertar.

Chamei Sabrina e a equipe médica imediatamente.

Eliane também apareceu assim que soube da notícia, acompanhada por vários repórteres.

Sob inúmeros olhares carregados de expectativa, os especialistas iniciaram os procedimentos necessários para despertá-lo.

Então, um sinal agudo ecoou pelo quarto.

Wallace, que permanecera inconsciente durante tantos meses, abriu lentamente os olhos.

Todos prenderam a respiração, com medo de perturbá-lo.

Primeiro, ele mexeu os dedos.

Depois, engoliu com dificuldade.

Com os olhos semicerrados, permaneceu encarando o teto, como se tentasse organizar lembranças fragmentadas.

Tudo o que eu podia fazer era rezar para que Wallace ainda conservasse as memórias do período em que sua alma estivera fora do corpo e se lembrasse com clareza de quem realmente cuidara dele.

"Mas e se ele tiver esquecido tudo?"

Nesse caso, além de ter passado seis meses me esforçando em vão, eu ainda teria preparado o caminho para Eliane colher todos os frutos no meu lugar.

Sem conseguir se conter por mais tempo, ela correu para a beira da cama.

— Wallace, você finalmente acordou. Sou eu, Eliane, a mulher que você mais ama.

Ela se inclinou na direção dele, ansiosa.

— Durante estes seis meses, fui eu quem cuidou de você com todo o carinho. Limpei seu corpo, troquei suas fraldas e nunca saí do seu lado.

Sua voz se tornou ainda mais urgente.

— Você sabe disso, não sabe? Lembra de tudo, não é?

A confusão estampada no rosto de Wallace fez meu coração afundar.

"Será que... Ele realmente esqueceu tudo?"

Meus pais se aproximaram e zombaram em voz baixa junto ao meu ouvido:

— Pare de alimentar ilusões. A própria Sabrina já deixou claro que, se Wallace não se lembrar, quem cuidou dele foi Eliane.

— É melhor ir embora logo. Não fique aqui atrapalhando o futuro da sua irmã.

Wallace continuava fitando Eliane.

A decepção apertou meu peito.

Baixei a cabeça e, completamente abatida, me preparei para sair.

No instante seguinte, porém, Wallace finalmente abriu a boca.

Com a voz fria, perguntou...

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